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2 de março de 2015

“Que ninguém tenha dúvidas: nosso propósito é o socialismo”

“Que ninguém tenha dúvidas: nosso propósito é o socialismo”

(Entrevista do Comandante das FARC, Iván Márquez, em Cuba)
Por Carlos Aznárez (de Havana, Cuba), Resumen Latinoamericano, 25 de fevereiro de 2015.- A Resumen Latinoamericano dialogou, em fins de fevereiro, em Havana com o Comandante das FARC-EP, Iván Márquez, que preside a Delegação guerrilheira na Mesa de Negociações com o governo colombiano.
O chefe insurgente deu um amplo panorama sobre o momento pelo qual passam as conversações de paz e insistiu na necessidade de avançar para uma Assembleia Nacional Constituinte.
- Há mais de um ano e meio do início das negociações de paz, qual é o seu balanço sobre o quanto se avançou e o quanto falta para concretizar a estratégia defendida por vocês neste âmbito?
- Creio que avançamos de maneira suficiente. Já temos em nosso poder três acordos parciais: um, sobre terras, outro sobre a participação política, e um referente a um tema muito complexo, o uso de drogas ilícitas. Entretanto, ainda ficaram para uma discussão posterior 28 observações, todas elas de muita importância.
- Você pode nos dar um exemplo destes temas pendentes?
- Está o problema do latifúndio, que o governo colombiano não quis abordar porque, segundo sua argumentação, pensa que uma medida desta natureza poderia despertar de novo os demônios do paramilitarismo. E, também, uma resistência do governo em aceitar uma proposta nossa de colocar um limite à estrangeirização da terra. Outro aspecto fundamental se vincula à exploração mineral-energética e seu impacto socioambiental.
De nossa parte, fazemos todo o possível para que estas pendências não sejam lançadas ao fogo do esquecimento, como parece pretender o governo. Entre os pontos pendentes, está a expansão da democracia para a paz. Nesse sentido, insistimos na necessidade do Estado deixar definitivamente para trás a Doutrina da Segurança Nacional, a concepção do inimigo interno e resolver de uma vez por todas o fenômeno do paramilitarismo. Que ninguém na Colômbia seja perseguido por suas ideias e, muito menos, assassinado. Estes são temas fundamentais para a Colômbia dar passos ao futuro. Além disso, é necessário adiantar reformas estruturais, como a política do sistema eleitoral e uma reclamada por todo o país: a reforma do sistema jurídico, corrupto, totalmente dependente. Nós pensamos que tudo isto é possível através de uma Constituinte.
- É totalmente correto que os avanços detalhados por você tenham sido produzidos, mas também é verdade que no território colombiano não se modificou grande parte do que na Mesa foi acordado. Qual é a opinião das FARC-EP frente a esta realidade?
- Vemos tudo isto como uma grande incoerência entre a retórica do governo e o que ocorre na realidade. Para somar um pouco às dificuldades, paralelamente, o governo está legislando para revisar coisas que foram aprovadas na Mesa.
- Por exemplo?
- Existe um projeto de lei sobre terras improdutivas, que em lugar de proteger os camponeses sem terra, busca proteger o capital financeiro. Concomitantemente, estamos apresentando um protesto enérgico na Mesa, já que não é possível continuar assassinando defensores dos direitos humanos ou revitimizando as vítimas. Isso ocorreu com muitas das pessoas que estiveram em Havana para pedir que façamos todo o possível para assegurar a paz. No entanto, ao voltarem à Colômbia, foram reprimidas, perseguidas, ameaçadas. Por isso, insistimos em pedir coerência e seriedade ao governo, pois quando se fala de paz, estes fatos não podem ser justificados.
- Recentemente, o governo norte-americano confirmou que um de seus homens, Bernard Aronson, atuará como observador (a pedido do governo da Colômbia) no processo de paz em Havana. Qual a opinião das FARC sobre esta incorporação?
- Vemos satisfatoriamente porque, como se sabe, os Estados Unidos têm um peso muito forte no político, no social, no econômico e no militar da realidade colombiana. Eles têm uma participação muito grande no financiamento da guerra, no fornecimento de equipamentos bélicos e tecnologia de ponta às Forças Armadas oficiais.
Parece-nos que os EUA querem agora se afastar um pouco desta situação que os coloca como impulsionadores da guerra e da discórdia, e empreender esforço em ajudar os colombianos a encontrar a reconciliação.
- Sobre a questão do cessar-fogo: quais são, em seu entender, as razões pelas quais o presidente Juan Manuel Santos não cede à proposta feita pelas FARC de instalar um cessar-fogo bilateral?
- Francamente, não está claro esse argumento de que uma trégua seria aproveitada política e militarmente pela guerrilha para se fortalecer. Não tem nenhum pretexto. Além disso, o cessar-fogo, por agora unilateral, cumprido por nós, tem um sentido humano. Pensamos que enquanto estamos dialogando não tem sentido continuar atirando-nos, matando-nos e que é necessário gerar um ambiente propício para as conversações.
Lamentavelmente, não encontramos uma resposta similar por parte do Presidente. Dizemos que aqui o governo está se comportando de uma maneira equivocada e que deveria fazer prevalecer o princípio de favorecimento da população civil, que significa uma suspensão das ações militares. E até dizemos que com esta atitude estão violando os Protocolos de Genebra em sua mais ampla extensão, porque se trata de evitar novas vítimas.
De toda maneira, creio que Santos está começando a se conscientizar, dando instruções a seus generais e oficiais que farão parte da subcomissão técnica de que se ocupará do assunto do cessar-fogo, para buscarem a maneira de chegar rapidamente a esse objetivo.
- Segundo vocês, o Presidente Santos tem total controle sobre as forças militares oficiais ou existem diferenças nessa área?
- É preciso reconhecer que, em geral, se observa a subordinação das Forças Armadas ao Presidente, porém, ao mesmo tempo, existe uma forte influência negativa por parte da extrema direita liderada por Álvaro Uribe Vélez. Imaginamos que esse assunto deveria estar sendo resolvido.
- Qual é sua versão do ocorrido com o general Alzate, que foi detido e depois libertado pelas FARC?
