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2 de março de 2015

Nota do PCB e UJC em Goias sobre as recentes prisoes de manifestantes da luta do transporte




O PCB-Partido Comunista Brasileiro e a UJC-União da Juventude Comunista vem a público prestar sua solidariedade militante aos presos políticos do Estado de Goiás, detidos no dia 26 de fevereiro, por colaborarem com as manifestações populares contra o aumento da tarifa da passagem no transporte público em Goiânia.
As prisões ocorreram de forma completamente autoritária e desmotivada, destacando-se que um dos detidos é moderador da página Desneuralizador, que faz cobertura das manifestações, e cobria o ato espontâneo no Terminal da Praça A.
A capital de Goiás há anos é palco de manifestações populares contra a mercantilização e sucateamento do direito ao transporte público. A atitude dos governos burgueses, sejam eles tucanos ou petistas, sempre foi a mesma: reprimir brutalmente o povo na luta por seus direitos e garantir os lucros das empresas de transporte.
O PCB exige a imediata libertação dos quatro presos políticos e chama todos os trabalhadores, estudantes e usuários do transporte público de Goiânia a fortalecer a luta por um transporte público gratuito, de qualidade e sob o controle popular.

18 de julho de 2013

Alcance e visão de uma declaração comum


Partido Comunista Colombiano

A breve, porém significativa declaração assinada pelos primeiros comandantes do ELN e das FARC-EP, dada a conhecer em 1° de julho passado, expressa uma vontade política compartilhada de grandes conquistas para a realidade colombiana atual. Nelas, as duas organizações revolucionárias expressam seu compromisso com o “objetivo de alcançar uma sociedade democrática, inclusiva, soberana e em paz” e convidam o povo “a trabalhar unido e a mobilizar-se nessa direção”.

Uma leitura fora do contexto poderia traduzir o escrito como simples retórica. Seria ignorar que a declaração sintetiza, na realidade, acordos longamente trabalhados e que representa, como reconhece a mensagem, a superação de um prolongado período de diferenças e atritos em regiões do país, hoje cenário de processos sociais de reconciliação, reencontro e propósitos comuns. Porém, sobretudo, seria desconhecer o ambiente político, de mobilização popular e intelectual suscitado à raiz dos diálogos de paz de Havana, cujo marco necessariamente alude.

A essência do documento apresenta a tese de que a solução política ao conflito interno armado “passa pela necessidade incontornável de promover conversações com toda a insurgência colombiana”. Pela primeira vez no presente século, no contexto de um processo de diálogo, se postula um alargamento dos alcances da solução política através da ampliação do campo de participantes, que se propõe estender a toda a insurgência colombiana. Independentemente da resposta que o governo está dando a esta exigência, mais além dos estreitos cálculos táticos dos assessores estadunidenses curtidos no Afeganistão, esta nova realidade representa um primeiro desafio muito grande frente à opção de uma paz democrática, justa e transformadora.

Essa paz tem um nome claro que a distingue dos vãos empenhos da “paz express”, em troca de um pacote de promessas. Trata-se de uma “Paz com Dignidade e Justiça Social” destinada a ter um impacto civilizador na nação e no continente. Como o assinalara o presidente Mujica, do Uruguai, o que está sendo construído é a paz da América Latina. Por isso, destoam tanto os tombos de Santos fazendo acordos com a OTAN ou prestando-se a ações desestabilizadoras contra a Venezuela.

Destaca a declaração que esta paz tem que ser obra do povo unido. Não como um acordo oco. Salienta a importância na busca da unidade de todas as forças políticas e sociais empenhadas em obter mudanças profundas na sociedade. Este chamado constitui um segundo desafio que é preciso compreender e assumir.
Jaime Caycedo

Secretário Geral do Partido Comunista Colombiano

Fonte: http://www.solidnet.org/colombia-colombian-communist-party/colombian-cp-alcance-y-vision-de-una-declaracion-comun-sp

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

13 de junho de 2013

Pobreza e fome nas Canárias: situação desesperadora

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Publicado por Unidad y Resistencia.
Terça-feira, 11 de junho de 2013
A fome se estende pelas Canárias. A situação da imensa maioria dos mais de 2,1 milhões de canárias e canários volta a ser desesperadora após cinco anos de crise. Os dados são chocantes:
  • 385.600 desempregados, 34,27% da população ativa. Somente 749.000 trabalhadoras e trabalhadores do Arquipélago possuem algum tipo de emprego, porém com salários mais baixos de todo o Estado espanhol. 13% das pessoas com emprego também estão abaixo da linha de pobreza. A taxa de desemprego juvenil é de 70,3%
  • 33,8% da população canária (726.000 pessoas) vive abaixo da linha de pobreza, estando na exclusão social ou a ponto de cair nela. 38,2% das meninas e meninos canários são pobres.
  • Umas 118.000 famílias canárias têm todos os seus membros desempregados e 26.000 famílias não possuem nenhuma renda. Mais de 474.000 lares, 60% do total dos 780.000 lares canários, não têm capacidade para pagar impostos.
  • 500.000 canárias e canários têm que apelar anualmente para a beneficência pública. O número de pessoas que tem de recorrer ao auxílio de organizações de caridade para pedir comida é multiplicado por cinco.
  • Enquanto existem mais de 70.000 habitações vazias, somente em 2012 foram executadas 1.848 expulsões, 5 famílias a cada dia. Padecemos uma média de 32 mortes anuais de pessoas sem teto. Mais de 1.000 canárias e canários pernoitam nas ruas.
  • A deterioração da saúde pública, a redução de medicamentos e recursos hospitalares e o aumento galopante das listas de espera estão provocando uma ampliação no número de mortes evitáveis, que os responsáveis políticos se negam a quantificar.
  • Cresce o número de crianças que chegam sem comer aos colégios. Reduz-se o número de professores, mas aumentam os trâmites burocráticos exigidos aos trabalhadores da educação.
  • O crescimento das taxas universitárias obriga milhares dos melhores jovens canários a deixarem os estudos.
Assim, a desigualdade social cresce sem parar: menos de 1% da população concentra 80% da riqueza. 8% do Produto Interno Bruto (PIB) das Ilhas está nas mãos de tão somente 21 famílias.
E o pior de tudo: permanecemos como um povo desarticulado, sem tecido social e desarmados sindical e politicamente.
Fonte: http://www.unidadyresistencia.net/2013/06/pobreza-y-hambre-en-canarias-situacion.html
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

12 de junho de 2013

(Neo)Desenvolvimentismo ou luta de classes?

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VIOMUNDO


Maria Orlanda Pinassi, em Caros Amigos, sugestão do professor Caio Toledo

Às vésperas de completar 25 anos no Brasil, o neoliberalismo vem sendo o mote de importantes análises e balanços acerca do seu desempenho no país, sobretudo por estudiosos do campo da crítica marxista.

De modo breve, o processo neoliberal é apresentado em dois momentos distintos e complementares ao mesmo tempo. O primeiro marcou os anos do governo de FHC através das privatizações de empresas públicas, da desnacionalização da economia, da desindustrialização, da reprimarização da produção interna (produção e exportação de commodities) e da integração da burguesia brasileira ao imperativo capital transnacionalizado.

