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8 de março de 2015

O ÓDIO AOS RUSSOS DO FASCISMO UCRANIANO

O ÓDIO AOS RUSSOS DO FASCISMO UCRANIANO



Miguel Urbano Rodrigues
Os media portugueses ditos de referência continuam a apresentar um panorama deformado da crise ucraniana.
Para os comentaristas da TV e dos grandes jornais o governo fascizante de Kiev é democrático. Acusam a Rússia de uma política agressiva e anexionista e apoiam a ajuda financeira da União Europeia e dos Estados Unidos à Ucrânia.
A comunicação social portuguesa inspira se aliás na campanha de desinformação internacional que difunde pelo mundo uma falsa realidade ucraniana.
Diariamente o Canal Rússia Today nos seus programas em inglês e espanhol transmite imagens, notícias e entrevistas que revelam uma realidade totalmente diferente da forjada pela propaganda dos media ocidentais.
Nessas reportagens, bem documentadas, transparece com nitidez o ódio - é a palavra - do fascismo ucraniano à Rússia.
Dos muitos casos relatados pelo referido canal selecionei alguns que iluminam bem a atitude das autoridades de Kiev perante os jornalistas russos que cobrem acontecimentos na Ucrânia.
- Em Minsk, durante a cimeira que reuniu Merkel, Hollande, Putin e Poroshenko, a jornalista Olga Skabeeva, do Canal Rússia 24, quando aproximou o microfone do Presidente da Ucrânia foi brutalmente agredida por um segurança de Poroshenko que lhe colocou um braço no pescoço e lhe tapou a boca impedindo-a de falar.
- Dois jornalistas que cobriam acontecimentos em território ucraniano foram detidos pelos Serviços de Segurança e ameaçados de serem processados por «atividades informativas subversivas» contra a Ucrânia por incumbência da Rússia.
-O mesmo Serviço advertiu que qualquer cidadão que colabore com jornalistas russos incorre em responsabilidade penal.
- Uma jornalista do Canal russo NTV ficou detida uma noite no aeroporto de Kiev, privada de passaporte, depois de lhe negarem entrada no país.
-Dois jornalistas russos que filmavam uma manifestação da extrema-direita em Kiev foram presos e deportados
- Zaur Sheozh, repórter da sucursal em Moscou da Al Jazira, do Qatar, foi preso quando prentendia cobrir o primeiro aniversário de Maidan e o cessar-fogo assinado em Minsk. Interrogado durante quatro horas, foi depois deportado.
- Eelisaveta Jramtsova, correspondente de Life News, e a sua ajudante foram detidos quando tomavam um táxi para ir entrevistar um especialista de questões ligadas à agricultura. Dois homens entraram no táxi, identificaram-se como agentes do Serviço de Segurança e informaram que pretendiam interrogá-las sobre um possível atentado numa praça da cidade. Conduzidas a um lugar desconhecido, foram deportadas e proibidas de voltar à Ucrânia durante cinco anos.
A HISTERIA ANTI-RUSSA
O Serviço de Segurança elaborou uma lista negra dos meios de comunicação da Rússia. Todos, com exceção do canal de TV Dozhd, oposicionista, foram proibidos de trabalhar na Ucrânia. Simultaneamente suspendeu as credenciais dos representantes de 1OO medias russos.
A decisão foi tão absurda que a União Europeia e a OSCE decidiram protestar, por envolver um ataque inadmissível à liberdade de expressão.
O Clube de Jornalistas do México também enviou um protesto ao governo de Kiev pelas medidas que impedem os jornalistas russos de trabalhar na Ucrânia.
O governo de Putin, através do vice ministro das Relações Exteriores, Vassili Nebenzia, sentiu a necessidade de condenar com veemência a atitude assumida pelo parlamento ucraniano ao aprovar no dia 26 de Fevereiro a decisão do Serviço de Segurança que impede na prática os media russos de trabalhar no país.
O assassínio em Moscou, no dia 28 de Fevereiro, de Boris Nemtsov, ex vice-primeiro ministro de Ieltsin e líder da oposição contribuirá certamente para a intensificação da campanha ocidental contra a Rússia e Putin no momento em que a popularidade do presidente russo atinge o auge pela sua firmeza no diálogo com a União europeia e os EUA a propósito da crise ucraniana. Observadores ocidentais admitem que o crime tenha sido idealizado por forças políticas da oposição empenhadas em destabilizar a Rússia.

