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2 de março de 2015

Nota do PCB e UJC em Goias sobre as recentes prisoes de manifestantes da luta do transporte




O PCB-Partido Comunista Brasileiro e a UJC-União da Juventude Comunista vem a público prestar sua solidariedade militante aos presos políticos do Estado de Goiás, detidos no dia 26 de fevereiro, por colaborarem com as manifestações populares contra o aumento da tarifa da passagem no transporte público em Goiânia.
As prisões ocorreram de forma completamente autoritária e desmotivada, destacando-se que um dos detidos é moderador da página Desneuralizador, que faz cobertura das manifestações, e cobria o ato espontâneo no Terminal da Praça A.
A capital de Goiás há anos é palco de manifestações populares contra a mercantilização e sucateamento do direito ao transporte público. A atitude dos governos burgueses, sejam eles tucanos ou petistas, sempre foi a mesma: reprimir brutalmente o povo na luta por seus direitos e garantir os lucros das empresas de transporte.
O PCB exige a imediata libertação dos quatro presos políticos e chama todos os trabalhadores, estudantes e usuários do transporte público de Goiânia a fortalecer a luta por um transporte público gratuito, de qualidade e sob o controle popular.

18 de julho de 2013

Alcance e visão de uma declaração comum


Partido Comunista Colombiano

A breve, porém significativa declaração assinada pelos primeiros comandantes do ELN e das FARC-EP, dada a conhecer em 1° de julho passado, expressa uma vontade política compartilhada de grandes conquistas para a realidade colombiana atual. Nelas, as duas organizações revolucionárias expressam seu compromisso com o “objetivo de alcançar uma sociedade democrática, inclusiva, soberana e em paz” e convidam o povo “a trabalhar unido e a mobilizar-se nessa direção”.

Uma leitura fora do contexto poderia traduzir o escrito como simples retórica. Seria ignorar que a declaração sintetiza, na realidade, acordos longamente trabalhados e que representa, como reconhece a mensagem, a superação de um prolongado período de diferenças e atritos em regiões do país, hoje cenário de processos sociais de reconciliação, reencontro e propósitos comuns. Porém, sobretudo, seria desconhecer o ambiente político, de mobilização popular e intelectual suscitado à raiz dos diálogos de paz de Havana, cujo marco necessariamente alude.

A essência do documento apresenta a tese de que a solução política ao conflito interno armado “passa pela necessidade incontornável de promover conversações com toda a insurgência colombiana”. Pela primeira vez no presente século, no contexto de um processo de diálogo, se postula um alargamento dos alcances da solução política através da ampliação do campo de participantes, que se propõe estender a toda a insurgência colombiana. Independentemente da resposta que o governo está dando a esta exigência, mais além dos estreitos cálculos táticos dos assessores estadunidenses curtidos no Afeganistão, esta nova realidade representa um primeiro desafio muito grande frente à opção de uma paz democrática, justa e transformadora.

Essa paz tem um nome claro que a distingue dos vãos empenhos da “paz express”, em troca de um pacote de promessas. Trata-se de uma “Paz com Dignidade e Justiça Social” destinada a ter um impacto civilizador na nação e no continente. Como o assinalara o presidente Mujica, do Uruguai, o que está sendo construído é a paz da América Latina. Por isso, destoam tanto os tombos de Santos fazendo acordos com a OTAN ou prestando-se a ações desestabilizadoras contra a Venezuela.

Destaca a declaração que esta paz tem que ser obra do povo unido. Não como um acordo oco. Salienta a importância na busca da unidade de todas as forças políticas e sociais empenhadas em obter mudanças profundas na sociedade. Este chamado constitui um segundo desafio que é preciso compreender e assumir.
Jaime Caycedo

Secretário Geral do Partido Comunista Colombiano

Fonte: http://www.solidnet.org/colombia-colombian-communist-party/colombian-cp-alcance-y-vision-de-una-declaracion-comun-sp