O momento seguinte enseja o chamado neodesenvolvimentismo, processo que caracteriza os governos Lula e Dilma. Sem romper com a lógica neoliberal, o “modelo” sugere formas neokeynesianas, de modo a administrar os estragos causados pelo neoliberalismo das gestões anteriores.

Segundo consta, o Estado procuraria, então, recompor sua função (de “alívio”) social –- através da criação de empregos (quase sempre precários e temporários), políticas de recuperação do salário mínimo e redistribuição de renda (Bolsas Família, Escola, Desemprego etc.) –, enquanto a economia se renacionalizaria por meio de financiamentos do BNDES à reindustrialização pautada na substituição de importações.

Argumentos fortemente questionáveis visto que as empresas públicas privatizadas hoje são fortemente controladas por capitais externos (vide Vale), numa lógica em que a economia transnacionalizada do sistema reconduz o Brasil ao papel produtor de bens primários para exportação.

É desse modo subalternizado que, pelas mãos do neoliberalismo, o capitalismo brasileiro vem apresentando alguns dos melhores desempenhos econômicos do sistema. O capital, em processo de crise generalizada, tem pouco a lamentar e muito a comemorar por aqui: veja-se a estratosférica lucratividade bancária e o enorme crescimento da indústria da construção civil. Mais impressionante ainda é o desempenho da mineração, do agronegócio, do setor energético e dos números que apontam para o grande aumento de áreas agricultáveis (1) , de florestas, de rios e outras tantas de proteção ambiental, invadidas e destruídas por pasto, monocultivo de cana, de soja, de celulose, de laranja, por extração mineral, por barragens.

Com razão, é unânime a condenação que se faz da hegemonia do capital financeiro sob o neoliberalismo tendo em vista as consequências sociais nefastas que provoca. Estranhamente, porém, a solução que alguns estudiosos do tema encontram para esse “impasse” vem da Economia Política e não de Marx.

Ressaltam os avanços das políticas sociais dos governos petistas, mas, acometidos de uma espécie de “síndrome de Proudhon”, ouvem o sino tocar sem saber onde ele se encontra. Procuram-no num revival antidialético e romântico do Estado de Bem Estar Social, do predomínio da indústria fordista, com suas formas mais “humanizadas” de extração da mais-valia relativa. Saudades de algo que jamais existiu por aqui.
Para além dessas boas intenções, o neoliberalismo, desde suas primeiras aparições já nos anos de 1990, compõe a processualidade de uma mesma dinâmica de expansão e acumulação de riquezas baseada na superexploração do trabalho. Só que desta vez sem os entraves que as políticas keynesianas originais de controle das crises cíclicas certamente apresentariam à lógica de uma atuação absolutamente intolerante a qualquer limite.

Isso quer dizer que a década de 1990, apesar de ter registrado um desempenho econômico pior do que nos anos 1980, não foi perdida, como pensam, nem de estagnação para o capital. Durante esses anos, o neoliberalismo pôs em prática seu fundamento mais importante, aqui e em todo o mundo capitalista: interrompeu o avanço da classe trabalhadora.

A reestruturação produtiva implantada destruiu empregos e a estabilidade (onde ela existia), criou o desemprego estrutural, disseminou a precarização –- algo bastante familiar ao mundo do trabalho no Brasil — e começou a desmantelar cada um dos direitos trabalhistas conquistados pela classe trabalhadora desde Getúlio. Se o momento FHC criou as condições da miséria, sem, contudo, destruir completamente a classe, o momento seguinte lograria ainda maior sucesso nesta investida, criando e reproduzindo o miserável.

FHC ainda combatia a objetividade da classe trabalhadora, seus sindicatos e os movimentos sociais. Os governos de conciliação de Lula e Dilma mantiveram a política de fragilização da classe trabalhadora e investiram sobre a subjetividade do trabalhador.

Numa obra magistral de engenharia política, não mais o reconhecem como antípoda do capital. Tratam sindicatos e movimentos populares como parceiros e ainda são pródigos na concessão de direitos para as chamadas “minorias”, os direitos de cidadania que vão fortalecer a democracia formal.

Inegável o avanço da Lei Maria da Penha, dos direitos ampliados dos negros, dos índios e dos homossexuais. O problema é a individualização desideologizada do tratamento, devidamente orientado pelo Banco Mundial, de controle social do miserável. (2)

Caminho livre para a lógica da produção destrutiva e nele não há solução jurídica capaz de conter o extermínio de comunidades indígenas, as expropriações sem fim das terras quilombolas, de pequenos produtores e trabalhadores rurais sem terra –- acampados ou assentados –, não há solução possível para as remoções de levas imensas de moradores de comunidades urbanas, muito menos para conter a superexploração de mulheres e crianças ou a disseminação do trabalho escravo no campo e nas cidades. (3)
Para os segmentos atingidos, a criminalização e os rigores da repressão policial. Ou seja, a mais perfeita democracia hoje realizada pelo mundo do capital é a sua absoluta “tolerância” com qualquer forma de extração do sobre-trabalho: pode ser mais valia relativa, pode ser mais valia absoluta.

Vistos dessa ótica, os tempos são inegavelmente difíceis, tornando urgente a tomada de decisão: ou jogamos mais água no moinho satânico ou buscamos caminhos mais autênticos. Ou somos apologetas ou críticos radicais.

Florestan Fernandes foi categórico a respeito: “[...] defendo toda carga possível da saturação-limite dos papéis intelectuais dos sociólogos — não como servos do poder, porém agentes do conhecimento e da transformação do mundo”.

Sem meias palavras, define muito claramente sua opção pela sociologia concreta baseada no “horizonte cultural socialista em sua plenitude revolucionária”. (4)

Não poderia dispor, portanto, de melhor companhia para dizer que não pretendo encontrar soluções para estabilizar o capital; não pretendo dar contribuição para torná-lo mais funcional; nem venho propor algum tipo de pacto social com frações da burguesia supostamente lesadas pelo imperativo capital financeiro.

O ponto de vista que defendo está  ideologicamente comprometido com as necessidades mais legítimas dos indivíduos que compõem a classe trabalhadora, cujo desafio maior da atualidade é conseguir transpor as misérias materiais e ideológicas e reassumir, através da luta, a condição diuturnamente vilipendiada de sujeito da história.

Um primeiro passo deveria ser dado por suas organizações –- ou o que sobrou delas –- no sentido de compreenderem, definitivamente, que o agir revolucionário precisa aprender a se “virar” sem o canto de sereia das instituições mediadoras da ordem.


Notas:

1. Há quem diga que, no Brasil, não há mais latifúndios improdutivos, então, para que Reforma Agrária? Não temos espaço suficiente aqui para demostrarmos quão questionável é essa “ideia”.

2. Ver a respeito o Projeto de Lei PPA 2012/2015 (2011) através do qual a gestão da presidenta Dilma Rousseff se propõe a enfrentar e dar visibilidade através dos programas que englobam o Plano Brasil sem Miséria.

3. Ao contrário, tudo tende a se agravar com a revisão do Código Florestal, da Mineração, da demarcação das terras indígenas.