4 de junho de 2014

O que diria Lênin sobre os movimentos separatistas na Ucrânia?

Carlos Serrano Ferreira *
Lênin nos deixou há décadas. Pereceu assim um dos maiores guias do proletariado e dos oprimidos de todo o mundo. Um dos poucos que entendeu a novidade do materialismo dialético e foi capaz de dar saltos e mais saltos em frente em sua elaboração, mantendo-o não só vivo, mas também criativo e útil. Suas elaborações e lições não pereceram e não perecerão nunca enquanto a luta pela superação do sistema capitalista que mata o mundo e os povos continuar. Elas estão cristalizadas em seus textos, discursos e ações. São parte fundamental do patrimônio teórico que permite guiar os nossos passos em meio a um cenário de trevas e confusão, de reviravoltas e perigos. Ajudam-nos a escrever novos capítulos na história da libertação do proletariado. E, ajudam a iluminar os desafios atuais, como saber qual deve ser a postura dos revolucionários em relação ao movimento separatista na Ucrânia Oriental.
O que diria Lênin sobre os referendos que declararam a independência das Repúblicas Populares de Lugansk e de Donetsk e a anexação da Crimeia à Rússia e que podem ser repetidos em outras regiões do Leste e do Sul da Ucrânia? Claro que não podemos ter certeza de seu posicionamento, afinal não existem espíritos para consultarmos. Mas, sobre a questão nacional, como noutras questões, Lênin sempre foi extremamente coerente e manteve a mesma postura. Por isso, recorremos aos seus textos para entender qual seria seu posicionamento.
O tema foi muito trabalhado por Lênin, pois ele refletia sobre a Rússia Czarista, que era chamada “com razão «prisão de povos»”[i].Ele seguia fielmente “os maiores representantes da democracia consequente do século XIX, Marx e Engels, que se tornaram os mestres do proletariado revolucionário”[ii] quando estes afirmavam que “Não pode ser livre um povo que oprime outros povos”[iii]. E, afirmava que não havia contradição na defesa da pátria e na defesa da igualdade e das nações minoritárias, pois estão intrinsecamente ligadas estas lutas, bem como a luta socialista, a luta contra a classe dominante: “não se pode, no século XX, na Europa (ainda que seja na Europa extremo-oriental), «defender a pátria» de outra forma que não seja lutando com todos os meios revolucionários contra a monarquia, os latifundiários e os capitalistas da própria pátria, isto é, contra os piores inimigos da nossa pátria; [...] pois o tsarismo não só oprime económica e politicamente estes 9/10 da população como também a desmoraliza, humilha, desonra, prostitui, habituando-a a oprimir outros povos, habituando-a a encobrir a sua vergonha com frases hipócritas, pretensamente patrióticas”[iv]. Por isso afirmava que os revolucionários russos, operários “penetrados pelo sentimento de orgulho nacional, queremos, aconteça o que acontecer, uma Grã-Rússia livre e independente, autónoma, democrática, republicana e orgulhosa, que assente as suas relações com os vizinhos no princípio humano da igualdade, e não no principio feudal do privilégio, que humilha uma grande nação”[v].
E, é pela unidade indissolúvel da luta socialista internacional e da luta nacional, da luta do proletariado e da luta das nacionalidades oprimidas que se pode afirmar que em “nossos dias, só o proletariado defende a verdadeira liberdade das nações e a unidade dos operários de todas as nacionalidades”[vi]. E, é por isso que é “necessária a plena democracia, defendida pela classe operária, para que as diferentes nações convivam ou se separem (quando isso mais lhes convenha) livre e pacificamente, formando diferentes Estados. Nada de privilégios para nenhuma nação, para nenhum idioma! Nem a menor perseguição, nem a mínima injustiça para com uma minoria nacional!: tais são os princípios da democracia operária”[vii]. Por isso ele defendia como princípio dos revolucionários do reconhecimento a cada nação do “direito de separar-se livremente e formar Estados independentes”[viii]. Mais do que isso, “Só o reconhecimento pelo proletariado do direito das nações à separação garante a plena solidariedade dos operários das diferentes nações e permite uma aproximação verdadeiramente democrática das nações”[ix]. Mais ainda: que a “negação deste direito e a não adopção de medidas destinadas a garantir a sua realização prática equivalem a apoiar a política de conquistas ou anexações”[x]. E, afirmava que para “a revolução do proletariado é necessária uma longa educação dos operários no espírito da mais plena igualdade e fraternidade nacionais”[xi].
