
Neil Clark
Os “neo-cons” e os imperialistas liberais não praticam nem a vergonha
nem o remorso. O mesmo bando de intervencionistas “humanitários” e de
falcões que pressionaram a invasão do Iraque em 2003 passou os dois
últimos anos a fazer propaganda por um ataque contra a Síria.
A mais recente vaga de violência matou pelo menos 54 pessoas e feriu
mais de 100 outras. Em Julho, mais de 1.000 pessoas foram mortas e mais
de 2.300 foram feridas.
Pensarão provavelmente que estou a referir-me à Síria. Mas não. Estou
a falar do Iraque. O país que George W. Bush e Tony Blair “libertaram”
em 2003. Foi-nos dito que a intervenção militar ocidental iria abrir as
portas a uma era maravilhosa de democracia, liberdade e direitos
humanos. Em vez disso, abriu as portas a um aterrador banho de sangue já
com mais de uma década de duração, com os iraquianos comuns a terem de
suportar o pesadelo de viver naquilo que se tornou um dos mais perigosos
países da terra.
Bastante à semelhança da história de Sherlock Holmes “O curioso
incidente do cão nocturno”, o silêncio dos comentadores e políticos
pró-guerra no que diz respeito ao derramamento de sangue em curso no
Iraque é particularmente revelador.
Os mesmos figurões da elite que não paravam de escrever e de falar
sobre o Iraque em 2002 e no início de 2003, dizendo quão terrível a
ameaça das “armas de destruição massiva” de Saddam Hussein era para
todos nós, e como necessitávamos de ir para a guerra com o Iraque não
apenas para desarmar o seu perverso ditador mas também para “libertar” o
seu povo, estão agora silenciosos perante o continuado derramamento de
sangue e o caos provocado pela invasão ilegal. No decurso da invasão em
Março de 2003, não se podia ligar um noticiário televisivo em Inglaterra
ou na América sem que nos aparecesse um “neo-con” ou um
“intervencionista liberal” obsessivamente fixado no Iraque. Na
preparação para a guerra, estes grandes “humanitários” fingiam
preocupar-se com a penosa situação dos iraquianos sob a ditadura de
Saddam – mas nos dias de hoje manifestam pouca ou nenhuma preocupação
pela penosa situação dos iraquianos regularmente esfacelados por bombas,
a um ritmo quase diário. Não há apelos por parte dos “suspeitos do
costume” a uma intervenção humanitária ocidental para deter a matança no
Iraque. Para estes intervencionistas em série (serial interventionists)
o Iraque, depois da invasão, tornou-se a maior não-história da era
moderna. Em vez disso, a mesma gente que falava sem parar do Iraque em
2002-2003 hoje fala sem parar da Síria – fingindo preocupar-se com a
penosa situação dos sírios da mesma forma que derramavam lágrimas de
crocodilo sobre os iraquianos no início de 2003.
É interessante verificar que, no que diz respeito a dados sobre as
baixas, os políticos pró-guerra são capazes de nos dizer exactamente
quantas pessoas morreram na Síria desde que a violência teve início em
2011, (e está claro que para eles todas as mortes são da
responsabilidade pessoal do Presidente Assad), mas quando a questão diz
respeito ao Iraque e ao número de pessoas que aí foram mortas desde
Março de 2003, a informação passa a ser muito mais vaga. “Não fazemos
contagem de vítimas entre gente alheia” foi a notável declaração de
Donald Rumsfeld em Novembro de 2003. Os iraquianos mortos desde Março de
2003 (e o número de baixas varia entre cerca de 174.000 e bastante mais
de um milhão) são, para a nossa elite política, “não-gente”. Em 2013
apenas os sírios mortos (e sírios por cujas mortes as forças
governamentais sírias possam ser responsabilizadas) contam – não os
iraquianos mortos.
É por o Iraque ser apresentado como uma “não-história” e os nossos
dirigentes nunca falarem da situação ali existente que não surpreende
que a percepção pública acerca do morticínio se situe muito abaixo mesmo
das estimativas mais conservadoras. Segundo uma sondagem realizada este
ano, 66 por cento dos britânicos estimava que 20.000 iraquianos, ou
menos, teriam morrido desde a invasão de 2003. Donald Rumsfeld ficaria
sem dúvida encantado ao ouvir isso.
Se tivessem algum resto de vergonha, as pessoas que destruíram o
Iraque podiam ao menos ter tido a gentileza de se retirar da vida
pública. Mas os “neo-cons” e os imperialistas liberais não praticam nem a
vergonha nem o remorso. O mesmo bando de intervencionistas
“humanitários” e de falcões que pressionou a invasão do Iraque em 2003
passou os dois últimos anos a fazer propaganda por um ataque contra a
Síria. Estes belicistas maníacos prefeririam que “virássemos a página”
do Iraque para concentrar a atenção no próximo país do Médio Oriente da
sua lista de objectivos a abater. Mas não devemos nunca “virar a página”
do Iraque até que aqueles que destruíram esse país sejam levados a
julgamento. O caos e o derramamento de sangue a que assistimos hoje no
Iraque é consequência directa das desestabilizadoras e destrutivas
políticas “neo-con” dos EUA e da Grã-Bretanha, e aqueles que são
responsáveis pelo “supremo crime internacional” de infligir uma guerra
de agressão contra um estado soberano devem prestar contas pela enorme
desgraça humana que causaram.
*Jornalista e escritor. O endereço do seu blogue é www.neilclark66.blogspot.com.
Iraque: a maior não-história da era moderna
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Oleh
Kaizim