- O general Alzate é o que realmente ocorreu. Acreditamos em sua palavra, de que não esteve realizando coisas “profanas” no rio Atrato. Existe um grupo de novos oficiais que querem atuar um pouco mais favorecendo as comunidades com ações cívico-militares para tentar recuperar a confiança perdida. É lógico que a população desconfia, como o mesmo Alzate reconheceu, e, por isso, se envolveram neste tipo de ações sociais em uma região tão esquecida como é o Chocó, que não tem energia, nem serviço de água, nem de esgoto e, muito menos, estradas.
Em uma dessas saídas que fez de Quibdó, de seu forte militar, é possível que o general tenha se descuidado um pouco de sua segurança e chegou a um local, onde estavam as FARC. Como ele é o chefe de uma força-tarefa que se dedica a perseguir e bombardear a guerrilha, então foi detido e teve que marchar na condição de prisioneiro.
- Por ser quem era e o cargo que ostentava Alzate, a guerrilha não titubeou em nenhum momento em negociar sua libertação, por exemplo, com a troca de presos políticos?
- O governo se movimentou rapidamente para interceder por ele, e recorreu aos países garantidores do processo (Cuba e Noruega). É claro que estamos a total disposição para gerar condições favoráveis ao processo e, por isso, tomamos a decisão de libertar este general, fazendo o governo perceber que existe uma situação bastante reprovável no interior dos cárceres colombianos vivida pelos presos políticos e pelos prisioneiros de guerra. Os mesmos são mantidos em condições desumanas de superlotação e com a violação de seus direitos. Nós queremos que esses casos sejam visibilizados.
- Existe alguma resposta a essas denúncias?
- O governo mete na cabeça a ficção de que não existem presos políticos na Colômbia, porém os cárceres estão cheios de dirigentes populares acusados, a maioria deles, de terrorismo. Na Colômbia, parece que não existe outra acusação diferente para poder enfraquecer a ação e a força do movimento social e político.
- Voltando ao Presidente Santos, ele disse reiteradamente que é necessário concluir as negociações de paz. Quais são os prazos das FARC para esse fim?
- Efetivamente, os prazos estão um pouco esgotados. Porém, não se pode dizer que o processo não avança por nossa causa. Colocamos sobre a Mesa toda uma constelação de propostas sobre o tema agrário, drogas, participação política e vítimas. Estas são propostas mínimas e são concebidas para obter a aproximação das partes, porém ao governo elas parecem revolucionárias e radicais. É claro, muitas delas são mandatos constitucionais e é um dever do governo aplicá-las. Nós queremos que esta situação mude e não se obstrua a possibilidade de formalizar acordos.
- Existe outro tema chave que é o da Justiça, que na voz do governo se refere a que a guerrilha “pague pelos delitos cometidos”. Ou a cantilena de epítetos descarregada pelo uribismo que a acusa de crimes de lesa humanidade.
- O governo não deve confundir o processo de paz em Havana com um processo jurídico. É preciso buscar soluções políticas ao conflito colombiano. Nós desconhecemos o marco jurídico transicional que o governo tenta sacar diante das Cortes e ante mesmo o Congresso da República. Desta maneira, o acordo geral de Havana, que colocou as duas partes em um mesmo plano de igualdade, está sendo violado. Portanto, embarcar nas aventuras de levar adiante um marco jurídico não acordado, não tem possibilidade de sobrevivência. O que o governo faz é semear o expediente jurídico para terminar o processo com os comandantes atrás das grades. Nós dizemos que não viemos a Havana para sermos presos. Viemos buscar soluções políticas, negociadas, ao conflito colombiano. Agora nos dizem que é impossível evitar o superpoder da Corte Penal Internacional. No entanto, essa Corte não conhece a história do conflito colombiano, nem sequer sabe o que são os latino-americanos. Por isso estamos invocando uma doutrina que se chama a “Margem nacional de interpretação”, que prevê isto que estou dizendo.
- O governo insiste que os responsáveis por situações violentas deverão responder por seus atos.
- Claro, nós sabemos que existem responsáveis. Porém, fazer a opinião pública acreditar que a guerrilha é a máxima responsável, é desconhecer que estamos fazendo uso de um direito universal ao levante armado contra regimes injustos e vergonhosos, que somos uma resposta a uma violência que vem do poder, e isso está perfeitamente demonstrado. Acaba de ser entregue à Mesa o informe da Comissão Histórica do Conflito e de suas vítimas, que apresenta uma visão diferente da utilizada pelo Estado. Um relato que repousa no fundo da verdade para resolver tantas desavenças.
Esta questão dos responsáveis máximos também vem sendo tratada na Mesa de negociações. Por exemplo, dizemos aos militares que estão diante de nós, o general Mora Rangel e o general Naranjo, que para as FARC este sistema transcende aos comandos das distintas forças, envolve o Palácio de Nariño, que é onde estão os mandantes, autores por trás do autor. Também são responsáveis os presidentes, os ministros, os partidos políticos da ordem, os latifundiários que se apropriam de terras a sangue e fogo, através do paramilitarismo. Ou os senhores empresários, por exemplo, os banqueiros como Chiquita Brands ou Drummond, que estão financiando grupos paramilitares, ou setores da agroindústria que se apoderaram de terras que pertenciam a camponeses. Sabe-se que na Colômbia existe o deslocamento forçado de camponeses que se aproxima de 6 milhões. Responsáveis são os grandes meios de comunicação, a Igreja, o setor financeiro, envolvido na lavagem de dinheiro proveniente do narcotráfico. Nós dizemos ao governo: persigam estes que são os que promovem a atividade do narcotráfico. Não concentrem a ação punitiva no elo mais fraco da cadeia que são os camponeses pobres e os consumidores.
Nossa responsabilidade não é a mesma daqueles que causaram este confronto de tantos anos. O nosso é um delito político. O problema é que na Colômbia esse delito foi deformado. Agora, dizemos que se realmente querem que haja uma solução através do benefício do indulto ou da anistia, é preciso reverter o crime político a seu estado natural. De que maneira? Incluindo as atuações da guerrilha como produzidas em função da rebelião.
Também nos dizem que para existir um marco de legalidade em torno dos acordos, e que para que ocorra um fim jurídico definitivo, é necessário os chefes guerrilheiros irem para a prisão. Porém, não mencionam os responsáveis do Estado. Onde estão os presidentes? O próprio ex-presidente Cesar Gaviria disse que: “as responsabilidades são coletivas”. Nós vamos mais além e dizemos que o Estado é a máxima instância de culpa. E acrescentamos: para os guerrilheiros, nenhum cárcere!