Por todos os fatos acima, “do ponto de vista dos interesses precisamente do proletariado grão-russo, é necessária uma longa educação das massas no sentido da defesa mais decidida, consequente, corajosa e revolucionária da plena igualdade de direitos e do direito à autodeterminação de todas as nações oprimidas pelos grão-russos”[xii].
Lênin se bateu permanentemente pela defesa do direito das nações à autodeterminação, lutando contra a posição dos poloneses e do grupo de Bukhárine, Piatakov e Boch que se opunham à mesma. Como ele dizia, já “que existem resíduos de questões não resolvidas pela revolução burguesa, somos partidários de que elas se resolvam. Em face do movimento separatista somos indiferentes, neutrais. Se a Finlândia, se a Polónia e a Ucrânia se separarem da Rússia, não há nenhum mal nisso. Que mal pode haver? Quem o afirmar é um chauvinista”[xiii]. Nós comunistas somos sempre os que “dizemos que as fronteiras se fixam por vontade da população”[xiv].
Lembra, no entanto Lênin que “É inadmissível confundir a questão do direito das nações à livre separação com a questão da conveniência da separação desta ou daquela nação neste ou naquele momento. O partido do proletariado deverá resolver esta última questão de modo absolutamente independente em cada caso particular, do ponto de vista dos interesses de todo o desenvolvimento social e dos interesses da luta de classe do proletariado pelo socialismo”[xv]. Mas, o que Lênin disse é claríssimo: os revolucionários sempre, a qualquer tempo ou lugar, defende o direito das nacionalidades oprimidas à autodeterminação, isto é um princípio. A posição em torno à defesa da independência num possível processo de autodeterminação é um problema tático. Táticas variam, princípios não. Logo, não é possível ser revolucionário sem defender o direito à autodeterminação nacional. Ser contra um referendo ou plebiscito que permita o direito à autodeterminação nacional é ser contrarrevolucionário. Ao menos para Lênin. Ser contra o referendo de independência na Crimeia ou no Leste da Ucrânia é ser contra um princípio revolucionário, é ser contrarrevolucionário. Não é uma contradição para os fascistas do Svoboda, mas é uma contradição para os revolucionários.
Ninguém pode em sã consciência negar o fato que nas regiões que se tornaram independentes ou na Crimeia anexada à Rússia os russos étnicos são maioria. Ninguém pode negar em sã consciência que, com mais de 60% de russos na Crimeia, com tropas russas ou não, no referendo haveria maioria esmagadora pró-anexação. Na verdade, a Crimeia só se tornou ucraniana por um ato burocrático de Nikita Kruschev, sendo o retorno da região à Rússia apenas um ajuste dessa decisão burocrática, onde se “brincou” com a vida de milhões. Também não há que se negar a política do novo governo de Kiev e das facções que o apoiam, em particular as milícias fascistas do Pravy Sektor e do Svoboda, de opressão às minorias nacionais. Viraram o aparato estatal pouco democrático que já existia contra as minorias nacionais russas, contudo majoritária nessas regiões. Negam o direito à igualdade linguística e nacional aos ucranianos russófonos, oprimindo-os[xvi]. Logo, por princípio, seguindo o que nos ensinou Lênin, temos que ser favoráveis aos referendos. Qualquer coisa diferente disso é ir contra um dos princípios dos comunistas.
Podem, contudo, alguns objetar que Lugansk e Donetsk se tornarem independentes é devido a uma incitação pró-russa. Na verdade, não é. O imperialismo russo nem está ajudando... pelo contrário, está jogando pela reação democrática, para as eleições do dia 25 de maio e contra referendos de independência e a uma anexação à Rússia[xvii]. Sua política é uma finlandização pacífica da Ucrânia. Não quer é óbvio que o movimento revolucionário no Leste e no Sul da Ucrânia cresça e avance com o movimento operário, como tem feito, inclusive expropriando oligarcas locais, pois isto poderia se espalhar para a Rússia e atingir os oligarcas que sustentam Putin. A política de Putin e de Merkel era o governo de unidade nacional, mas os EUA e os fascistas impediram isso, por seus interesses próprios. Só que não previam que iriam desatar um processo revolucionário na Ucrânia Oriental. Hoje, dia 21 de maio, a República Popular de Donetsk anunciou a nacionalização de todas as propriedades dos oligarcas[xviii]! Uma revolução antifascista que se converte pela necessidade do combate, cada vez mais, numa revolução anticapitalista.
