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5 de fevereiro de 2012

Cuba bombardeou o Haiti com médicos - Uma verdade escondida da Internet

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Uma verdade escondida da Internet

AMELIA DUARTE DE LA ROSA, enviada especial ao Haiti

Há vários dias, circula na Internet um infográfico que o Cubadebate divulgou em seu portal, para mostrar o apoio de muitos às mentiras expostas sobre a Ilha em meio à nova campanha midiática anti-cubana. A imagem, publicada em vários sites, foi criada em abril de 2010 pelo designer e blogueiro madrilense Francisco Arnau.

Com o título Haiti: tem quem te ajuda e tem quem te USA, Arnau colocou no seu blog Ciudad Futura e na rede social Twitter a ilustração que exterioriza o que os jornalistas Emily J. Kirk e John M. Kirk chamaram, em um artigo, um dos segredos melhor guardados do mundo: a cooperação médica cubana no Haiti.

Os veículos informativos internacionais ignoraram durante anos os esforços e a solidariedade de Cuba. Em compensação, souberam sim dar cobertura, insuflar e tergiversar acontecimentos para satanizar a Ilha. A presença da colaboração médica durante 13 anos no Haiti é um dos esforços vítimas do silenciamento e a censura midiática arbitrária e premeditada.

Logo depois do terremoto, quando a tragédia do Haiti encabeçava as manchetes de todas as notícias, vários governos e organizações não governamentais aproveitaram a circunstância para se mostrar caridosos e ganhar pontos no protagonismo humanitário. No entanto, apesar de 744 médicos cubanos estarem trabalhando nesta terra em janeiro de 2010 —produto da colaboração iniciada em 1998, quando o furacão George arrasou o país—, a imprensa apresentava a ajuda norte-americana como a primeira na fila de respostas.

Em uma reportagem publicada em 2010, Emily J. Kirk e John M. Kirk dizem que: "A cobertura informativa da cooperação médica cubana após o devastador terremoto do Haiti foi certamente escassa. Enquanto a Fox News cantava os louvores da ajuda norte-americana na reportagem intitulada Eua encabeça a resposta global ao terremoto do Haiti, a CNN também retransmitia centenas de notícias e, de fato, uma delas girava em torno a um médico cubano ao que, no entanto, dizia ser um médico espanhol".

Mais adiante, mencionam que em março de 2010 "o site da CNN, por exemplo, tinha 601 notícias do terremoto no Haiti, das quais somente 18 aludiam (superficialmente) à ajuda cubana. De maneira similar, o The New York Times e o The Washington Postpublicaram 750 reportagens sobre o terremoto e a ajuda prestada, mas nenhuma expunha o mais mínimo detalhe da ajuda cubana. A função desempenhada pelos médicos cubanos, porém, foi na verdade extraordinariamente importante".

Outro artigo publicado no Kaos en la red, escrito por José Manzaneda, explica que "os cooperadores da brigada médica cubana no Haiti foram a assistência sanitária mais importante ao povo haitiano durante as primeiras 72 horas após o terremoto. Esta informação foi censurada pelos grandes meios de comunicação. No dia 15 de janeiro, o jornal El País publicou um infográfico sobre a ayuda financeira e as equipes de ajuda, na qual Cuba nem sequer aparecia entre os 23 estados que deram colaboração. A rede norte-americana Fox News chegou a afirmar que Cuba é dos poucos vizinhos do Caribe que não deram ajuda.

Até Steve Clemons, que dirige um dos principais programas da New America Foundation, e é editor do blog político The Washington Note escreveu, poucos dias depois do terremoto, um artigo onde dizia que: "Cuba se converteu em um provisor nato de ajuda frente às catástrofes, com programas de assistência médica em todo o mundo". O especialista também recomendou que os EUA deveriam reconhecer a ajuda de Cuba ao Haiti e retirar a Ilha da lista de países terroristas.

Não obstante, uma rápida busca na web sobre a ajuda de Cuba no Haiti durante o terremoto e a epidemia de cólera não traz resultados de notícias procedentes das grandes agências de notícia ou de corporações midiáticas. Nem sequer aparece quando, em abril de 2011, o ex-presidente norte-americano William Clinton, enviado especial da ONU ao Haiti, admitiu a importância da colaboração cubana no empobrecido país. A busca também não mostra que há mais de um ano, nenhum haitiano atendido pelos médicos cubanos morre de cólera.

No entanto, ainda que os meios de comunicação ignorem a ajuda de Cuba, o governo haitiano não fez o mesmo. Em sua visita mais recente a nosso país [Cuba], o presidente Michel Martelly agradeceu a colaboração cubana —uma das poucas que ainda permanecem e continuará no Haiti, apesar de qualquer tentativa de manipulá-la ou desconhecê-la.

Fonte: Traduzido do Granma.

25 de outubro de 2011

Há sete anos milicos brasileiros ocupam o Haiti

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Crédito: 3.bp.blogspot
Haiti, país ocupado

Eduardo Galeano

Consulte qualquer enciclopédia. Pergunte qual foi o primeiro país livre na América. Receberá sempre a mesma resposta: Estados Unidos. Mas os Estados Unidos declararam a sua independência quando eram uma nação com 650 mil escravos, que continuaram a ser escravos durante mais um século, e estabeleceram na sua primeira Constituição que um preto equivalia a três quintas partes de uma pessoa.