- Há outro tema muito controverso e que está relacionado com a entrega das armas. Em que momento se discute concretamente esse ponto?
- Nós fizemos uma abordagem que esperamos seja respondida de maneira positiva pela contraparte. Entendemos como entrega das armas, a sua não utilização na política, e isto não só vale para a insurgência, mas, também, para
o Estado, suas Forças Armadas e policiais. Preocupa-nos muito que a utilização das armas por parte do Estado produza vitimizações coletivas, provocando o aniquilamento de alternativas políticas, decapitação de toda uma geração de revolucionários como aconteceu com os dirigentes e militantes da Unión Patriótica [União Patrótica], que sofreu 5000 mortes. Como aconteceu com “A luchar” [A lutar], com a Frente Popular. As armas que foram confiadas ao Exército para que defendesse as fronteiras pátrias, se voltaram contra o povo, provocando assassinatos e milhares de desaparecimentos. Isso sim é grave, e terão que responder. Resumindo: depois de um acordo de paz, as armas devem fazer silêncio. Complementamos: o Exército deve regressar a sua função constitucional de defender as fronteiras.
- Não é fácil imaginar o caminho de uma organização armada para um movimento político aberto. Como estão pensando isso?
- Muitos nos perguntam se nos vemos fazendo política no futuro. E respondemos que sempre fizemos política. Com armas ou sem armas, sempre estamos em função da política porque temos uma visão de país, temos bandeiras e uma plataforma de 12 pontos que apresentamos quando fizemos 50 anos de existência, e estas são as do Movimiento Bolivariano por la Nueva Colombia [Movimento Bolivariano pela Nova Colômbia].
Por outro lado, sabemos que apenas a assinatura de um Acordo não vai mudar a situação na Colômbia. O que precisamos é gerar uma situação distinta, de tolerância e de democracia verdadeira. Queremos que todo o nosso povo tenha uma vida digna e que a Colômbia abandone esse terceiro e desonroso lugar ganho por seus índices de desigualdade.
- Suponho que não será fácil discutir com o atual governo o tema da política econômica a ser aplicada no futuro.
- O governo diz que a política econômica não está em questão. E nós nos perguntamos: a política neoliberal tem que primar? Não podemos nos colocar em acordo ao pensar outras políticas que beneficiem os colombianos e deem a eles uma vida digna? Isso é o que estamos exigindo: uma mudança profunda de estruturas.
É claro que ainda existe um caminho a percorrer. E voltando ao que você dizia sobre os tempos, digo que tudo depende da decisão do governo. Se eles atenderem as iniciativas e propostas que estamos fazendo, acreditamos que o processo poderia entrar em uma dinâmica que pode conduzir rapidamente a um acordo final. Agora: nós não queremos que misturem eleições com o processo de paz, pois isso prejudicaria este último. Não desejamos isso. E, por isso, insistimos em rediscutir os pontos pendentes para ver se chegamos a um consenso. Se isto não for possível, esperamos que os mesmos sejam discutidos em uma Assembleia Nacional Constituinte.
- Paradoxalmente, os EUA falam de flexibilizar as relações com Cuba, agora se aproximam da Mesa de negociações entre o governo e as FARC e, por outro lado, castigam a Venezuela duramente, ameaçam de mil maneiras o processo revolucionário encabeçado por Nicolás Maduro. Como vocês analisam este panorama de conflito na América Latina?
- Repetidamente é dito que a paz da Colômbia é a paz do continente. Nós também cremos que a paz a ser alcançada, tem que ser projetada para o resto dos países. Talvez estes problemas que acontecem entre a Venezuela e os EUA possam ser resolvidos pela via diplomática e com respeito, abandonando por parte dos EUA a concepção do “quintal”. É preciso permitir que os governos decidam o rumo que deve ser dado ao destino de seus países.
- Lembro que em uma entrevista que fiz há vários anos com Manuel Marulanda, ele afirmou que a luta das FARC era pela tomada do poder e a construção do socialismo. Pergunto: as FARC de hoje, as que vocês representam, continuam pensando da mesma maneira?
- É claro, continuamos pensando da mesma forma. Estamos tentando avançar para um estágio que permita continuar desenvolvendo essa luta em condições melhores. No entanto, nosso propósito é o socialismo. Que ninguém tenha dúvidas disso. Esse é o sistema que vai nos levar à verdadeira democracia, à justiça social, a uma paz estável e duradoura e, sobretudo, à dignidade. Porque o socialismo é Humanidade.
- Você quer acrescentar algo mais aos nossos leitores do continente?
- Parece-me importante saudar os leitores deste importante periódico, Resumen Latinoamericano, que chega a muitas partes do continente com uma mensagem de resistência que deve ser considerada e que nos abastece com argumentos para continuar travando esta luta necessária por um mundo melhor.
Vídeo da entrevista – Parte 1:
Vídeo da entrevista – Parte 2:
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