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

13 de junho de 2013

Pobreza e fome nas Canárias: situação desesperadora

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Publicado por Unidad y Resistencia.
Terça-feira, 11 de junho de 2013
A fome se estende pelas Canárias. A situação da imensa maioria dos mais de 2,1 milhões de canárias e canários volta a ser desesperadora após cinco anos de crise. Os dados são chocantes:
  • 385.600 desempregados, 34,27% da população ativa. Somente 749.000 trabalhadoras e trabalhadores do Arquipélago possuem algum tipo de emprego, porém com salários mais baixos de todo o Estado espanhol. 13% das pessoas com emprego também estão abaixo da linha de pobreza. A taxa de desemprego juvenil é de 70,3%
  • 33,8% da população canária (726.000 pessoas) vive abaixo da linha de pobreza, estando na exclusão social ou a ponto de cair nela. 38,2% das meninas e meninos canários são pobres.
  • Umas 118.000 famílias canárias têm todos os seus membros desempregados e 26.000 famílias não possuem nenhuma renda. Mais de 474.000 lares, 60% do total dos 780.000 lares canários, não têm capacidade para pagar impostos.
  • 500.000 canárias e canários têm que apelar anualmente para a beneficência pública. O número de pessoas que tem de recorrer ao auxílio de organizações de caridade para pedir comida é multiplicado por cinco.
  • Enquanto existem mais de 70.000 habitações vazias, somente em 2012 foram executadas 1.848 expulsões, 5 famílias a cada dia. Padecemos uma média de 32 mortes anuais de pessoas sem teto. Mais de 1.000 canárias e canários pernoitam nas ruas.
  • A deterioração da saúde pública, a redução de medicamentos e recursos hospitalares e o aumento galopante das listas de espera estão provocando uma ampliação no número de mortes evitáveis, que os responsáveis políticos se negam a quantificar.
  • Cresce o número de crianças que chegam sem comer aos colégios. Reduz-se o número de professores, mas aumentam os trâmites burocráticos exigidos aos trabalhadores da educação.
  • O crescimento das taxas universitárias obriga milhares dos melhores jovens canários a deixarem os estudos.
Assim, a desigualdade social cresce sem parar: menos de 1% da população concentra 80% da riqueza. 8% do Produto Interno Bruto (PIB) das Ilhas está nas mãos de tão somente 21 famílias.
E o pior de tudo: permanecemos como um povo desarticulado, sem tecido social e desarmados sindical e politicamente.
Fonte: http://www.unidadyresistencia.net/2013/06/pobreza-y-hambre-en-canarias-situacion.html
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

12 de junho de 2013

(Neo)Desenvolvimentismo ou luta de classes?

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VIOMUNDO


Maria Orlanda Pinassi, em Caros Amigos, sugestão do professor Caio Toledo

Às vésperas de completar 25 anos no Brasil, o neoliberalismo vem sendo o mote de importantes análises e balanços acerca do seu desempenho no país, sobretudo por estudiosos do campo da crítica marxista.

De modo breve, o processo neoliberal é apresentado em dois momentos distintos e complementares ao mesmo tempo. O primeiro marcou os anos do governo de FHC através das privatizações de empresas públicas, da desnacionalização da economia, da desindustrialização, da reprimarização da produção interna (produção e exportação de commodities) e da integração da burguesia brasileira ao imperativo capital transnacionalizado.

O momento seguinte enseja o chamado neodesenvolvimentismo, processo que caracteriza os governos Lula e Dilma. Sem romper com a lógica neoliberal, o “modelo” sugere formas neokeynesianas, de modo a administrar os estragos causados pelo neoliberalismo das gestões anteriores.

Segundo consta, o Estado procuraria, então, recompor sua função (de “alívio”) social –- através da criação de empregos (quase sempre precários e temporários), políticas de recuperação do salário mínimo e redistribuição de renda (Bolsas Família, Escola, Desemprego etc.) –, enquanto a economia se renacionalizaria por meio de financiamentos do BNDES à reindustrialização pautada na substituição de importações.

Argumentos fortemente questionáveis visto que as empresas públicas privatizadas hoje são fortemente controladas por capitais externos (vide Vale), numa lógica em que a economia transnacionalizada do sistema reconduz o Brasil ao papel produtor de bens primários para exportação.