4. Florestan Fernandes. A natureza sociológica da sociologia. São Paulo, Editora Ática, 1980 (p. 32)

Os comunistas e a redução da maioridade penal


Peter Maahs*
Nós, comunistas, diante da manifestação aparentemente  consensual sobre a necessidade da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, como solução para a delinquência infanto-juvenil, não poderíamos deixar de manifestar nosso posicionamento contrário a tal proposição. Entendemos que qualquer medida de contenção da violência em nosso país deve ser precedida por uma discussão séria e qualificada que, atacando as verdadeiras raízes do problema, não utilize nossa juventude como álibi para justificar a omissão do Estado e os interesses econômicos inconsequentes de uma minoria privilegiada. A nosso ver, os últimos acontecimentos envolvendo crimes cometidos por adolescentes conduziram o debate sobre diminuição da maioridade penal para o campo da marginalização da juventude e do oportunismo eleitoreiro.
Por exemplo, a pesquisa divulgada pela Folha de São Paulo, no dia 17/04/13, segundo a qual 93% dos paulistanos desejariam a redução da maioridade penal, é tendenciosa e expressa, na verdade, a opinião e os interesses de uma parcela ínfima da sociedade. Parcela esta que, maliciosamente, almeja influenciar a opinião pública, em detrimento do conjunto da sociedade, para que seus interesses particulares sejam legitimados como vontade da maioria. No geral, a forma como a delinquência infanto-juvenil vem sendo abordada em nada contribui para a compreensão da gênese desse problema, já que vinte anos de descaso com políticas públicas integradas para a juventude no Estado de São Paulo não são objeto de crítica da grande imprensa; talvez porque o grupo político responsável por esse descaso seja o mesmo grupo ligado à grande imprensa paulista.
Inicialmente, poderíamos dizer que a referida pesquisa nasce morta, pois comete um erro metodológico crasso: a aplicação da enquete logo após um evento de grande comoção pública, como foi o assassinato do jovem Victor Hugo Deppman (19), cometido por um adolescente de dezessete anos, três dias antes de completar a maioridade penal. O impacto da notícia induz, inevitavelmente, à criminalização da infância e da adolescência, impedindo uma reflexão séria sobre a relação entre o número de casos desse tipo e suas motivações. É importante frisar que esse tipo de erro metodológico parece ser comum na redação da Folha de São Paulo. Em 2003, outro levantamento desse tipo foi realizado logo após o assassinato do casal de namorados Liana Friedenbach (16) e Felipe Caffé (19), pelo adolescente conhecido como Champinha (16). Na época, a pesquisa revelou que 88 % da população paulistana defendia a redução da maioridade penal.
Seja como for, a grande imprensa de São Paulo (Globo, Folha, Veja, Estadão) continua sua campanha preconceituosa, tendenciosa e irresponsável, ressaltando notícias sobre crimes violentos cometidos por adolescentes. Crimes como o assassinato da dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, no ABC paulista, e o estupro de uma mulher em um ônibus no Rio de Janeiro, cometidos por adolescentes (de 17 e 16 anos, respectivamente), criam a atmosfera ideal para que os verdadeiros interesses de grupos política e economicamente privilegiados sejam assumidos como vontade geral da sociedade.
Mas, que interesses seriam estes? O primeiro deles faz parte da própria concepção de mundo de nossas elites, concepção de mundo eugênica, que resolvem as contradições do desenvolvimento urbano eliminando, literalmente, os “problemas sociais” das vistas da sociedade; trata-se de uma política fascista, que visa se livrar dos “estorvos” para que a “gente de bem” possa viver sem ser perturbada. Um dos exemplos desse modo elitista de pensar foi a “solução” dada pela prefeitura de São Paulo para o problema dos mendigos que se alojavam sob viadutos e marquises da cidade. Quando José Serra foi prefeito, foram instaladas as rampas antimendigos - blocos de cimento que impediam a ocupação dos espaços por moradores de rua; na administração Kassab, por sua vez, além da proibição do sopão noturno de inverno, foram tomadas medidas ainda mais preconceituosas e violentas, como a ordem para que a Guarda Civil Metropolitana tomasse à força os colchões e cobertores doados aos mendigos pela população. Ou seja, o problema da indigência, longe de ser resolvido, foi apenas deslocado, gerando a impressão de eficiência que a administração municipal desejava causar no munícipe/eleitor.
O outro tipo de interesse é, obviamente, aquele ligado à manutenção do poder político. O ar de organização e seriedade, de solução rápida e simples de um problema, pode render votos nas eleições; trata-se, aqui, da boa e velha demagogia.
Foi nesse sentido que, apesar de negar peremptoriamente o oportunismo eleitoreiro, o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi a Brasília, em 16 de abril último, reuniu-se com o presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN), para defender o projeto de lei que, apresentado pelo líder do PSDB na Câmara, o deputado Carlos Sampaio (SP), altera o ECA e o Código Penal, aumentando o rigor para crimes cometidos por adolescentes. Tal projeto de lei defende o aumento do tempo de internação de três para oito anos, em casos graves e de reincidência, cumprimento da pena em regime diferenciado após 18 anos completos, ou seja, separação entre internos menores e maiores de 18 anos, e, finalmente, a possibilidade de permanência de internação em caso de doença mental comprovada, que ofereça riscos à sociedade. O projeto defende também maior rigor para o adulto que cooptar o menor para a prática criminosa.
Mas qual seria então a solução para conter a escalada da violência no Brasil? Devemos cruzar os braços e esperar uma solução espontânea? Evidentemente que não! Defendemos ações que partam das origens do fenômeno social. Para encontrarmos as raízes do problema, é preciso analisar a questão a partir de dados objetivos, de realidades concretas, da experiência prática. Assim, é importante conhecermos alguns dados quantitativos sobre a juventude brasileira e sua parcela marginalizada.
Segundo o IBGE, em 2010, os jovens entre 15 e 17 anos de idade perfaziam aproximadamente 5,1% da população brasileira, algo em torno de 9.700.000 pessoas. Comparando os dados gerais do IBGE com dados mais específicos, como os do Instituto Latinoamericano de las Naciones Unidas para la Prevención del Delito y el Tratamiento del Delincuente (Ilanud), em São Paulo, é possível dimensionar mais claramente o problema da delinquência infanto-juvenil entre nós. O Ilanud apresentou os resultados de uma pesquisa realizada em São Paulo entre junho de 2.000 e abril de 2.001 e constatou que 2.100 adolescentes foram acusados por delitos no período. Destes, 34, ou 1,6%, havia cometido algum crime contra a vida, como homicídio. Ou seja, a maior parte dos delitos cometidos por adolescentes está relacionada a crimes contra o patrimônio ou tráfico de drogas, o que indica falta de políticas públicas de educação, saúde, assistência social, esporte, lazer, distribuição de renda e, principalmente, emprego.
Os números da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo confirmam esses dados: dos 9.068 internos da Fundação Casa, apenas 0,9% estão envolvidos com latrocínio; 39% cometeram crimes contra o patrimônio (roubo), 60,1% cometeram crimes ligados ao tráfico de drogas. Dos 9.068 internos, 4% são meninas. Contudo, a questão não pode ser tratada apenas de forma quantitativa, é preciso abordá-la também em seu aspecto qualitativo. Os crimes cometidos por adolescentes nos últimos dias – utilizados, de forma oportunista, pela imprensa golpista de São Paulo, a fim de confundir a opinião pública e favorecer o surgimento dos baluartes da moralidade que salvarão a sociedade - possuem caráter inegavelmente hediondo e não devem ser admitidos em uma sociedade saudável. Mas para que a sociedade seja curada é preciso investir em medidas preventivas e não punitivas. Mesmo porque, como sabemos, o sistema carcerário brasileiro não ressocializa ninguém.
Além disso, a violência vem sendo produzida entre nós de maneira silenciosa, anos a fio. A saúde e a educação públicas são constantemente negligenciadas em benefício dos empresários dos grandes sistemas privados de ensino e dos planos de saúde e convênios privados. O investimento em saúde mental, por exemplo, para tratar pessoas viciadas em cocaína, crack, álcool etc., mesmo para tratar de processos depressivos, nunca foi levado a sério, marginalizando um sem número de pessoas. A política de emprego, tanto para a juventude quanto para os arrimos de família, responsáveis pelos primeiros cuidados de nossas crianças – a socialização primária – não pode fazer parte de uma pauta séria em uma sociedade concorrencial. Em outras palavras, nós, brasileiros, ainda não percebemos que, na corrida social em que estamos inseridos, não há vencedores.
Por último, em uma sociedade dividida em classes, acaba sendo “natural” a distribuição desigual da própria justiça. Jovens das classes mais favorecidas, mesmo com maioridade penal comprovada, não são punidos com o mesmo rigor que os filhos das classes populares. Basta citarmos aqui dois casos emblemáticos: o assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos pelos garotos de Brasília, Max Rogério Alves (19), Antônio Novely Cardoso Villanova (19), Eron Chaves Oliveira (19), Tomás Oliveira de Almeida (18) e G. N. A. J. (16), que atearam fogo em seu corpo enquanto aquele dormia em um ponto de ônibus; ou, o atropelamento do ajudante Wanderson Pereira dos Santos (30) pelo bilionário Thor de Oliveira Fuhrken Batista (20), que no máximo pagará uma indenização à família do morto.
Aumentando o abismo entre as classes sociais, acirrando a violência urbana e também no campo, criando o pior dos mundos possível, o governo do Estado de São Paulo “inova” com o bônus desempenho, para polícias militares que conseguirem manter bons índices de segurança em suas respectivas regiões de atuação. O valor das gratificações, que não será incorporada aos salários base e não contemplará os aposentados, tomará como critérios a redução de indicadores criminais, a produtividade operacional (sic), o índice de satisfação da população, o índice de confiança da população e o índice de integridade dos policiais. Assim, o governo sinaliza que não adotará políticas públicas inclusivas, integradas e sérias para solucionar o problema da violência. Enquanto isso, a realidade prática demonstra que a violência contra crianças e jovens, principalmente nas periferias, tende a aumentar. É possível esperar que não haja reação, consequências? Certamente que não.
São estes os motivos que nos levam ao posicionamento contrário à redução da maioridade penal, como forma de inibir a violência juvenil. Em nossa sociedade, a violência não possui raízes na juventude, mas sim na própria forma como os adultos, principalmente aqueles com maior poder de decisão nas esferas política e econômica, concebem os mecanismos de produção e distribuição das riquezas. Enquanto os interesses privados, mascarados de interesses públicos, subjulgarem os verdadeiros interesses coletivos nas políticas públicas do Estado, enquanto a mercadoria valer mais que a vida humana, a sociedade será obrigada a conviver com a escalada da violência. O populismo penal e a banalização das prisões, que levam o governador de São Paulo a se orgulhar de possuir a maior população carcerária do país (o Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo!), somados à falta de políticas públicas integradas e à concentração de renda monstruosa, constituem os verdadeiros obstáculos à pacificação da sociedade brasileira.
* Professor, diretor de escola da Rede Municipal de Cubatão, estudante do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade de São Paulo (USP), e militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)
Leia mais: http://www.pcb-baixadasantista.net/news/os-comunistas-e-a-redu%c3%a7%c3%a3o-da-maioridade-penal/