Na verdade, desde os tempos da URSS a política do setor governantes foi a manutenção das fronteiras europeias estabelecidas nos Acordos de Ialta (curiosamente localizada na Crimeia). Com o esfacelamento da URSS Moscou se tornou o bastião contra o direito à autodeterminação nacional, como se vê na Chechênia. No caso da Ossétia do Sul e da Abkhásia que fizeram parte da Geórgia, o Kremlin só reconheceu a independência dessas repúblicas após a Guerra dos Cinco Dias, depois de quase duas décadas que se tinham declarado independentes. Nunca propôs a anexação destas, pois poderia aumentar as tensões no Cáucaso Norte. A Crimeia foi uma exceção, por seu papel central geopolítico e militar. Mas, ainda assim, essa era a vontade do povo, e como dizia Lénine, nós comunistas “dizemos que as fronteiras se fixam por vontade da população”[xix].
Para encerrar, é preciso lembrar um dado importante: a URSS não existe mais. A opressão nacional que se estabeleceu com o tempo dentro da URSS sobre a Ucrânia não existe mais, o que não significa que não existe o imperialismo russo agindo sobre ela. Mas, a opressão nacional que existe hoje é dos ucranianos ocidentais contra os ucranianos orientais com maioria russa. Se a opressão russa do passado sobre os ucranianos explica a raiva dos ucranianos ocidentais contra Moscou, não justifica a opressão atual contra os russos da Ucrânia oriental. E, frente a estas regiões os revolucionários, concordando ou não em relação a se a independência é a melhor ou pior política, pois isto é tático, não podem se furtar a apoiar o direito à autodeterminação dessas minorias. Isto é uma questão de princípios. E, não há nada acima para os comunistas que princípios.
*Carlos Serrano Ferreira é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia da UFRJ (LEHC-UFRJ) e militante do PCB-RJ.

[i] Lénine, V.I. Acerca do Orgulho Nacional dos Grão-Russos. Publicado originalmente em 12 de Dezembro de 1914. Disponível em: http://www.marxists.org/portugues/lenin/1914/12/12.htm.
[ii] Idem.
[iii] Idem.
[iv] Idem.
[v] Idem.
[vi] Lénine, V.I. A Classe Operária e a Questão Nacional. Publicado originalmente em 10 de Maio de 1913. Disponível em: http://marxists.org/portugues/lenin/1913/05/10.htm.
[vii] Idem.
[viii] Lénine, V.I. Resolução Sobre a Questão Nacional. Publicado originalmente em 16 (3) de Maio de 1917. Disponível em: http://marxists.org/portugues/lenin/1917/05/16-02.htm.
[ix] Idem.
[x] Idem.
[xi] Lénine, V.I. Acerca do... . Ver nota i.
Carlos Serrano Ferreira *
Lênin nos deixou há décadas. Pereceu assim um dos maiores guias do proletariado e dos oprimidos de todo o mundo. Um dos poucos que entendeu a novidade do materialismo dialético e foi capaz de dar saltos e mais saltos em frente em sua elaboração, mantendo-o não só vivo, mas também criativo e útil. Suas elaborações e lições não pereceram e não perecerão nunca enquanto a luta pela superação do sistema capitalista que mata o mundo e os povos continuar. Elas estão cristalizadas em seus textos, discursos e ações. São parte fundamental do patrimônio teórico que permite guiar os nossos passos em meio a um cenário de trevas e confusão, de reviravoltas e perigos. Ajudam-nos a escrever novos capítulos na história da libertação do proletariado. E, ajudam a iluminar os desafios atuais, como saber qual deve ser a postura dos revolucionários em relação ao movimento separatista na Ucrânia Oriental.
O que diria Lênin sobre os referendos que declararam a independência das Repúblicas Populares de Lugansk e de Donetsk e a anexação da Crimeia à Rússia e que podem ser repetidos em outras regiões do Leste e do Sul da Ucrânia? Claro que não podemos ter certeza de seu posicionamento, afinal não existem espíritos para consultarmos. Mas, sobre a questão nacional, como noutras questões, Lênin sempre foi extremamente coerente e manteve a mesma postura. Por isso, recorremos aos seus textos para entender qual seria seu posicionamento.