16 de janeiro de 2014

As Guerrilheiras das FARC-EP: Parteiras da história

As Guerrilheiras das FARC-EP: Parteiras da história

Chris Gilbert e Vilma Kahlo
Se os exércitos regulares são um mundo de homens, a guerrilha e as forças insurgentes são o oposto: um mundo onde a mulher sempre teve um papel central. Pensemos em Agustina de Aragón, Olga Benário, Tania Bunke, María Grajales e Celia Sánchez ou, inclusive, as amazonas lendárias. Tampouco é uma coincidência que Liberté – a figura representada por Delacroix nas barricadas da revolução de 1830 – seja uma mulher.
A Colômbia não é uma exceção a esta regra. Inclusive antes da independência, mulheres como Cacica Gaitana e Policarpa Salavarrieta tiveram um papel fundamental na luta insurrecional. Hoje em dia este legado de mulheres na resistência continua nas FARC-EP, a guerrilha de mais longa duração em nosso continente. Esta organização política e militar participa agora dos diálogos de paz em Havana, onde um em cada três membros da Delegação de Paz é mulher.
Quem são estas mulheres? O que as fizeram arriscar suas vidas pelos ideais do socialismo e da libertação nacional num país sob o tacão dos Estados Unidos? Qual é seu papel no atual processo de paz, que aponta a uma solução negociada nos 50 anos de conflito interno na Colômbia? De nossas visitas à Delegação em Havana regressamos com respostas interessantes a estas e outras perguntas acerca das mulheres da insurgência colombiana.
A pobreza e a injustiça
É um fato bem conhecido que a sociedade colombiana se caracteriza por uma desigualdade extrema (com um índice de Gini de até 0,89 em áreas rurais). No entanto, igualmente à pobreza em todo o mundo, o peso recai especialmente sobre os ombros das mulheres. Uma combatente chamada Marcela González se referiu à relação entre gênero, pobreza e opressão: “A mulher é quem leva a pior neste conflito... A maioria dos removidos são mulheres. A isto também se soma a violência sexual, a violência doméstica… A maioria dessas mulheres são chefes de família que perambulam com seus filhos pelo território nacional. Então, esta é a tragédia humana vivida pela mulher colombiana”.
Ainda que as mulheres levem a pior e representem uma grande porcentagem dos quase cinco milhões de removidos na Colômbia, as razões fundamentais que levam homens e mulheres a incorporarem-se à guerrilha são exatamente as mesmas: a pobreza, a injustiça e a repressão à oposição política da esquerda. “As mesmas necessidades, a mesma miséria”, Marcela continuou, “obrigam que a gente opte por buscar saídas para esta realidade”.
A falta de opções políticas é realmente a chave para determinar a forma que toma a luta. O último convite para constituir uma alternativa legal foi a União Patriótica, partido formado em 1985. A iniciativa gerou grande entusiasmo, porém os agentes da oligarquia massacraram sistematicamente os militantes da UP: em torno de 5.000 mortos em menos de uma década. A lição histórica, escrita nos muros com o sangue da oposição, é que onde não existe democracia é preciso lutar por ela. Por agora, só é possível opor-se ao regime oligárquico da Colômbia – armado até os dentes pelos EUA e seus aliados – portando armas.
Uma vez na guerrilha, os homens e as mulheres têm papéis idênticos. “Homens e mulheres têm os mesmos direitos, as mesmas tarefas”, explicou Bibiana Hernández, que se incorporou às FARC há trinta anos. “Assim como vamos transportar, vamos tirar a lenha, vamos dirigir as massas... também vamos ao combate, também vamos enfrentar o inimigo. Estamos nas mesmas condições [que os homens]”. Da mesma forma, as mulheres assumem funções de direção e liderança nas FARC-EP e sua igualdade é parte dos estatutos da organização.
As mulheres participantes da Delegação de Paz são de origens diversas. Camila Cienfuegos nasceu numa família campesina e muito jovem viu a pobreza extrema com seus próprios olhos. Laura Villa estudou medicina em Bogotá. Ela mencionou a privatização da educação e da saúde como os fatores que pesaram em sua decisão de unir-se à luta revolucionária das FARC, onde agora contribui com sua experiência médica. Alexandra Nariño, nascida Tanja Nijmeijer na Holanda, conseguiu um trabalho como professora de inglês na Colômbia em 1998 e, num processo gradual de aprendizagem sobre a opressão e a injustiça política, acabou por ingressar à guerrilha.
Estas mulheres continuam uma longa tradição nas FARC: a organização foi fundada em 1964, quando 48 camponeses em Marquetalia enfrentaram e superaram o ataque de mais de 10 mil efetivos governamentais. Entre os “Marquetalianos” havia duas jovens mulheres heroicas: Judith Grisales e Miriam Narváez.
No território livre da América
As doze mulheres da Delegação de Paz das FARC são sobreviventes de um conflito brutal, porém ante seu falar suave e suas roupas de civil é possível esquecer as duras realidades da guerra. Pode-se sentar e tomar um sorvete com elas na Coppelia (¹) ou juntar-se na busca de livros usados nas inúmeras livrarias de Havana. É que, apesar de suas tarefas políticas, estas mulheres buscam tempo para a leitura. Diana Grajales, uma guerrilheira do sudoeste da Colômbia, nos disse que está imersa nos livros de Che Guevara.
Um dos projetos destas mulheres – além de “rearmar-se” com livros e participar das conversações de paz com os delegados do governo – é fazer contato com organizações de mulheres: “Estamos escutando as propostas que nos chegam das organizações de mulheres na Colômbia”, explicou Alexandra, acrescentando que também objetivam estabelecer relações com grupos internacionais de mulheres. A comandante Yira Castro observou que os movimentos de mulheres são praticamente invisíveis, porém o processo de paz permitiu que as guerrilheiras participantes da delegação conhecessem mais de perto as lutas outras mulheres, compartilhando experiências com elas. As mulheres da Delegação também mantêm uma página na Internet (www.mujerfariana.co) e uma conta no Facebook.
Apesar da tranquilidade de Havana, a realidade da guerra irrompe quando se está em companhia da Delegação. A cicatriz no braço de uma companheira ou a lesão de outra nos recorda que o governo colombiano viola sistematicamente os direitos humanos em sua condução da guerra. O da Colômbia é um conflito desigual e imperialista no qual – assim como no Vietnã ou na Argélia – tudo cabe para manter a ordem neocolonial.
Muitas destas mulheres sobreviveram a bombardeios com tecnologia de ponta que tanto se parecem às tentativas ianques e israelenses de assassinatos “cirúrgicos”. Algumas perderam amigos próximos e familiares – assassinados a sangue frio ou desaparecidos em valas comuns como a da Macarena (a maior vala comum da América Latina, onde as forças especiais da Colômbia depositaram aproximadamente 2.000 cadáveres) – e pelo menos uma companheira da delegação foi vítima de torturas e violação por parte dos soldados do exército.
Laura Villa fala das duras realidades da guerra: “Uma guerra é uma guerra... É uma guerra para conquistar a liberdade dos povos e, nessa guerra, se dão mortos e se dão feridos. Existem mortos que nos sensibilizam demais”. Entre as perdas mais sentidas se encontra a do comandante Alfonso Cano, que iniciou o atual processo de paz e foi assassinado pelo exército há dois anos. Camila Cienfuegos denunciou os abusos sexuais e os desaparecimentos forçados por parte dos militares: “Lembre que temos um episódio bastante palpável que são as madres de Soacha, cujos filhos foram apresentados como falsos positivos (²). Isso também é terrorismo de Estado”. Camila fala do terror do Estado a partir de sua experiência: tem queimaduras de cigarros nas mãos e nos braços ao ter sido torturada durante um interrogatório empreendido pelo exército colombiano.
Além das violações aos direitos humanos, existe a constante difamação midiática sobre as combatentes das FARC. Inventam histórias sobre guerrilheiras, histórias que são um simples reflexo da sociedade exterior: uma sociedade que pressiona a mulher a entrar em todo tipo de relações de exploração no trabalho e na vida privada e, às vezes, aceita a ideia equivocada de que as mulheres se veem forçadas a ingressar às FARC. Ainda assim as mídias colombianas dizem falsamente que as guerrilheiras, que desfrutam de condições de igualdade de gênero muito superiores às da sociedade exterior, são meras cozinheiras e acompanhantes sexuais dos comandantes.
Olhando para a paz
Uma das razões de fundo deste tipo de difamação é tentar dividir e cooptar membros das FARC-EP, separando as mulheres dos homens. Essa, dizem as mulheres da Delegação, é uma tentativa fútil, que não impede o número cada vez mais crescente de mulheres que tomam a decisão de mudar o mundo, em lugar de apenas contemplá-lo. Estas manobras midiáticas tampouco fazem com que as mulheres que já estão nas FARC alterem sua visão dos problemas sociais ou abandonem um projeto que reconhecem essencialmente como luta de classes pela justiça social.
Este último ponto é importante. As mulheres nas FARC veem a dominação patriarcal como parte da luta de classes e não estão dispostas a separar as causas, erro em que caem algumas feministas. As farianas lutam não apenas pelas mulheres colombianas, mas pela Colômbia em seu conjunto. Assim, a paz que tratam de construir – uma paz com justiça social, uma paz que erradicará as raízes da desigualdade social – será uma paz para toda a sociedade.
Como entender, então, a importância das mulheres na luta das FARC-EP? Por que é que, para citar Victoria Sandino, “sem a participação da mulher no processo revolucionário não existe revolução”? Talvez a chave esteja na velha ideia de que esses grupos, os que a estrutura da sociedade coloca entre a espada e a parede, são precisamente os convocados pela história para mudar a sociedade em sua totalidade. Isto é o que se chama uma missão histórica e é uma descrição perfeita da posição da mulher colombiana, cuja situação não se pode melhorar sem mudanças fundamentais em toda a sociedade. Por isso o setor mais consciente das colombianas muitas vezes tomou as armas para mudar as condições que operam em seu país.
Hoje esta mesma missão histórica pode conduzir a novas táticas. Com as mudanças profundas que estão sendo vividas em muitos países da América Latina e o ressurgimento do movimento popular colombiano, se abre a possibilidade de que os homens e as mulheres da insurgência pensem numa paz dialogada para conquistar os mesmos objetivos pelos quais sempre lutaram. Porém, isto apenas ocorrerá se o Estado colombiano mudar radicalmente sua atitude e permitir que as forças da mudança participem no âmbito da política legal. A partir deste ponto de partida – uma “janela democrática” obtida com as vidas de muitos guerrilheiros e guerrilheiras –, a força política mais abnegada e comprometida poderia iniciar o processo de desmantelamento das injustiças estruturais do país e a construção de uma paz duradoura.
Chris Gilbert é professor de Estudos Políticos na Universidade Bolivariana de Venezuela. Vilma Kahlo está trabalhando em Rosas y Fusiles, un documentário sobre as mulheres das FARC-EP.
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Notas da tradução:
(2) – Coppelia é uma popular sorveteria estatal numa das principais praças do centro de Havana;
(2) – Falso positivo é uma prática comum das forças de repressão colombianas, que consiste em assassinar jovens, principalmente na periferia, e vesti-los como guerrilheiros, para aumentar a estatística e os assassinos receberem prêmios em dinheiro, por “produtividade”.