3 de março de 2012

Comunicado do Secretariado do Estado-Maior Central - FARC-EP: Dez anos depois

Comunicado do Secretariado do Estado-Maior Central - FARC-EP: Dez anos depois

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Crédito: TP
Tribuna Popular TP – NOVA COLÔMBIA.

Dez anos atrás chegaram ao fim as conversações de paz em El Caguán. O governo de Andrés Pastrana decidiu fechar as portas do diálogo e apostar na guerra total contra nós. Fomos acusados de todas as perversidades do mundo. Hordas imensas de soldados mercenários treinados por assessores estrangeiros foram enviadas para nos esmagar. Helicópteros militares e aviões de todos os tipos partiram com a finalidade de nos reduzir a cinzas..

As FARC-EP, há três anos de haver inaugurado os diálogos, seguíamos insistindo na discussão da Agenda Comum combinada, na remoção das causas que originavam o conflito armado. O Governo, em troca, queria tão somente escutar a rendição e a entrega, ostentava um enorme incremento do gasto militar e se esmerava por nos fazer entender o que nos esperava se rechaçássemos a última oportunidade que nos concedia para nos submetermos..

Milhões de colombianos eram vítimas do terror estatal nos campos e cidades. Os mesmos meios de comunicação que denegriam a insurgência revolucionária, se obstinavam em apresentar como salvadores da pátria as principais lideranças paramilitares. O fascismo, que se apossava do poder do Estado pela penetração ostensiva em todos os seus órgãos, impunha como única saída o advento do uribismo criminoso..

O Pentágono promovia sua guerra preventiva pelo mundo, qualificando como terroristas todos aqueles que se opuseram ás políticas do império. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial se encarregavam de generalizar suas políticas neoliberais de saque e superexploração, impondo em cada país o governo que garantia a livre penetração do grande capital transnacional. A Colômbia, ao que parecia, não podia aceitar outra coisa que a resignação e o silêncio..

Como gente do povo, nós guerrilheiros assumimos a responsabilidade que nos impunha a história. Defender com as armas as ideias de vida, soberania nacional, democracia e justiça social que terminaram por serem proibidas e ridicularizadas por completo pala linguagem oficial. Só teriam direitos os que claudicavam, os que se vendiam, os que traíam, os que calavam. Pelo preço de nosso sangue e sofrimento temos defendido por dez anos a liberdade e a decência.

E estamos dispostos a fazê-lo por todo o tempo que seja necessário. Até que o povo colombiano se levante, imbatível, para mudar o regime. Ou até que o Governo compreenda a inutilidade de sua guerra e aceite sentar-se e dialogar sobre a única saída política que exclui em definitivo o confronto: a eliminação das causas estruturais do conflito. Sem armadilhas, com respeito pelo povo da Colômbia.

Todas as vozes da ultra-direita, ligadas ao militarismo santista [de Juan Manuel Santos], locupletadas graças à fartura que obtém de seus aparelhos corruptos e elitistas, encontram-se empenhadas em clamar para que se imponha às FARC um golpe de misericórdia ou que a submetam à mais humilhante rendição. Percebe-se que não são eles nem seus filhos que marcham para morrer em combate. Seja como for, tem sido muito grande nossa firme resistência para que nos assustássemos com isso.

Secretariado do Estado-Maior Central das FARC-EP

Montanhas da Colômbia, 20 de fevereiro de 2012.