O tema foi muito trabalhado por Lênin, pois ele refletia sobre a Rússia Czarista, que era chamada “com razão «prisão de povos»”[i].Ele seguia fielmente “os maiores representantes da democracia consequente do século XIX, Marx e Engels, que se tornaram os mestres do proletariado revolucionário”[ii] quando estes afirmavam que “Não pode ser livre um povo que oprime outros povos”[iii]. E, afirmava que não havia contradição na defesa da pátria e na defesa da igualdade e das nações minoritárias, pois estão intrinsecamente ligadas estas lutas, bem como a luta socialista, a luta contra a classe dominante: “não se pode, no século XX, na Europa (ainda que seja na Europa extremo-oriental), «defender a pátria» de outra forma que não seja lutando com todos os meios revolucionários contra a monarquia, os latifundiários e os capitalistas da própria pátria, isto é, contra os piores inimigos da nossa pátria; [...] pois o tsarismo não só oprime económica e politicamente estes 9/10 da população como também a desmoraliza, humilha, desonra, prostitui, habituando-a a oprimir outros povos, habituando-a a encobrir a sua vergonha com frases hipócritas, pretensamente patrióticas”[iv]. Por isso afirmava que os revolucionários russos, operários “penetrados pelo sentimento de orgulho nacional, queremos, aconteça o que acontecer, uma Grã-Rússia livre e independente, autónoma, democrática, republicana e orgulhosa, que assente as suas relações com os vizinhos no princípio humano da igualdade, e não no principio feudal do privilégio, que humilha uma grande nação”[v].
E, é pela unidade indissolúvel da luta socialista internacional e da luta nacional, da luta do proletariado e da luta das nacionalidades oprimidas que se pode afirmar que em “nossos dias, só o proletariado defende a verdadeira liberdade das nações e a unidade dos operários de todas as nacionalidades”[vi]. E, é por isso que é “necessária a plena democracia, defendida pela classe operária, para que as diferentes nações convivam ou se separem (quando isso mais lhes convenha) livre e pacificamente, formando diferentes Estados. Nada de privilégios para nenhuma nação, para nenhum idioma! Nem a menor perseguição, nem a mínima injustiça para com uma minoria nacional!: tais são os princípios da democracia operária”[vii]. Por isso ele defendia como princípio dos revolucionários do reconhecimento a cada nação do “direito de separar-se livremente e formar Estados independentes”[viii]. Mais do que isso, “Só o reconhecimento pelo proletariado do direito das nações à separação garante a plena solidariedade dos operários das diferentes nações e permite uma aproximação verdadeiramente democrática das nações”[ix]. Mais ainda: que a “negação deste direito e a não adopção de medidas destinadas a garantir a sua realização prática equivalem a apoiar a política de conquistas ou anexações”[x]. E, afirmava que para “a revolução do proletariado é necessária uma longa educação dos operários no espírito da mais plena igualdade e fraternidade nacionais”[xi].
Por todos os fatos acima, “do ponto de vista dos interesses precisamente do proletariado grão-russo, é necessária uma longa educação das massas no sentido da defesa mais decidida, consequente, corajosa e revolucionária da plena igualdade de direitos e do direito à autodeterminação de todas as nações oprimidas pelos grão-russos”[xii].
Lênin se bateu permanentemente pela defesa do direito das nações à autodeterminação, lutando contra a posição dos poloneses e do grupo de Bukhárine, Piatakov e Boch que se opunham à mesma. Como ele dizia, já “que existem resíduos de questões não resolvidas pela revolução burguesa, somos partidários de que elas se resolvam. Em face do movimento separatista somos indiferentes, neutrais. Se a Finlândia, se a Polónia e a Ucrânia se separarem da Rússia, não há nenhum mal nisso. Que mal pode haver? Quem o afirmar é um chauvinista”[xiii]. Nós comunistas somos sempre os que “dizemos que as fronteiras se fixam por vontade da população”[xiv].