14 de janeiro de 2014

LIBERDADE PARA FRANCISCO JAVIER TOLOSA!

LIBERDADE PARA FRANCISCO JAVIER TOLOSA!

O Movimento Continental Bolivariano  (MCB) soma-se  a todas as vozes do mundo que repudiam a prisão do professor e responsável internacional da Marcha Patriótica, FRANCISCO JAVIER TOLOSA, e que reivindicam sua imediata liberdade.
Exigimos que o governo colombiano cesse os ataques e perseguições ao movimento político e social Marcha Patriótica-MP, que liberte seus 3 dirigentes nacionais encarcerados e que investigue e castigue exemplarmente os responsáveis por, ao menos, 25 assassinatos cometidos contra membros da MP durante o ano de 2013.
Convocamos as organizações políticas e sociais do continente e do mundo a solidarizarem-se com os dirigentes da MP e com os (as) presos (as) políticos (as) colombianos (as), que já contam mais de 9.500.
Acompanhamos os transcendentes esforços pela paz com justiça social empreedidos na Colômbia e na Mesa de Diálogo de Havana entre a insurgência armada e o governo. Nessa direção, acreditamos que as prisões sistemáticas, os assassinatos e a criminalização dos movimentos políticos de esquerda afetam gravemente o louvável propósito de criar um clima político favorável ao proceso de paz, sendo necessário impedir esse rumo.
Pela liberdade imediata de FRANCISCO JAVIER TOLOSA.
Pela LIBERDADE DE TODOS OS PRESOS POLÍTICOS DA COLÔMBIA.
PELA PAZ COM JUSTIÇA SOCIAL E SOBERANIA NACIONAL NA COLÔMBIA.
Sonhar não é um crime!
Narciso Isa Conde. Presidência do MCB.
Carlos Casanueva Troncoso.- Secretaria Executiva do MCB
Caracas, 10 de janeiro de 2014
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Chega de detenções injustas e perseguição política na Colômbia!!!

Chega de detenções injustas e perseguição política na Colômbia!!!


Urgente! Solidariedade contra o arresto ilegal sofrido por Francisco Toloza, que é o coordenador da Comissão de Relações Internacionais do Movimento social e Político Marcha Patriótica.
Toloza foi arrestado de forma ilegal pela força pública colombiana, no dia 4 de janeiro, quando encontrava-se na cidade de Cucuta desfrutando de umas férias e visitando seus familiares. Até o momento, não há mais informação sobre estes graves fatos.
Esta situação constitui uma grave violação aos direitos humanos a qual se somam as permanentes e sistemáticas violações que vêm sofrendo os militantes do Movimento Social e Político Marcha Patriótica desde sua criação em 2012.
No dia 2 de janeiro de 2014, a candidata à presidência da Colômbia pelo partido Unión Patriótica, Aída Abella, denunciava que na mídia colombiana há pronunciamentos feitos de forma irresponsável onde buscam enlodar o Movimento Social e Político Marcha Patriótica e ao partido político Unión Patriótica como braços políticos das FARC.
Essas situações convertem os militantes destas duas organizações políticas em alvos da extrema-direita colombiana e legitima o agir arbitrário do Estado Colombiano, encabeçado por Juan Manuel Santos, o qual persegue os setores de oposição na Colômbia. Além de ser um atentado contra a busca da paz neste país que sofre uma violência social, política e militar por mais de cinco décadas.
Fazemos um chamado a solidarizar-se com Francisco Toloza pedindo que seja deixado em liberdade; exigir ao governo colombiano garantias para a existência da oposição política democrática, como são as organizações Marcha Patriótica e a Unión Patriótica; e, respaldar a busca da paz com justiça social na Colômbia como uma necessidade do povo deste país.
Agenda Colômbia-Brasil
A Solidariedade é dos Povos!

6 de julho de 2013

Comunicado Conjunto ELN e FARC-EP

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01/07/2013

Os altos comandantes do Exército de Libertação Nacional (ELN) e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP) comunicam aos integrantes das duas organizações, às suas massas organizadas, aos seus simpatizantes, ao povo colombiano e à opinião pública nacional e internacional que, em algum lugar da pátria, celebramos uma reunião de cúpula, em meio a um ambiente de unidade fraternal e de camaradagem, com o propósito de fortalecer os avanços do processo unitário do movimento guerrilheiro e revolucionário de nosso país.