5 de fevereiro de 2012

Tod@s somos Pinheirinho, aqui e agora

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Crédito: 2.bp.blogspot
Às vezes, os jargões ganham vida. A luta continua
30/01/2012

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida

Os lutadores e lutadoras do Pinheirinho foram desalojados e vivem uma situação muito difícil, extremamente difícil. No entanto, sua luta, que é nossa luta, continua. Sob certos aspectos, cresce e deve crescer ainda mais.

Também no Brasil a direita cresce, mas carece, em especial no que se refere a setores da classe média e da burocracia de Estado, de fortes direções políticas, mesmo no plano partidário. O PFL-DEM vive espasmos e os tucanos se atritam o tempo todo, enfraquecendo-se reciprocamente. Já a grande burguesia, se enchendo de lucros, mas em pânico diante de crises no curto prazo, divide-se entre o apoio ao governo e a distância prudente, sempre aberta para quaisquer planos b, c ou z.

A política parafascista de Geraldo Alckmin não é simples sadismo de um tresloucado. Possui certo grau de coerência, desfruta de sólidas bases sociais e expressa uma aposta clara.

Como alguns analistas já observaram, trata-se de apresentar São Paulo como o estado que premia todos os que querem prosperar, dos cidadãos contribuintes, que vencem por seus próprios méritos e possuem o legítimo direito de manter o que conquistaram fora do alcance dos desordeiros e fracassados e, portanto, inimigos do alheio. Caso ganhe, ele se cacifa como o grande paladino da direita brasileira. Neste sentido, incrementa a militarização da cidade de São Paulo, viola direitos de dependentes químicos pobres, suja as mãos com o sangue do Pinheirinho e, se achar que deu certo, continuará na mesma toada. Já anuncia novos e violentos despejos de sem-teto ou, para usar uma linguagem elegante, “reintegrações de posse”. O pessoal ligado à especulação imobiliária sorri até as orelhas, mas não percebo aplausos entusiásticos de amplos setores da burguesia. É melhor não cutucar o povo com vara curta e, se o governo federal – na cola do anterior – sabe como lidar com ele, que dê certo enquanto dure. O neonacionaldesenvolvimentismo não atropela os interesses da grande burguesia (capital imperialista incluso). Por outro lado, caso a situação fuja ao controle, é importante que alguém se apresente para restaurar a ordem.

O governo Dilma não tem qualquer pretensão de mexer na atual correlação intraburguesa de forças, exceto no sentido de se fortalecer gradualmente. A ideia é capturar cada vez mais os segmentos da burguesia que apoiam o tucanato e promover políticas sociais compensatórias. No plano eleitoral, o objetivo tático mais importante é vencer as eleições para a prefeitura de São Paulo, até para, na sequência, ganhar o governo da “locomotiva”. Isto implica, como diziam os antigos, comer pela beirada do prato e apostar no erro do adversário, até porque este se desespera. Aqui se trata mais de expressar sensibilidade social e jamais de estimular a “desordem”. Pode-se até amparar os lutadores e lutadoras do Pinheirinho, desde que... parem de lutar. Dilma declarou no Fórum Social Mundial que o tratamento dado a eles foi “bárbaro”, mas não se solidarizou com a luta deles nem, no calor da chacina, protestou contra o tiro que o representante do governo federal recebeu da PM paulista. Afinal, argumenta Eduardo Cardozo, existe um pacto federativo e “não podemos” nos intrometer nos assuntos paulistas. E hoje, Lula não somente recebeu a visita de Alckmin, nos Hospital Sírio-Libanês, como trocou sorridente abraço com o tucano que mandou atirar contra o povo organizado. Os dois personagens não são aliados partidários nem adeptos das mesmas políticas sociais. Mas a prática é o critério da verdade. Exigimos que o governo federal desaproprie a área e a devolva, em condições adequadas, a seus moradores e moradoras. Enquanto isso, que lhes assegure, com ou sem participação do governo estadual, condições de moradia digna.

Neste complexo tabuleiro onde a pequena e a grande política se misturam o tempo todo, talvez já seja possível sinalizar alguns elementos de análise.

O primeiro deles é que o Pinheirinho produziu a mais radical e politizada manifestação coletiva de sem-teto, ao menos neste início de século. Depois dos mitos do fim da questão agrária no Brasil; da impossibilidade de articulação de lutas de empregados e desempregados; da inércia final e fatal de amplas categorias de trabalhador@s (como na construção civil, setor bancário, metalúrgicos etc.); cai o lero-lero de que os impactos da presença estatal, da indústria cultural e do narcotráfico tornavam impossível a ação política dos sem-teto nos grandes centros urbanos.

O segundo é que, por mais que a chamada grande imprensa tente ocultar, o assunto é político. Na conjuntura, a linha divisória principal passa entre quem é a favor da vitória ou da derrota do Pinheirinho. É claro que existe um amplo meio de campo dos sem informação, sem posição formada, onde se encontram milhões a serem sensibilizados pelos que ousaram se levantar sem pedir favor aos dominantes. Mas uma coisa é certa: com toda a heterogeneidade deste campo, se alguém é a favor do Pinheirinho e contra a política do governo Alckmin, dá pra conversar. Se for a favor do açougueiro do Morumbi, não tem acordo. Do contrário, com ou sem a presença de Alckmin, esta política parafascista se expandirá rapidamente pelo país.

Enfim, o que pode ser uma boa notícia. Apesar da vitória militar do demotucanato e da cobertura que este, como de praxe, obteve da grande imprensa, a luta do Pinheirinho obtém vitórias onde as classes populares brasileiras perdem todas nos últimos anos: na luta ideológica. A manifestação dos cineastas na cerimônia do Prêmio Governador do Estado para a Cultura em São Paulo (presença do carniceiro do Morumbi) foi fantástica; o ato político unitário do 25 de janeiro teve ótima repercussão; juristas críticos começam a se manifestar inclusive no âmbito internacional; ao menos um respeitável jornal estrangeiro critica o governo paulista e – melhor ainda – os grandes meios de comunicação brasucas; e vários destes, inclusive na internet, já se reposicionam e fazem uma cobertura mais cautelosa do embate.

Se não atuarmos com toda a persistência e urgência possíveis nesta conjuntura, deixaremos passar uma oportunidade histórica para o avanço da luta política dos dominados neste país.

A urgência se deve ao aspecto contrário: a extrema fragilidade atual dos lutadores e lutadoras do Pinheirinho. Em uma escola e dois dos três centros poliesportivos, continuam cercados e controlados pela polícia. E todos os alojamentos são precários: fervem sob o sol e gelam durante toda a noite; falta água, comida, roupa (fraldas inclusas), material de limpeza e – o que também é importantíssimo – lazer, especialmente a criançada. É preciso denunciar tudo isso o tempo todo. É preciso encontrar meios políticos de retirar a polícia destes locais. É preciso organizar redes de solidariedade que levem os recursos materiais e culturais necessários. Aqui, de fato, somos tod@s Pinheirinho.

Longe de filantrópicas, estas ações de solidariedade e antibarbárie podem ser políticas e politizadoras, inclusive de nós mesm@s.

Parafraseando Gramsci, abriu-se um momento em que a vontade pode ter razão em seu otimismo.