Lembra, no entanto Lênin que “É inadmissível confundir a questão do direito das nações à livre separação com a questão da conveniência da separação desta ou daquela nação neste ou naquele momento. O partido do proletariado deverá resolver esta última questão de modo absolutamente independente em cada caso particular, do ponto de vista dos interesses de todo o desenvolvimento social e dos interesses da luta de classe do proletariado pelo socialismo”[xv]. Mas, o que Lênin disse é claríssimo: os revolucionários sempre, a qualquer tempo ou lugar, defende o direito das nacionalidades oprimidas à autodeterminação, isto é um princípio. A posição em torno à defesa da independência num possível processo de autodeterminação é um problema tático. Táticas variam, princípios não. Logo, não é possível ser revolucionário sem defender o direito à autodeterminação nacional. Ser contra um referendo ou plebiscito que permita o direito à autodeterminação nacional é ser contrarrevolucionário. Ao menos para Lênin. Ser contra o referendo de independência na Crimeia ou no Leste da Ucrânia é ser contra um princípio revolucionário, é ser contrarrevolucionário. Não é uma contradição para os fascistas do Svoboda, mas é uma contradição para os revolucionários.
Ninguém pode em sã consciência negar o fato que nas regiões que se tornaram independentes ou na Crimeia anexada à Rússia os russos étnicos são maioria. Ninguém pode negar em sã consciência que, com mais de 60% de russos na Crimeia, com tropas russas ou não, no referendo haveria maioria esmagadora pró-anexação. Na verdade, a Crimeia só se tornou ucraniana por um ato burocrático de Nikita Kruschev, sendo o retorno da região à Rússia apenas um ajuste dessa decisão burocrática, onde se “brincou” com a vida de milhões. Também não há que se negar a política do novo governo de Kiev e das facções que o apoiam, em particular as milícias fascistas do Pravy Sektor e do Svoboda, de opressão às minorias nacionais. Viraram o aparato estatal pouco democrático que já existia contra as minorias nacionais russas, contudo majoritária nessas regiões. Negam o direito à igualdade linguística e nacional aos ucranianos russófonos, oprimindo-os[xvi]. Logo, por princípio, seguindo o que nos ensinou Lênin, temos que ser favoráveis aos referendos. Qualquer coisa diferente disso é ir contra um dos princípios dos comunistas.
Podem, contudo, alguns objetar que Lugansk e Donetsk se tornarem independentes é devido a uma incitação pró-russa. Na verdade, não é. O imperialismo russo nem está ajudando... pelo contrário, está jogando pela reação democrática, para as eleições do dia 25 de maio e contra referendos de independência e a uma anexação à Rússia[xvii]. Sua política é uma finlandização pacífica da Ucrânia. Não quer é óbvio que o movimento revolucionário no Leste e no Sul da Ucrânia cresça e avance com o movimento operário, como tem feito, inclusive expropriando oligarcas locais, pois isto poderia se espalhar para a Rússia e atingir os oligarcas que sustentam Putin. A política de Putin e de Merkel era o governo de unidade nacional, mas os EUA e os fascistas impediram isso, por seus interesses próprios. Só que não previam que iriam desatar um processo revolucionário na Ucrânia Oriental. Hoje, dia 21 de maio, a República Popular de Donetsk anunciou a nacionalização de todas as propriedades dos oligarcas[xviii]! Uma revolução antifascista que se converte pela necessidade do combate, cada vez mais, numa revolução anticapitalista.
Na verdade, desde os tempos da URSS a política do setor governantes foi a manutenção das fronteiras europeias estabelecidas nos Acordos de Ialta (curiosamente localizada na Crimeia). Com o esfacelamento da URSS Moscou se tornou o bastião contra o direito à autodeterminação nacional, como se vê na Chechênia. No caso da Ossétia do Sul e da Abkhásia que fizeram parte da Geórgia, o Kremlin só reconheceu a independência dessas repúblicas após a Guerra dos Cinco Dias, depois de quase duas décadas que se tinham declarado independentes. Nunca propôs a anexação destas, pois poderia aumentar as tensões no Cáucaso Norte. A Crimeia foi uma exceção, por seu papel central geopolítico e militar. Mas, ainda assim, essa era a vontade do povo, e como dizia Lénine, nós comunistas “dizemos que as fronteiras se fixam por vontade da população”[xix].
Para encerrar, é preciso lembrar um dado importante: a URSS não existe mais. A opressão nacional que se estabeleceu com o tempo dentro da URSS sobre a Ucrânia não existe mais, o que não significa que não existe o imperialismo russo agindo sobre ela. Mas, a opressão nacional que existe hoje é dos ucranianos ocidentais contra os ucranianos orientais com maioria russa. Se a opressão russa do passado sobre os ucranianos explica a raiva dos ucranianos ocidentais contra Moscou, não justifica a opressão atual contra os russos da Ucrânia oriental. E, frente a estas regiões os revolucionários, concordando ou não em relação a se a independência é a melhor ou pior política, pois isto é tático, não podem se furtar a apoiar o direito à autodeterminação dessas minorias. Isto é uma questão de princípios. E, não há nada acima para os comunistas que princípios.