Na dita reunião, além de tratar, refletir e superar definitivamente diversos incidentes que conduziram no passado a contradições, distanciamentos e choques entre as duas forças, abordamos diferentes assuntos de caráter estratégico para o futuro da nação.

Entre eles, destacamos a importância de trabalhar pela unidade de todas as forças políticas e sociais empenhadas na realização de mudanças profundas na sociedade, sua economia, a política e a institucionalidade colombiana; a importância que tem a Paz com Dignidade e Justiça Social para o futuro da nação e o continente, assim como o reconhecimento expresso e sincero que qualquer solução ao conflito interno de nosso país pelas vias do diálogo, passa pela inevitável necessidade de adiantar conversações com toda insurgência colombiana.

Em Nossa América sopram hoje fortes ventos para a democracia, a soberania, a justiça social, o bem-estar e a integração de nossos povos. Nós colombianos não podemos permanecer à margem deste processo histórico pela definitiva independência.

O ELN e as FARC-EP, comprometidos e unidos em torno do mesmo objetivo de alcançar uma sociedade democrática, inclusiva, soberana e em paz para os colombianos, convidam a todo nosso povo a trabalhar unido e a mobilizar-se nessa direção.

Montañas de Colombia, Junho de 2013.

Nicolás Rodríguez Bautista Comandante do ELN Timoleón Jiménez Comandante das FARC-EP

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

11 de junho de 2013

Entre o céu e o inferno


Declaração das FARC-EP

Os diálogos de Havana encontram-se no Limbo por conta do homem que quer passar para a história como o presidente que alcançou a paz na Colômbia.

Os ecos do justo protesto do governo da República Bolivariana da Venezuela em consequência da recepção de Santos ao opositor Capriles no Palácio de Nariño, ainda replicam com um sonoro vibrato.

Não são poucos os que acreditam que o passeio de Joe Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, por Bogotá, foi a origem da explosão santista. E o associam com um plano de Washington encabeçado por um cavalo de Tróia de nome “Aliança Pacífico” que, manejado por Washington, se propõe a desestabilizar e inviabilizar governos populares, como os da Venezuela, Equador, Bolívia e Uruguai, entre outros. O que impulsionaria Santos a anunciar o fantasioso ingresso da Colômbia á OTAN? Ameaçar a Venezuela, o Brasil?

Àqueles que defendem a ingenuidade na conduta do presidente, não acreditem tanto, porque Santos não é nenhum tonto. Como estadista, é obrigado a medir o efeito de suas atuações.

Juan Manuel Santos sabia que sua provocação contra o governo legítimo da Venezuela espocaria como fogos de artifício na mesa de diálogo de Havana, pois o tema Venezuela, país acompanhante e facilitador do processo, é muito sensível para as FARC, que vê nos venezuelanos o principal fator gerador de confiança e, em consequência, um dos artífices fundamentais do processo de paz.

Por tudo isto é que causa tanta perplexidade o convite de Santos a Capriles, precisamente quando o entusiasmo pela paz cravava sua bandeira no pico Everest da reconciliação dos colombianos, motivado no acordo parcial sobre terras, tema que representa a nudez do conflito. A atitude de Santos desinflou o otimismo, a atmosfera favorável à paz que se busca construir com tanto esforço em Havana. A questão se resume no fato de que se não fosse pela Venezuela, não ocorreria o diálogo de paz na capital cubana.

É contraditório, profundamente contraditório, pretender entrar para a história como o presidente que fez a paz, propiciando, ao mesmo tempo, uma cadeia de atentados contra a paz. O assassinato a sangue frio de Alfonso Cano, o comandante guia da reconciliação, já é uma mancha indelével. Por outro lado, ninguém entende por que o governo repudia a necessária trégua bilateral proposta pelas FARC desde o início das conversações, se o objetivo é parar a guerra. Durante os últimos 6 meses, o ministro de defesa atuou como um franco-atirador sectário contra o processo, deixando a sensação de que não existe unidade de critérios no governo. E até o próprio presidente em pessoa não deixa passar uma oportunidade para desqualificar o interlocutor com acusações infundadas e ameaças de ruptura.

Além disso, outros elementos que estão enfraquecendo o diálogo e a construção do acordo como esse irritante estalar do chicote do tempo e dos ritmos nas mãos do governo. Um afã para quê? Para precipitar um mau acordo, uma paz mal feita? A progressão de um acordo tão transcendental não deve ser interferida nem pelos tempos eleitorais nem pelos prazos legislativos. Paralelamente às sessões da mesa, alguém do alto escalão orquestra campanha midiáticas que semeiam, com algum grau de maldade, a ideia de uma guerrilha assassina de um lado e, do outro, a de um Estado angelical, esvoaçando inocente sem nenhuma responsabilidade histórica pela violência e pelo terrorismo institucional.

Um governo que realmente queira a paz não fica marcando passo nas linhas vermelhas de sua intransigência, de sua imobilidade, mas atua com grandeza para facilitar o entendimento. Onde está a genialidade, onde está o bom senso? Aqui, o que se vê é uma grande inconsistência. E também uma grande mesquinhez quando se defende com argumentos teimosos privilégios indignantes. Essas atitudes pouco contribuem com a construção de uma atmosfera de paz. Então, os diálogos servem para que?

É preciso entender que este não é um processo de submissão, mas de construção de paz. Não se trata de uma incorporação da insurgência ao sistema político vigente, assim como está, sem que se opere nenhuma mudança a favor das maiorias excluídas. Então, qual foi o intuito da luta? O melhor epílogo desta guerra deve ser rubricado por mudanças estruturais no político, econômico e social que propiciem a superação da pobreza e da desigualdade.

Temos que defender este processo de paz, esta esperança. Todos, resolutamente, governo, guerrilha das FARC e as organizações sociais e políticas do país, devem somar vontades para alcançar, após décadas de confronto bélico, a ansiada reconciliação com justiça social. O que nos importa Uribe e Fedegan se estamos determinados a alcançar a paz?

Secretariado do Estado Maior Central das FARC-EP
Montañas da Colômbia, 7 de junho de 2013

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

25 de maio de 2012

PCB e UJC se solidarizam com Piedad Córdoba e a Marcha Patriótica

O  Partido  Comunista Brasileiro (PCB) e a União da Juventude Comunista (UJC) se solidarizam de forma militante  com a senadora colombiana Piedad Cordoba diante das ameaças que vem sofrendo por parte de grupos paramilitares de extrema-direita. É necessario que todas as forças comprometidas com a solução do conflito colombiano com justiça social repudiem e denunciem mais esta ação das forças reacionárias, que mais uma vez se manifestam na Colômbia sob o beneplácito do Estado terrorista - com o qual o governo brasileiro, cabe ressaltar, mantém acordos militares.