É desse modo subalternizado que, pelas mãos do neoliberalismo, o capitalismo brasileiro vem apresentando alguns dos melhores desempenhos econômicos do sistema. O capital, em processo de crise generalizada, tem pouco a lamentar e muito a comemorar por aqui: veja-se a estratosférica lucratividade bancária e o enorme crescimento da indústria da construção civil. Mais impressionante ainda é o desempenho da mineração, do agronegócio, do setor energético e dos números que apontam para o grande aumento de áreas agricultáveis (1) , de florestas, de rios e outras tantas de proteção ambiental, invadidas e destruídas por pasto, monocultivo de cana, de soja, de celulose, de laranja, por extração mineral, por barragens.

Com razão, é unânime a condenação que se faz da hegemonia do capital financeiro sob o neoliberalismo tendo em vista as consequências sociais nefastas que provoca. Estranhamente, porém, a solução que alguns estudiosos do tema encontram para esse “impasse” vem da Economia Política e não de Marx.

Ressaltam os avanços das políticas sociais dos governos petistas, mas, acometidos de uma espécie de “síndrome de Proudhon”, ouvem o sino tocar sem saber onde ele se encontra. Procuram-no num revival antidialético e romântico do Estado de Bem Estar Social, do predomínio da indústria fordista, com suas formas mais “humanizadas” de extração da mais-valia relativa. Saudades de algo que jamais existiu por aqui.
Para além dessas boas intenções, o neoliberalismo, desde suas primeiras aparições já nos anos de 1990, compõe a processualidade de uma mesma dinâmica de expansão e acumulação de riquezas baseada na superexploração do trabalho. Só que desta vez sem os entraves que as políticas keynesianas originais de controle das crises cíclicas certamente apresentariam à lógica de uma atuação absolutamente intolerante a qualquer limite.

Isso quer dizer que a década de 1990, apesar de ter registrado um desempenho econômico pior do que nos anos 1980, não foi perdida, como pensam, nem de estagnação para o capital. Durante esses anos, o neoliberalismo pôs em prática seu fundamento mais importante, aqui e em todo o mundo capitalista: interrompeu o avanço da classe trabalhadora.

A reestruturação produtiva implantada destruiu empregos e a estabilidade (onde ela existia), criou o desemprego estrutural, disseminou a precarização –- algo bastante familiar ao mundo do trabalho no Brasil — e começou a desmantelar cada um dos direitos trabalhistas conquistados pela classe trabalhadora desde Getúlio. Se o momento FHC criou as condições da miséria, sem, contudo, destruir completamente a classe, o momento seguinte lograria ainda maior sucesso nesta investida, criando e reproduzindo o miserável.

FHC ainda combatia a objetividade da classe trabalhadora, seus sindicatos e os movimentos sociais. Os governos de conciliação de Lula e Dilma mantiveram a política de fragilização da classe trabalhadora e investiram sobre a subjetividade do trabalhador.

Numa obra magistral de engenharia política, não mais o reconhecem como antípoda do capital. Tratam sindicatos e movimentos populares como parceiros e ainda são pródigos na concessão de direitos para as chamadas “minorias”, os direitos de cidadania que vão fortalecer a democracia formal.

Inegável o avanço da Lei Maria da Penha, dos direitos ampliados dos negros, dos índios e dos homossexuais. O problema é a individualização desideologizada do tratamento, devidamente orientado pelo Banco Mundial, de controle social do miserável. (2)

Caminho livre para a lógica da produção destrutiva e nele não há solução jurídica capaz de conter o extermínio de comunidades indígenas, as expropriações sem fim das terras quilombolas, de pequenos produtores e trabalhadores rurais sem terra –- acampados ou assentados –, não há solução possível para as remoções de levas imensas de moradores de comunidades urbanas, muito menos para conter a superexploração de mulheres e crianças ou a disseminação do trabalho escravo no campo e nas cidades. (3)
Para os segmentos atingidos, a criminalização e os rigores da repressão policial. Ou seja, a mais perfeita democracia hoje realizada pelo mundo do capital é a sua absoluta “tolerância” com qualquer forma de extração do sobre-trabalho: pode ser mais valia relativa, pode ser mais valia absoluta.

Vistos dessa ótica, os tempos são inegavelmente difíceis, tornando urgente a tomada de decisão: ou jogamos mais água no moinho satânico ou buscamos caminhos mais autênticos. Ou somos apologetas ou críticos radicais.