Ousar vivê-lo é o nosso desafio.

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida é professor do Departamento de Política da PUC-SP.

6 de janeiro de 2012

AMEAÇADOS DE MORTE NO PARÁ DIVULGAM CARTA

AMEAÇADOS DE MORTE NO PARÁ DIVULGAM CARTA


imagemCrédito: TVT
Pará
Trabalhadores e lideranças ameaçados de morte nas regiões sul e sudeste do Pará participam de Encontro realizado em Marabá (PA) e divulgam Carta às Autoridades. Confira:
CARTA ÀS AUTORIDADES
Nós, trabalhadores e trabalhadoras rurais, ameaçados de morte e vivendo em situação de risco nas regiões sul e sudeste do Pará, reunidos em um encontro em Marabá, nos dias 09 e 10 do mês corrente, para avaliar nossa situação, nos dirigimos às autoridades estaduais e federais para expor nossas preocupações e apresentar nossas reivindicações.
Constatamos que a situação é grave, apenas nas regiões sul e sudeste, são mais de 40 lideranças em situação de risco em razão das ameaças e, em 2011, já ocorreram 10 assassinatos de trabalhadores rurais nessas regiões. As ameaças, infelizmente, em muitos casos, acabam se cumprindo resultando no assassinato de muitos camponeses.
A falência do INCRA e da Reforma Agrária é a principal causa geradora das ameaças, e por consequência das mortes. Processos de desapropriação ou arrecadação de terras públicas se arrastam por décadas, desencadeando conflitos graves e expondo os trabalhadores e suas lideranças à ação criminosa de pistoleiros a mando de fazendeiros e madeireiros. Em 2011, nenhuma fazenda foi desapropriada e nenhum assentamento foi criado nas regiões sul e sudeste. São mais de 10 mil famílias aguardando serem assentadas, enfrentando todas as formas de violência.
A inoperância do IBAMA e da Polícia Federal em coibir e penalizar a extração ilegal de madeira e a produção ilegal de carvão é um incentivo à continuidade das ameaças e das mortes. O assassinato de José Cláudio e Maria em Nova Ipixuna no último dia 24 de maio é um exemplo disso.
A impunidade promovida pela segurança pública e pelo poder judiciário constitui elemento incentivador para a continuidade dos crimes. As ameaças, geralmente, não são investigadas, a investigação e identificação dos autores dos crimes contra os trabalhadores sempre ficam pela metade e a conclusão dos processos criminais e consequente condenação dos responsáveis pelos crimes dificilmente acontece. Os processos se arrastam por 5, 10 e até 20 anos e muitos deles acabam prescrevendo.
Frente à situação exposta, reivindicamos das autoridades:
1 – Maior agilidade do INCRA nos processos de arrecadação de terras públicas e desapropriação de latifúndios improdutivos para que os conflitos sejam mais rapidamente solucionados;
2 – A investigação de todas as ameaças registradas nas Delegacias de Polícia por parte de trabalhadores e lideranças ameaçadas;
3 – Investigação por parte das corregedorias de polícia e da Comissão de Combate à Violência no Campo, das ilegalidades e arbitrariedades cometidas por policias civis e militares nos acampamentos e assentamentos;
4 – Fiscalização por parte do IBAMA da extração ilegal de madeira, desmatamentos ilegais e produção ilegal de carvão nas áreas ocupadas e nos assentamentos e investigação da Polícia Federal e Ministério Público Federal dos crimes ambientais e agrários cometidos por madeireiros e fazendeiros;
5 – Fortalecimento do Programa de Defensores de Direitos Humanos, para que este tenha condições de monitorar a situação dos ameaçados, acompanhar a apuração das ameaças e garantir seguranças para as pessoas em situação de risco;
6 – Implantação de um posto temporário da Força Nacional no Projeto de Assentamento Agro-extrativista em Nova Ipixuna, considerando a ofensiva de madeireiros, grileiros e produtores de carvão ilegal e a situação de ameaças aos familiares de José Cláudio e Maria, especialmente, Laiza Sampaio;
7 – Prorrogação da Proteção feita pela Força Nacional às lideranças e trabalhadores dos ameaçados.
Marabá,   dezembro de 2011.
Trabalhadores e lideranças ameaçadas de morte nas regiões sul e sudeste do Pará
Fonte: http://www.cptnacional.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=914

18 de novembro de 2011

Declaração sobre a morte de Alfonso Cano

Declaração sobre a morte de Alfonso Cano

imagem
Crédito: PCI
Partido Comunista da Irlanda

A morte em ação de Alfonso Cano constitui um duro golpe às aspirações do povo colombiano à justiça social e ao desenvolvimento pacífico que, há muitos anos, segue sendo frustrado pelo governo colombiano e seu patrão, o imperialismo norte-americano.

Há mais de sessenta anos, a Colômbia sofre repressão violenta por parte do Estado e das forças paramilitares. Muitas vezes se buscou um caminho pacífico, só para descobrir que a oligarquia colombiana e o imperialismo norte-americano temem a paz e que os lucros provenientes da guerra acabem.

Para cada ameaça de um acordo pacífico sempre existe uma resposta militar. Políticos civis e outras personalidades públicas envolvidas na busca da paz também enfrentam a repressão do Estado e as ameaças dos esquadrões paramilitares da morte.

A massiva operação militar com o fim de matar Alfonso Cano, usando a última tecnologia dos Estados Unidos, demonstra, mais uma vez, a brutalidade do regime de Santos e o vazio de suas palavras.

Ao mesmo tempo, as forças do Estado e os paramilitares seguem com a repressão sangrenta contra a luta pacífica dos povos indígenas, dos (as) camponeses (as) que expulsam de suas terras, dos (as) trabalhadores (as) organizados (as) em sindicatos, dos (as) estudantes (as).

O Partido Comunista da Irlanda se solidariza e se compromete com o povo colombiano e com sua luta por um caminho pacífico, justiça social, libertação nacional e socialismo.

Partido Comunista da Irlanda

Tradução: Maria Fernanda M. Scelza (PCB)

20 de agosto de 2011

31 de julho de 2011

Comunicado: Despejo do Drummond - Não há nada poético nisso... - BRIGADAS POPULARES

Amanhã, segunda-feira, dia 1º de agosto, a Polícia Militar de Minas Gerais dará início ao despejo da comunidade "Carlos Drummond", em Itabira-MG (há 110 km de BH), onde vivem cerca de 300 famílias desde o ano 2000.


Foto do corredor do abrigo improvisado pela Prefeitura 
Apesar da brava luta da comunidade (acampamento montado na porta da Prefeitura de Itabira há mais de 2 meses, várias mobilizações de rua, audiências públicas, greve de fome, etc) não foi possível impedir a determinação das autoridades itabiranas em realizar o despejo. Prefeito, Juiz, Promotores de Justiça, Polícia Militar, Vereadores e proprietários: todos unidos para efetivar a remoção das famílias do Drummond.



 Foto de cima do abrigo improvisado pela Prefeitura de Itabira
A partir de amanhã, irão demolir 296 casas para favorecer os herdeiros da família Rosa, pessoas ricas que reinvindicam a área sem jamais ter dado função social à propriedade. São mais de 8 milhões de reais de dívida de IPTU!