Por mais que as classes dominantes de nossos países tentem, elas não podem impedir os reclames  das massas.

Fiéis a nossa tradição de internacionalismo proletário, estivemos (PCB e UJC) presentes na Marcha Patriótica que se deu em Bogotá nos dias 21, 22  e 23 de abril. E mais uma vez pudemos conferir isso, de forma compartilhada com o povo colombiano, nesta ação histórica.

Oferecemos todo apoio e solidariedade militante a senadora Piedad Cordoba e a todos aqueles que lutam por uma sociedade mais justa, para avançar na conquista da segunda e definitiva independência - com o socialismo nos países latino-americanos.

23 de maio de 2012
Partido Comunista Brasileiro e Uniao da Juventude Comunista

12 de maio de 2012

FARC confirmam que têm Langlois em seu poder

FARC confirmam que têm Langlois em seu poder



imagemCrédito: Prensa Latina
Prensa Latina
Bogotá, 7 mai (Prensa Latina) O Secretariado do Estado Maior das Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia (FARC) confirmou que unidades da Frente 15 têm em seu poder o jornalista francês Romeo Langlois.
Em um comunicado de sete pontos e divulgado hoje pela Agência de Notícias Nova Colômbia (Anncol), com sede em Estocolmo, a máxima autoridade da guerrilha sustenta que Langlois está retido como prisioneiro de guerra.
Da mesma forma o Secretariado assinala que os jornalistas que o Exército leva consigo em suas operações militares, não cumprem o propósito imparcial de informar sobre a realidade, senão o de manipular esta para que sirva ao projeto de guerra contra o povo.
As FARC também se perguntam qual seria a atuação das autoridades, se um jornalista que com seu critério informativo e que acompanhasse as unidades guerrilheiras fosse capturado pelo Exército regular após um combate.
"A concepção contrainsurgente do Estado colombiano leva ao envolvimento de todos no seu lado da guerra, incluindo a imprensa", expressa o Secretariado no documento, com data de 3 de maio.
Por sua parte, a guerrilha sustenta que as liberdades de pensamento, expressão e informação não podem operar apenas para o benefício dos donos do capital e da terra.
"Nossa página na internet é atacada e bloqueada permanentemente, nossas emissoras são destruídas com bombas", assinala.
Assim mesmo, o Secretariado denuncia que o governo colombiano assassina, ameaça, encarcera ou desterra jornalistas nacionais ou estrangeiros que tentam investigar ou se informar sobre a versão não oficial do conflito.
Por outra parte, esclarece que Langlois vestia uniforme militar do Exército regular no meio de um combate.
Achamos que o mínimo que se pode esperar para a recuperação de sua plena mobilidade é a abertura de um amplo debate nacional e internacional sobre a liberdade de informação, agrega.
As FARC manifestam que é um velho costume do Exército colombiano empreender aventureiras operações de resgate com o deliberado propósito de que a vida dos prisioneiros se perca.
Considera mais próxima a vitória caso jogue a imprensa contra nós. Esperamos que não seja este o caso, esclarece.
Langlois, de 35 anos e correspondente da televisão France 24, realizava uma reportagem sobre operações antidrogas das Forças Militares no último 28 de abril em Caquetá, quando se registraram combates com a guerrilha.
Diante dessa situação, de acordo com a versão de alguns militares, o jornalista despojou-se do capacete e do colete à prova de balas que portava e correu para onde se encontrava o grupo insurgente.
Desde então sua situação era desconhecida até que neste domingo a Frente 15 das FARC divulgou um vídeo no qual informou que Langlois está em seu poder.
No entanto, espera-se que sua libertação ocorra em breve, segundo foi anunciado através de uma conta na rede social Twitter atribuída à guerrilha.
"Informamos que o prisioneiro de guerra: Roméo Langlois, jornalista francês, logo será libertado são e salvo", assinala uma das mensagens na conta @Farc_colombia.
mgt/acl/es

3 de março de 2012

CONVITE "OS DIREITOS HUMANOS NA COLÔMBIA"

CONVITE "OS DIREITOS HUMANOS NA COLÔMBIA"

imagemCrédito: PCB


(PALESTRAS SOBRE A CONJUNTURA COLOMBIANA)

5 de março (segunda-feira), às 18 horas

Sede Nacional do PCB:

Rua da Lapa 180 - grupo 801 - Lapa - Rio de Janeiro


- Mauricio Avilez, colombiano, da Agenda Colômbia Brasil;

- Ivan Pinheiro (Secretário Geral do PCB), que esteve recentemente na Colômbia no encontro "Colômbia: em busca de um caminho para a paz e a liberdade". 

CAMINHOS PARA A PAZ NA COLÔMBIA

imagem
Crédito: 3.bp.blogspot

Agenda Colômbia-Brasil saúda a decisão histórica das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia, FARC-EP, anunciada no domingo, dia 26 de fevereiro, delibertar de forma unilateral os últimos 10 policiais e militares do Estado colombiano, mantidos em seu poder como “prisioneiros de guerra” e de revogar a lei 002 de 2000, a qual põe ponto final à pratica de retenções econômicas como método de financiamento de sua luta[1].

A decisão das FARC-EP mostra o seu interesse de abrir caminhos para uma solução política dialogada do conflito. Soma-se nesta conjuntura a posição manifestada pelo Exército de Libertação Nacional – ELN, no dia 28 de fevereiro, de buscar uma saída política ao conflito que vive Colômbia[2].

É necessário dizer que esses passos dados em direção a construção de paz têm sido um esforço da organização Colombianos e Colombianas por la Paz que estabeleceu mecanismos de interlocução com a insurgência colombiana para criar cenários possíveis para diálogos entre o governo colombiano e as organizações insurgentes[3]. Desta mesma forma há que destacar o papel que tem assumido o processo popular Marcha Patriótica, como proposta que abre caminhos para a paz e para a construção alternativa de poder pelas organizações sociais e de base do povo colombiano[4].

Há necessidade de pressionar ao governo da Colômbia, na pessoa do presidente Juan Manuel Santos, para que aceite o inicio do processo de diálogos de paz, permitindo ir avante na solução política ao conflito retomando a agenda inconclusas do Caguan com as FARC-EP[5] e as propostas feitas pelo ELN[6]. Para que não sigam mantendo a postura política que privilegia a estratégia militar da pax romana de “cadeia ou a tumba[7]”. Para que não siga criminalizando a cidadãos colombianos e às organizações sociais que tomam as bandeiras, do principal anseio do povo colombiano: a paz com justiça social.