E se perguntar a qualquer enciclopédia qual foi o primeiro país a abolir a escravatura, receberá sempre a mesma resposta: Inglaterra. Mas o primeiro país que aboliu a escravatura não foi a Inglaterra mas o Haiti, que continua ainda a expiar o pecado da sua dignidade.

Os escravos negros do Haiti tinham derrotado o exército glorioso de Napoleão Bonaparte e a Europa nunca perdoou essa humilhação. Durante um século e meio, o Haiti pagou à França uma indenização gigantesca por ser culpado da sua liberdade, mas nem isso chegou. Aquela insolência negra continua a ferir os amos brancos do mundo.

De tudo isso sabemos pouco ou nada.

O Haiti é um país invisível.

Só se tornou famoso quando o terramoto de 2010 matou mais de 200 mil haitianos.

A tragédia levou o país a ocupar, fugazmente, o primeiro plano dos meios de comunicação. O Haiti não é conhecido pelo talento dos seus artistas, magos da sucata capazes de transformar o lixo em beleza, nem pelas suas façanhas históricas na guerra contra a escravidão e a opressão colonial. Vale a pena repetir uma vez mais, para que os surdos o oiçam: o Haiti foi o país fundador da independência da América e o primeiro país a derrotar a escravidão no mundo.

Merece muito mais que a notoriedade nascida das suas desgraças.

Atualmente, os exércitos de vários países, incluindo do meu, continuam a ocupar o Haiti. Como se justifica esta invasão militar? Alegando que o Haiti põe em perigo a segurança internacional.

Nada de novo.

Ao longo de todo o século XIX, o exemplo do Haiti constituiu uma ameaça para a segurança dos países que continuavam a praticar a escravatura. Já Thomas Jefferson o dissera: do Haiti provinha a peste da rebelião. Na Carolina do Sul, por exemplo, a lei permitia prender qualquer marinheiro negro enquanto o seu barco estivesse no porto, devido ao risco de contágio da peste antiescravagista. E no Brasil, essa peste chamava-se “haitianismo”.

Já no século XX, o Haiti foi invadido pelos marines, por ser um país «inseguro para os seus credores estrangeiros». Os invasores começaram por se apoderar das alfândegas e entregaram o Banco Nacional ao City Bank de Nova Iorque. E uma vez que já lá estavam, ficaram durante dezenove anos.

Chama-se «o mau passo» à passagem da fronteira entre a República Dominicana e o Haiti. Talvez o nome seja um sinal de alarme: está a entrar no mundo negro, da magia negra, da bruxaria…

O vodu, a religião que os escravos trouxeram de África e que se nacionalizou no Haiti, não merece chamar-se religião. Do ponto de vista dos donos da civilização, o vodu é coisa de pretos, ignorância, atraso, superstição pura. A Igreja Católica, onde não faltam fiéis capazes de vender unhas dos santos e penas do arcanjo Gabriel, conseguiu que esta superstição fosse oficialmente proibida em 1845, 1860, 1896, 1915 e 1942, sem que o povo se desse por achado.

Mas há já alguns anos que as seitas evangélicas se encarregam da guerra contra a superstição no Haiti. Estas seitas vêm dos Estados Unidos, um país que não tem 13º andar nos seus prédios, nem fila 13 nos seus aviões, habitado por cristãos civilizados que acreditam que Deus criou o mundo numa semana. Nesse país, o pregador evangélico Pat Robertson explicou na televisão o terremoto de 2010. Este pastor de almas revelou que os negros haitianos tinham conquistado a independência à França recorrendo a uma cerimónia vodu, e invocando, do fundo da selva haitiana, a ajuda do Diabo. O Diabo, que lhes deu a liberdade, passou a fatura enviando-lhes o terremoto.

Até quando permanecerão no Haiti os soldados estrangeiros? Eles vieram para estabilizar e ajudar, mas estão há sete anos a desajudar e a desestabilizar este país que não os deseja.

A ocupação militar do Haiti custa às Nações Unidas mais de 800 milhões de dólares por ano.

Se as Nações Unidas destinassem esses fundos à cooperação técnica e à solidariedade social, o Haiti poderia receber um bom impulso para o desenvolvimento da sua energia criadora. E assim se salvariam dos seus salvadores armados, que têm alguma tendência para violar, matar e espalhar doenças fatais.

O Haiti não precisa que venham multiplicar as suas calamidades. Também não precisa da caridade de ninguém. Como diz um antigo provérbio africano, a mão que dá está sempre acima da mão que recebe.

Mas o Haiti precisa de solidariedade, de médicos, de escolas, de hospitais e de uma verdadeira colaboração que torne possível o renascimento da sua soberania alimentar, assassinada pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial e por outras sociedades filantrópicas.

Para nós, latino-americanos, essa solidariedade é um dever de gratidão: seria a melhor maneira de agradecer a esta pequena grande nação que em 1804 nos abriu, com o seu contagioso exemplo, as portas da liberdade.

(Este artigo é dedicado a Guillermo Chifflet, que foi obrigado a demitir-se da Câmara de Deputados quando votou contra o envio de soldados uruguaios para o Haiti.)

Artigo de Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, autor do livro "As veias abertas da América Latina". Tradução de Helena Pitta. Publicado originalmente em Brecha, Montevidéu, 30/09/2011.

http://diariogauche.blogspot.com/2011/10/ha-sete-anos-milicos-brasileiros-ocupam.html