A situação na comunidade é desoladora... Tememos por ações de desespero... Casas já estão sendo destruídas pelos próprios moradores. A Polícia circula a comunidade o tempo todo com dezenas de viaturas, impondo o medo e o terror. A Prefeitura improvisou um abrigo que mais parece um campo de refugiados e, mesmo assim, não há vagas nem para metade dos moradores. O Judiciário negou todos os pedidos e recursos formulados pelos advogados populares que atuam na defesa do Drummond.



O Governador do Estado se omitiu diante da situação, mesmo tendo recebido ofícios da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Comissões de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa e da OAB, rogando pela suspensão da reintegração de posse. Nada disso foi suficiente para sensibilizar o mau Governo que trata conflito social como caso de polícia, com repressão e choque de gestão.


De todo sacrifício, restou a certeza de que a comunidade "Drummond" se inscreveu na história de Minas Gerais como mais uma comunidade de resistência! Outras comunidades irão carregar seu nome e Itabira jamais será a mesma... Dessa luta brotarão muitos frutos, pois consciências foram despertadas. Seguiremos em luta...

Força Drummond! Lutar Sempre, Desistir Jamais!




Ocupação Carlos Drummond, PRESENTE!


Itabira-MG, 31 de julho de 2011, véspera do despejo.


- Frente pela Reforma Urbana -
BRIGADAS POPULARES





14 de setembro de 2009

FATOR PREVIDENCIÁRIO: ACORDO DAS CENTRAIS COM O GOVERNO NÃO PASSA DE UM SIMULACRO - Por: Renato Nucci Junior [*]


Em todos os países onde se aplicaram as políticas neoliberais, a previdência social foi um dos alvos preferidos de ataque. Como o programa neoliberal aponta para um desmonte dos serviços públicos e dos direitos dos trabalhadores através de um conjunto de reformas de caráter regressivo, a justificativa usada para atacar a previdência foi a de acusá-la de ser causadora de um grave pecado aos olhos dos neoliberais: o de alimentar o déficit público. Reformas de caráter regressivo foram empreendidas no sentido de retirar direitos e tornar mais difícil o acesso aos benefícios previdenciários, entre eles a aposentadoria.

No Brasil não foi diferente. A partir do governo Collor, mas especialmente no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso e mesmo no governo Lula, a previdência pública brasileira sofreu drásticas alterações e mudanças de caráter regressivo. Dentre estas, duas se destacam. A primeira é a desvinculação do reajuste das aposentadorias e pensões em relação ao índice aplicado ao salário mínimo, diminuindo o valor dos benefícios pagos para quem ganha mais de um salário mínimo. A outra é o fator previdenciário, fórmula utilizada pela Previdência Social para calcular o valor da aposentadoria, cuja regra atual estabelece que um trabalhador precisa ter 35 anos de contribuição e 63 anos e 4 meses de idade para se aposentar com 100% do benefício. Para as mulheres as regras exigem 30 anos de contribuição e 58 anos e 4 meses de idade.

O resultado dessas mudanças tem causado, por um lado, uma diminuição no poder aquisitivo das aposentadorias e pensões e, por outro, uma dificuldade para os trabalhadores se aposentarem recebendo 100% do benefício. Os que optam por se aposentar fora da regra do fator previdenciário, pagam um "pedágio" que reduz o valor do benefício. A pressão de setores do movimento sindical e das associações de aposentados e pensionistas, levou alguns congressistas a apresentarem propostas no sentido de corrigir essas regras. As mais importantes são o PL 3.299/08 que põem fim ao fator previdenciário e a emenda ao PL 1/07 que garante às aposentadorias o mesmo índice de reajuste aplicado ao salário mínimo. Ambas são de autoria do senador Paulo Paim (PT/RS).

O governo Lula, percebendo que a pressão das organizações sindicais e de aposentados poderia levar a uma aprovação de ambos os projetos na Câmara dos Deputados, pois já tinham sido aprovados no Senado, se movimentou no sentido de esvaziá-la. Através do Deputado Pepe Vargas (PT/RS), relator do PL 3.299/08 que acaba com o fator previdenciário, convocou as centrais sindicais e associações de aposentados para uma reunião e fechou com algumas delas (CUT, Força Sindical, UGT e CGTB), um protocolo de intenções que aponta para uma flexibilização do fator previdenciário através da adoção de um novo fator, o chamado "85/95", bem como define novos critérios de reajustes para as aposentadorias. A "única" condição imposta pelo governo Lula para selar o acordo é o de exigir da parte das centrais o fim das pressões sobre o Congresso visando a aprovação dos dois projetos.

As duas principais centrais partícipes do acordo, CUT e Força Sindical, divulgaram em suas páginas eletrônicas notas alardeando suas vantagens e benefícios para os trabalhadores e aposentados. A CUT, através da nota "Aumento e mudanças nas aposentadorias", chega a afirmar que a proposta negociada por ela e as demais centrais com o governo "melhora e muito a situação atual". A verdade, porém, é que as novas regras pouco mudam a situação dos trabalhadores e aposentados. No caso da substituição do fator previdenciário pelo fator "85/95", ele não trás qualquer mudança significativa. O documento acima da CUT apresenta uma simulação irreal para os padrões brasileiros, ao sugerir que com a nova regra um trabalhador, se atingir o fator 95, somando o tempo de contribuição com a idade poderia se aposentar com 100% do benefício. No caso das trabalhadoras a soma deveria dar 85 para ter direito ao benefício integral. A simulação é irreal, pois a situação do mercado de trabalho brasileiro, marcado pela grande rotatividade e informalidade, torna impossível um trabalhador combinar idade com um longo tempo de contribuição ininterrupto à Previdência.

No caso do reajuste das aposentadorias acima do salário mínimo, o acordo propõe um aumento para 2010 e 2011 que leva em conta a inflação medida pelo INPC do IBGE e metade do crescimento do PIB dos dois anos anteriores. Essa forma de cálculo para o reajuste dos benefícios previdenciários não atende às reivindicações dos trabalhadores, pois mantém sua desvinculação em relação ao salário mínimo. De acordo com a nova regra, uma simulação feita no documento da CUT ao qual já nos referimos, aponta para 2010 um aumento de 6,65% nas aposentadorias, índice inferior ao reajuste do salário mínimo previsto para o próximo ano, de cerca de 9%. Enfim, mantém-se a política de rebaixamento dos valores das aposentadorias e pensões acima de um salário mínimo. Enquanto este, de 1995 a 2008, sofreu reajuste da ordem de 104,20%, os benefícios para quem ganha acima do mínimo ficaram em módicos 20%. É clara a intenção do governo Lula, através de um acordão com as cúpulas das centrais, em não alterar o rumo neoliberal dado à previdência social. Com a desvinculação do reajuste dos benefícios e pensões do salário mínimo, se pretende a médio e longo prazo reduzir os valores pagos aproximando-os o máximo possível do salário mínimo. E a direção da Central Única dos Trabalhadores ainda tem a cara de pau de afirmar que o acordo "melhora e muito a situação atual".