Agenda Colômbia-Brasil, como um processo de construção de solidariedade de organizações sociais e políticas do povo brasileiro e colombiano, acredita que a superação dos problemas que originaram o conflito que ainda se mantém, como a impunidade, a iniquidade econômica e a injustiça social por vias verdadeiramente democráticas permitirá encontrar uma solução ao conflito. Acredita que a solução política ao conflito é o caminho para a construção da paz com justiça social e de uma Colômbia democrática com espaços para todas e todos.

Agenda Colômbia-Brasil chama às organizações sociais e políticas brasileiras que acreditam na solidariedade entre os povos:

Para mobilizar-se, através de suas pautas de luta e pressionar com manifestações publicas ao governo e às organizações insurgentes da Colômbia para que retomem os diálogos de paz de forma transparente ao povo colombiano.

Pedir ao governo brasileiro que mantenha sua atitude de apoiar as iniciativas de paz na Colômbia e para que peça, em conjunto com a UNASUL, que o governo colombiano retome os diálogos de paz com as organizações insurgentes.

Para que apóiem o processo popular Marcha Patriótica, que esta sendo construído na Colômbia, como proposta que abre caminhos para a paz e construção alternativa de poder das organizações sociais e de base do povo colombiano, pedindo que seja respeitado este movimento, não seja criminalizado e lhes sejam dadas todas as garantias para seu desenvolvimento.

Agenda Colômbia-Brasil
A Solidariedade é dos Povos!!!



[2] La paz, un imperativo para Colombia. In: <http://www.rebelion.org/noticia.php?id=145428&titular=la-paz-un-imperativo-para-colombia- >, Acessado: 28. Fev.2012



[5] A agenda do Caguan é um documento conjunto do governo do presidente Andres Pastrana e as FARC-EP de 12 pontos  para os diálogos de paz, com data de 6 de maio de 1999.Agenda Común por el cambio hacia una nueva Colombia. In: LOZANO GUILLÉN, Carlos A. Guerra o paz en Colombia?. Bogotá: Izquierda Viva, 2006, p. 147-151.

[6] La paz, un imperativo para Colombia. In: <http://www.rebelion.org/noticia.php?id=145428&titular=la-paz-un-imperativo-para-colombia- >, Acessado: 28. Fev.2012 [7] “La cárcel o La tumba a los guerrilleros que no se desmovilicen”: Presidente Santos. In: < http://www.elpais.com.co/elpais/judicial/noticias/carcel-o-tumba-guerrilleros-desmovilicen-presidente-santos >, Acessado 18. Jan.2012.

FARC-A LUTA CONTINUA

FARC-A LUTA CONTINUA

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Crédito: ODiario.info
Por Miguel Urbano Rodrigues

O Estado-maior Central das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-FARC.EP informou em comunicado que renuncia aos sequestros de reféns e libertará nos próximos dias os últimos 10 militares capturados em combate que mantinha em seu poder.

A notícia foi recebida com alguma surpresa em Washington e na Europa e foi tema de múltiplas interpretações.

Mas sabia-se que os sofisticados meios electrónicos que o Pentágono coloca à disposição da Força Aérea Colombiana facilitam hoje localizar com precisão os acampamentos móveis em que as FARC mantinham nas montanhas e selvas do país os últimos reféns.

Simultaneamente, os prémios de milhões de dólares oferecidos pelo governo de Bogotá aos guardas dos prisioneiros estimularam traições que permitiram a entrega ao exército de reféns como Ingrid Bentancourt, três agentes da CIA e destacados políticos.

O bombardeamento pirata em território equatoriano do acampamento comandante Raul Reyes e as operações militares concluídas com a morte em combate dos comandantes Jorge Briceño e Afonso Cano resultaram aliás da colaboração decisiva do Pentágono , da CIA e da Mossad israelense.

A campanha mundial que precedeu a inscrição das FARC pelas Nações Unidas na lista das «organizações terroristas» foi acompanhada de outra que lhes colou o anátema de «guerrilha do narcotráfico»

Na realidade, o slogan, forjado para desacreditar as FARC, foi criado por um diplomata dos EUA, o embaixador Louis Stamb, homem do Pentágono e da CIA.

Tive pessoalmente a oportunidade de verificar em 2001, que as FARC, em El Caguan, capital da zona desmilitarizada, proibiam ali o consumo e o tráfico da droga. Mas a calúnia correu pelo mundo, adquirindo credibilidade.

Comprovadamente comprometidos com o narcotráfico foram, esses sim, o anterior presidente da Colombia, Álvaro Uribe, e o atual, José Manuel Santos, cujos nomes figuram aliás nos arquivos da Drug Enforcement Agency -DRUG, a Agência que controla o negócio da cocaína.

Virginia Vallejo , ex miss Colombia, que foi amante do rei da droga, revela num livro de memórias (1), best seller nos EUA, que Pablo Escobar não escondia que a ajuda de Álvaro Uribe, quando director da Aeronáutica Civil de Antioquia, lhe permitiu fazer sair do país centenas de toneladas de cocaína.

O comunicado das FARC sobre a renúncia aos sequestros motivou uma chuva de comentários, interpretando a decisãocomo prólogo do fim da guerrilha.

É oportuno recordar que a desagregação iminente das FARC foi anunciada dezenas de vezes por sucessivos governos da Colombia.

Mentiam.

As FARC sofreram rudes golpes nos últimos anos. Mas há meio século que se batem nas montanhas e selvas do seu pais. Organização político-militar marxista-leninista, construíram um exército popular que em determinados períodos contou com 18 000 combatentes que enfrentavam em 60 Frentes as Forças armadas mais poderosas da América Latina (300 000 homens) armadas e financiadas pelos EUA.

Manuel Marulanda, o seu fundador e comandante-chefe, falecido em 2008, foi durante anos tratado com respeito por chefes de estado, diplomatas e políticos de muitos paises, antes de lhe colocarem a cabeça a prêmio sob pressão da Casa Branca.

Calúnia alguma poderá apagar lhe o nome como herói da América Latina.

O andamento da história vai desmentir as profecias sobre a morte das FARC. O comandante Timoleon Jimenez, seu acual comandante-chefe, já informou que a organização revolucionária continuará a sua luta por uma Colômbia livre, democrática e independente.

Vila Nova de Gaia, 27 de Fevereiro de 2012

O original deste artigo encontra-se em odiario.info

1. Virginia Vallejo, Amando a Pablo, Odiando a Escobar, Random House, Bogotá, 2007