Florestan Fernandes foi categórico a respeito: “[...] defendo toda carga possível da saturação-limite dos papéis intelectuais dos sociólogos — não como servos do poder, porém agentes do conhecimento e da transformação do mundo”.

Sem meias palavras, define muito claramente sua opção pela sociologia concreta baseada no “horizonte cultural socialista em sua plenitude revolucionária”. (4)

Não poderia dispor, portanto, de melhor companhia para dizer que não pretendo encontrar soluções para estabilizar o capital; não pretendo dar contribuição para torná-lo mais funcional; nem venho propor algum tipo de pacto social com frações da burguesia supostamente lesadas pelo imperativo capital financeiro.

O ponto de vista que defendo está  ideologicamente comprometido com as necessidades mais legítimas dos indivíduos que compõem a classe trabalhadora, cujo desafio maior da atualidade é conseguir transpor as misérias materiais e ideológicas e reassumir, através da luta, a condição diuturnamente vilipendiada de sujeito da história.

Um primeiro passo deveria ser dado por suas organizações –- ou o que sobrou delas –- no sentido de compreenderem, definitivamente, que o agir revolucionário precisa aprender a se “virar” sem o canto de sereia das instituições mediadoras da ordem.


Notas:

1. Há quem diga que, no Brasil, não há mais latifúndios improdutivos, então, para que Reforma Agrária? Não temos espaço suficiente aqui para demostrarmos quão questionável é essa “ideia”.

2. Ver a respeito o Projeto de Lei PPA 2012/2015 (2011) através do qual a gestão da presidenta Dilma Rousseff se propõe a enfrentar e dar visibilidade através dos programas que englobam o Plano Brasil sem Miséria.

3. Ao contrário, tudo tende a se agravar com a revisão do Código Florestal, da Mineração, da demarcação das terras indígenas.