* Carlos Serrano Ferreira é pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra-Hegemonia da UFRJ (LEHC-UFRJ) e militante do PCB-RJ.

[i] Lénine, V.I. Acerca do Orgulho Nacional dos Grão-Russos. Publicado originalmente em 12 de Dezembro de 1914. Disponível em: http://www.marxists.org/portugues/lenin/1914/12/12.htm.
[ii] Idem.
[iii] Idem.
[iv] Idem.
[v] Idem.
[vi] Lénine, V.I. A Classe Operária e a Questão Nacional. Publicado originalmente em 10 de Maio de 1913. Disponível em: http://marxists.org/portugues/lenin/1913/05/10.htm.
[vii] Idem.
[viii] Lénine, V.I. Resolução Sobre a Questão Nacional. Publicado originalmente em 16 (3) de Maio de 1917. Disponível em: http://marxists.org/portugues/lenin/1917/05/16-02.htm.
[ix] Idem.
[x] Idem.
[xi] Lénine, V.I. Acerca do... . Ver nota i.
[xii] Idem.
[xiii] Lénine, V.I. Discurso Sobre a Questão Nacional. Publicado originalmente em 29 de Abril (12 de Maio) de 1917. Disponível em: http://marxists.org/portugues/lenin/1917/05/12-01.htm#r4. Grifos nossos.
[xiv] Idem.
[xv] Lénine, V.I. Resolução... . Ver nota viii.
[xvi] Sobre a ação fascista ver meu artigo Ucrânia: um balanço de dois meses do golpe – Parte I: A ascensão fascista, de 8 de maio, onde trato da ascensão do fascismo disponível entre outros sites em Diário Liberdade(http://www.diarioliberdade.org/opiniom/opiniom-propia/48291-ucr%C3%A2nia-um-balan%C3%A7o-de-dois-meses-do-golpe-%E2%80%93-parte-i.html).
[xvii] Traynor, I.; Walker, S.; Salem, H.; Lewis, P. “Putin says eastern Ukraine referendum on autonomy should be postponed”. The Guardian, 8 de maio 2014. Disponível em:http://www.theguardian.com/world/2014/may/07/ukraine-crisis-putin-referendum-autonomy-postponed?CMP=twt_gu.
[xviii] 5dias.net. Revolução Social em Donetsk. República, Oligarcas e Operários. 21 de maio de 2014. Disponível em: http://5dias.wordpress.com/2014/05/21/revolucao-social-em-donetsk-republica-oligarcas-e-operarios/.
[xix] Lénine, V.I. Discurso Sobre... . Ver nota XIII.
[xii] Idem.
[xiii] Lénine, V.I. Discurso Sobre a Questão Nacional. Publicado originalmente em 29 de Abril (12 de Maio) de 1917. Disponível em: http://marxists.org/portugues/lenin/1917/05/12-01.htm#r4. Grifos nossos.
[xiv] Idem.
[xv] Lénine, V.I. Resolução... . Ver nota viii.
[xvi] Sobre a ação fascista ver meu artigo Ucrânia: um balanço de dois meses do golpe – Parte I: A ascensão fascista, de 8 de maio, onde trato da ascensão do fascismo disponível entre outros sites em Diário Liberdade(http://www.diarioliberdade.org/opiniom/opiniom-propia/48291-ucr%C3%A2nia-um-balan%C3%A7o-de-dois-meses-do-golpe-%E2%80%93-parte-i.html).
[xvii] Traynor, I.; Walker, S.; Salem, H.; Lewis, P. “Putin says eastern Ukraine referendum on autonomy should be postponed”. The Guardian, 8 de maio 2014. Disponível em:http://www.theguardian.com/world/2014/may/07/ukraine-crisis-putin-referendum-autonomy-postponed?CMP=twt_gu.
[xviii] 5dias.net. Revolução Social em Donetsk. República, Oligarcas e Operários. 21 de maio de 2014. Disponível em: http://5dias.wordpress.com/2014/05/21/revolucao-social-em-donetsk-republica-oligarcas-e-operarios/.
[xix] Lénine, V.I. Discurso Sobre... . Ver nota XIII.