4. Florestan Fernandes. A natureza sociológica da sociologia. São Paulo, Editora Ática, 1980 (p. 32)

Os comunistas e a redução da maioridade penal


Peter Maahs*
Nós, comunistas, diante da manifestação aparentemente  consensual sobre a necessidade da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, como solução para a delinquência infanto-juvenil, não poderíamos deixar de manifestar nosso posicionamento contrário a tal proposição. Entendemos que qualquer medida de contenção da violência em nosso país deve ser precedida por uma discussão séria e qualificada que, atacando as verdadeiras raízes do problema, não utilize nossa juventude como álibi para justificar a omissão do Estado e os interesses econômicos inconsequentes de uma minoria privilegiada. A nosso ver, os últimos acontecimentos envolvendo crimes cometidos por adolescentes conduziram o debate sobre diminuição da maioridade penal para o campo da marginalização da juventude e do oportunismo eleitoreiro.
Por exemplo, a pesquisa divulgada pela Folha de São Paulo, no dia 17/04/13, segundo a qual 93% dos paulistanos desejariam a redução da maioridade penal, é tendenciosa e expressa, na verdade, a opinião e os interesses de uma parcela ínfima da sociedade. Parcela esta que, maliciosamente, almeja influenciar a opinião pública, em detrimento do conjunto da sociedade, para que seus interesses particulares sejam legitimados como vontade da maioria. No geral, a forma como a delinquência infanto-juvenil vem sendo abordada em nada contribui para a compreensão da gênese desse problema, já que vinte anos de descaso com políticas públicas integradas para a juventude no Estado de São Paulo não são objeto de crítica da grande imprensa; talvez porque o grupo político responsável por esse descaso seja o mesmo grupo ligado à grande imprensa paulista.
Inicialmente, poderíamos dizer que a referida pesquisa nasce morta, pois comete um erro metodológico crasso: a aplicação da enquete logo após um evento de grande comoção pública, como foi o assassinato do jovem Victor Hugo Deppman (19), cometido por um adolescente de dezessete anos, três dias antes de completar a maioridade penal. O impacto da notícia induz, inevitavelmente, à criminalização da infância e da adolescência, impedindo uma reflexão séria sobre a relação entre o número de casos desse tipo e suas motivações. É importante frisar que esse tipo de erro metodológico parece ser comum na redação da Folha de São Paulo. Em 2003, outro levantamento desse tipo foi realizado logo após o assassinato do casal de namorados Liana Friedenbach (16) e Felipe Caffé (19), pelo adolescente conhecido como Champinha (16). Na época, a pesquisa revelou que 88 % da população paulistana defendia a redução da maioridade penal.
Seja como for, a grande imprensa de São Paulo (Globo, Folha, Veja, Estadão) continua sua campanha preconceituosa, tendenciosa e irresponsável, ressaltando notícias sobre crimes violentos cometidos por adolescentes. Crimes como o assassinato da dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, no ABC paulista, e o estupro de uma mulher em um ônibus no Rio de Janeiro, cometidos por adolescentes (de 17 e 16 anos, respectivamente), criam a atmosfera ideal para que os verdadeiros interesses de grupos política e economicamente privilegiados sejam assumidos como vontade geral da sociedade.
Mas, que interesses seriam estes? O primeiro deles faz parte da própria concepção de mundo de nossas elites, concepção de mundo eugênica, que resolvem as contradições do desenvolvimento urbano eliminando, literalmente, os “problemas sociais” das vistas da sociedade; trata-se de uma política fascista, que visa se livrar dos “estorvos” para que a “gente de bem” possa viver sem ser perturbada. Um dos exemplos desse modo elitista de pensar foi a “solução” dada pela prefeitura de São Paulo para o problema dos mendigos que se alojavam sob viadutos e marquises da cidade. Quando José Serra foi prefeito, foram instaladas as rampas antimendigos - blocos de cimento que impediam a ocupação dos espaços por moradores de rua; na administração Kassab, por sua vez, além da proibição do sopão noturno de inverno, foram tomadas medidas ainda mais preconceituosas e violentas, como a ordem para que a Guarda Civil Metropolitana tomasse à força os colchões e cobertores doados aos mendigos pela população. Ou seja, o problema da indigência, longe de ser resolvido, foi apenas deslocado, gerando a impressão de eficiência que a administração municipal desejava causar no munícipe/eleitor.
O outro tipo de interesse é, obviamente, aquele ligado à manutenção do poder político. O ar de organização e seriedade, de solução rápida e simples de um problema, pode render votos nas eleições; trata-se, aqui, da boa e velha demagogia.
Foi nesse sentido que, apesar de negar peremptoriamente o oportunismo eleitoreiro, o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi a Brasília, em 16 de abril último, reuniu-se com o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN), para defender o projeto de lei que, apresentado pelo líder do PSDB na Câmara, o deputado Carlos Sampaio (SP), altera o ECA e o Código Penal, aumentando o rigor para crimes cometidos por adolescentes. Tal projeto de lei defende o aumento do tempo de internação de três para oito anos, em casos graves e de reincidência, cumprimento da pena em regime diferenciado após 18 anos completos, ou seja, separação entre internos menores e maiores de 18 anos, e, finalmente, a possibilidade de permanência de internação em caso de doença mental comprovada, que ofereça riscos à sociedade. O projeto defende também maior rigor para o adulto que cooptar o menor para a prática criminosa.
Mas qual seria então a solução para conter a escalada da violência no Brasil? Devemos cruzar os braços e esperar uma solução espontânea? Evidentemente que não! Defendemos ações que partam das origens do fenômeno social. Para encontrarmos as raízes do problema, é preciso analisar a questão a partir de dados objetivos, de realidades concretas, da experiência prática. Assim, é importante conhecermos alguns dados quantitativos sobre a juventude brasileira e sua parcela marginalizada.
Segundo o IBGE, em 2010, os jovens entre 15 e 17 anos de idade perfaziam aproximadamente 5,1% da população brasileira, algo em torno de 9.700.000 pessoas. Comparando os dados gerais do IBGE com dados mais específicos, como os do Instituto Latinoamericano de las Naciones Unidas para la Prevención del Delito y el Tratamiento del Delincuente (Ilanud), em São Paulo, é possível dimensionar mais claramente o problema da delinquência infanto-juvenil entre nós. O Ilanud apresentou os resultados de uma pesquisa realizada em São Paulo entre junho de 2.000 e abril de 2.001 e constatou que 2.100 adolescentes foram acusados por delitos no período. Destes, 34, ou 1,6%, havia cometido algum crime contra a vida, como homicídio. Ou seja, a maior parte dos delitos cometidos por adolescentes está relacionada a crimes contra o patrimônio ou tráfico de drogas, o que indica falta de políticas públicas de educação, saúde, assistência social, esporte, lazer, distribuição de renda e, principalmente, emprego.
Os números da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo confirmam esses dados: dos 9.068 internos da Fundação Casa, apenas 0,9% estão envolvidos com latrocínio; 39% cometeram crimes contra o patrimônio (roubo), 60,1% cometeram crimes ligados ao tráfico de drogas. Dos 9.068 internos, 4% são meninas. Contudo, a questão não pode ser tratada apenas de forma quantitativa, é preciso abordá-la também em seu aspecto qualitativo. Os crimes cometidos por adolescentes nos últimos dias – utilizados, de forma oportunista, pela imprensa golpista de São Paulo, a fim de confundir a opinião pública e favorecer o surgimento dos baluartes da moralidade que salvarão a sociedade - possuem caráter inegavelmente hediondo e não devem ser admitidos em uma sociedade saudável. Mas para que a sociedade seja curada é preciso investir em medidas preventivas e não punitivas. Mesmo porque, como sabemos, o sistema carcerário brasileiro não ressocializa ninguém.
Além disso, a violência vem sendo produzida entre nós de maneira silenciosa, anos a fio. A saúde e a educação públicas são constantemente negligenciadas em benefício dos empresários dos grandes sistemas privados de ensino e dos planos de saúde e convênios privados. O investimento em saúde mental, por exemplo, para tratar pessoas viciadas em cocaína, crack, álcool etc., mesmo para tratar de processos depressivos, nunca foi levado a sério, marginalizando um sem número de pessoas. A política de emprego, tanto para a juventude quanto para os arrimos de família, responsáveis pelos primeiros cuidados de nossas crianças – a socialização primária – não pode fazer parte de uma pauta séria em uma sociedade concorrencial. Em outras palavras, nós, brasileiros, ainda não percebemos que, na corrida social em que estamos inseridos, não há vencedores.
Por último, em uma sociedade dividida em classes, acaba sendo “natural” a distribuição desigual da própria justiça. Jovens das classes mais favorecidas, mesmo com maioridade penal comprovada, não são punidos com o mesmo rigor que os filhos das classes populares. Basta citarmos aqui dois casos emblemáticos: o assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos pelos garotos de Brasília, Max Rogério Alves (19), Antônio Novely Cardoso Villanova (19), Eron Chaves Oliveira (19), Tomás Oliveira de Almeida (18) e G. N. A. J. (16), que atearam fogo em seu corpo enquanto aquele dormia em um ponto de ônibus; ou, o atropelamento do ajudante Wanderson Pereira dos Santos (30) pelo bilionário Thor de Oliveira Fuhrken Batista (20), que no máximo pagará uma indenização à família do morto.
Aumentando o abismo entre as classes sociais, acirrando a violência urbana e também no campo, criando o pior dos mundos possível, o governo do Estado de São Paulo “inova” com o bônus desempenho, para polícias militares que conseguirem manter bons índices de segurança em suas respectivas regiões de atuação. O valor das gratificações, que não será incorporada aos salários base e não contemplará os aposentados, tomará como critérios a redução de indicadores criminais, a produtividade operacional (sic), o índice de satisfação da população, o índice de confiança da população e o índice de integridade dos policiais. Assim, o governo sinaliza que não adotará políticas públicas inclusivas, integradas e sérias para solucionar o problema da violência. Enquanto isso, a realidade prática demonstra que a violência contra crianças e jovens, principalmente nas periferias, tende a aumentar. É possível esperar que não haja reação, consequências? Certamente que não.
São estes os motivos que nos levam ao posicionamento contrário à redução da maioridade penal, como forma de inibir a violência juvenil. Em nossa sociedade, a violência não possui raízes na juventude, mas sim na própria forma como os adultos, principalmente aqueles com maior poder de decisão nas esferas política e econômica, concebem os mecanismos de produção e distribuição das riquezas. Enquanto os interesses privados, mascarados de interesses públicos, subjulgarem os verdadeiros interesses coletivos nas políticas públicas do Estado, enquanto a mercadoria valer mais que a vida humana, a sociedade será obrigada a conviver com a escalada da violência. O populismo penal e a banalização das prisões, que levam o governador de São Paulo a se orgulhar de possuir a maior população carcerária do país (o Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo!), somados à falta de políticas públicas integradas e à concentração de renda monstruosa, constituem os verdadeiros obstáculos à pacificação da sociedade brasileira.
* Professor, diretor de escola da Rede Municipal de Cubatão, estudante do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade de São Paulo (USP), e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Leia mais: http://www.pcb-baixadasantista.net/news/os-comunistas-e-a-redu%c3%a7%c3%a3o-da-maioridade-penal/

3 de março de 2012

Comunicado do Secretariado do Estado-Maior Central - FARC-EP: Dez anos depois

Comunicado do Secretariado do Estado-Maior Central - FARC-EP: Dez anos depois

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Crédito: TP
Tribuna Popular TP – NOVA COLÔMBIA.

Dez anos atrás chegaram ao fim as conversações de paz em El Caguán. O governo de Andrés Pastrana decidiu fechar as portas do diálogo e apostar na guerra total contra nós. Fomos acusados de todas as perversidades do mundo. Hordas imensas de soldados mercenários treinados por assessores estrangeiros foram enviadas para nos esmagar. Helicópteros militares e aviões de todos os tipos partiram com a finalidade de nos reduzir a cinzas..

As FARC-EP, há três anos de haver inaugurado os diálogos, seguíamos insistindo na discussão da Agenda Comum combinada, na remoção das causas que originavam o conflito armado. O Governo, em troca, queria tão somente escutar a rendição e a entrega, ostentava um enorme incremento do gasto militar e se esmerava por nos fazer entender o que nos esperava se rechaçássemos a última oportunidade que nos concedia para nos submetermos..

Milhões de colombianos eram vítimas do terror estatal nos campos e cidades. Os mesmos meios de comunicação que denegriam a insurgência revolucionária, se obstinavam em apresentar como salvadores da pátria as principais lideranças paramilitares. O fascismo, que se apossava do poder do Estado pela penetração ostensiva em todos os seus órgãos, impunha como única saída o advento do uribismo criminoso..

O Pentágono promovia sua guerra preventiva pelo mundo, qualificando como terroristas todos aqueles que se opuseram ás políticas do império. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial se encarregavam de generalizar suas políticas neoliberais de saque e superexploração, impondo em cada país o governo que garantia a livre penetração do grande capital transnacional. A Colômbia, ao que parecia, não podia aceitar outra coisa que a resignação e o silêncio..

Como gente do povo, nós guerrilheiros assumimos a responsabilidade que nos impunha a história. Defender com as armas as ideias de vida, soberania nacional, democracia e justiça social que terminaram por serem proibidas e ridicularizadas por completo pala linguagem oficial. Só teriam direitos os que claudicavam, os que se vendiam, os que traíam, os que calavam. Pelo preço de nosso sangue e sofrimento temos defendido por dez anos a liberdade e a decência.

E estamos dispostos a fazê-lo por todo o tempo que seja necessário. Até que o povo colombiano se levante, imbatível, para mudar o regime. Ou até que o Governo compreenda a inutilidade de sua guerra e aceite sentar-se e dialogar sobre a única saída política que exclui em definitivo o confronto: a eliminação das causas estruturais do conflito. Sem armadilhas, com respeito pelo povo da Colômbia.

Todas as vozes da ultra-direita, ligadas ao militarismo santista [de Juan Manuel Santos], locupletadas graças à fartura que obtém de seus aparelhos corruptos e elitistas, encontram-se empenhadas em clamar para que se imponha às FARC um golpe de misericórdia ou que a submetam à mais humilhante rendição. Percebe-se que não são eles nem seus filhos que marcham para morrer em combate. Seja como for, tem sido muito grande nossa firme resistência para que nos assustássemos com isso.

Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP

Montanhas da Colômbia, 20 de fevereiro de 2012.