Um aspecto a ser considerado no acordo é o papel jogado pelas duas principais centrais sindicais brasileiras: CUT e Força Sindical. Ante a possibilidade da Câmara dos Deputados dar seu voto favorável aos projetos, por pressão do movimento sindical e das associações de aposentados, o que inevitavelmente levaria o governo Lula a vetá-los, expondo-o a um profundo desgaste frente a uma medida ansiada pelos trabalhadores, anteciparam-se aos fatos. Negociaram com o deputado Pepe Vargas (PT/RS) mudanças em seu relatório e finalizaram com uma proposta que não atende aos interesses dos trabalhadores na ativa e aposentados. Mas além dessas centrais agirem no sentido de mais uma vez blindarem o governo Lula, as novas regras por elas negociadas são uma admissão implícita do rumo neoliberal dado à Previdência Social no Brasil, pois aceitam sem qualquer questionamento o discurso falacioso sobre o déficit das contas da previdência pública.

Contrários aos rumos neoliberais dados à Previdência Social, o movimento sindical classista, combativo e não-governista aponta um caminho diferente. Este busca reformular o papel da Previdência Social no sentido de ampliar as garantias e conquistas dos trabalhadores. Nesse sentido, é preciso defender o fim do fator previdenciário e a adoção de um critério para aposentadoria favorável aos interesses dos trabalhadores, cuja vida laboral se inicia muito cedo. Do mesmo modo, é preciso por fim à desvinculação do reajuste dos benefícios do salário mínimo, bem como às perdas sofridas pelas aposentadorias e pensões ao longo do tempo, com a adoção de uma política que mantenha seu poder aquisitivo. Tais mudanças são apenas o começo de outras que visam alterar radicalmente o perfil neoliberal atualmente dominante na condução da Previdência Social, no sentido de ampliar e não retirar direitos dos trabalhadores. Enfim, a Previdência Social precisa ser mudada de fato e não através de simulacros que deixam as coisas como estão.

Campinas, setembro de 2009

[*]Militante e dirigente do PCB-São Paulo

28 de agosto de 2009

Sensacional intervenção de um menino no concerto Antigolpista (video)




27 Agosto 2009 Haga un comentario

Oscar David Montesinos, de 10 anos tornou-se um símbolo da resistência contra o golpe em Honduras, após a sua intervenção no concerto "Vozes contra o golpe, que teve lugar no domingo, 24 de agosto em Tegucigalpa .

"Mas duro com os rebeldes, Micheletti você vai, você está indo!", Disse Oscar David menos durante o concerto de vozes contra o golpe de Estado, ao alterar os instrumentos no palco.

O show foi assistido por cerca de 8 000 pessoas que se reuniram em Tegucigalpa para receber o apoio de artistas e solidariedade na luta de resistência. A criança é apenas 10 anos.

24 de agosto de 2009

SOLIDARIEDADE AO MST

O PCB hipoteca sua solidariedade fraterna e militante ao MST e a todos os seus militantes e denuncia a repressão e criminalização dos movimentos sociais



NOTA PÚBLICA SOBRE O ASSASSINATO DE ELTON BRUM PELA BRIGADA MILITAR DO RIO GRANDE DO SUL

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra vem a público manifestar seu pesar pela perda do companheiro Elton Brum, manifestar sua solidariedade à família e para:

1. Denunciar mais uma ação truculenta e violenta da Brigada Militar do Rio Grande do Sul que resultou no assassinato do agricultor Elton Brum, 44 anos, pai de dois filhos, natural de Canguçu, durante o despejo da ocupação da Fazenda Southall em São Gabriel. As informações sobre o despejo apontam que Brum foi assassinado quando a situação já encontrava-se controlada e sem resistência. Há indícios de que tenha sido assassinado pelas costas.

2. Denunciar que além da morte do trabalhador sem terra, a ação resultou ainda em dezenas de feridos, incluindo mulheres e crianças, com ferimentos de estilhaços, espadas e mordidas de cães.

3. Denunciamos a Governadora Yeda Crusius, hierarquicamente comandante da Brigada Militar, responsável por uma política de criminalização dos movimentos sociais e de violência contra os trabalhadores urbanos e rurais. O uso de armas de fogo no tratamento dos movimentos sociais revela que a violência é parte da política deste Estado. A criminalização não é uma exceção, mas regra e necessidade de um governo, impopular e a serviço de interesses obscuros, para manter-se no poder pela força.

4. Denunciamos o Coronel Lauro Binsfield, Comandante da Brigada Militar, cujo histórico inclui outras ações de descontrole, truculência e violência contra os trabalhadores, como no 8 de março de 2008, quando repetiu os mesmos métodos contra as mulheres da Via Campesina.

5. Denunciamos o Poder Judiciário que impediu a desapropriação e a emissão de posse da Fazenda Antoniasi, onde Elton Brum seria assentado. Sua vida teria sido poupada se o Poder Judiciário estivesse a serviço da Constituição Federal e não de interesses oligárquicos locais.

6. Denunciamos o Ministério Público Estadual de São Gabriel que se omitiu quando as famílias assentadas exigiam a liberação de recursos já disponíveis para a construção da escola de 350 famílias, que agora perderão o ano letivo, e para a saúde, que já custou a vida de três crianças. O mesmo MPE se omitiu no momento da ação, diante da violência a qual foi testemunha no local. E agora vem público elogiar ação da Brigada Militar como profissional.

7. Relembrar à sociedade brasileira que os movimentos sociais do campo tem denunciado há mais de um ano a política de criminalização do Governo Yeda Crusius à Comissão de Direitos Humanos do Senado, à Secretaria Especial de Direitos Humanos, à Ouvidoria Agrária e à Organização dos Estados Americanos. A omissão das autoridades e o desrespeito da Governadora à qualquer instituição e a democracia resultaram hoje em uma vítima fatal.

8. Reafirmar que seguiremos exigindo o assentamento de todas as famílias acampadas no Rio Grande do Sul e as condições de infra-estrutura para a implantação dos assentamentos de São Gabriel.

Exigimos Justiça e Punição aos Culpados!

Por nossos mortos, nem um minuto de silêncio. Toda uma vida de luta!

Reforma Agrária, por justiça social e soberania popular!

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

21 de agosto de 2009

O momento político na Bolívia: CONFIANÇA NA VITÓRIA - Por: Marcos Domich


O momento político se caracteriza pela decomposição e fragmentação da direita, internamente pela corrosão e a acirrada disputa de frações que se cobram mutuamente contas pelo fracasso estrondoso dos planos conspirativos que, em sua escalada, perseguiam com o objetivo a divisão da Bolívia. A direita também não se põe em acordo em matéria de candidatura. Isto permite avançar com maior confiança rumo às eleições gerais de dezembro.

Um fato que ocupou alguma atenção e se acompanhou de escaramuças no parlamento foi a aprovação da lei transitória de eleições que regerá as de dezembro. A direita se empenha em pôr um e outro obstáculo ao processo eleitoral. Com seu falatório insidioso, semeia dúvidas de todo tipo e nada lhe satisfaz. Entretanto, prepara todas as suas baterias, sobretudo midiáticas, para falar de "fraude", segura de que outra vez perderá nas urnas. Ao final, com a estréia de um registo biométrico, o pais se encaminha para as eleições gerais e em março para uma nova Constituição Política de Estado. Este Estado é definitivo, como uma categoria completa: "Estado Unitário Social de Direito Plurinacional Comunitário (…) descentralizado e com autonomias".

A dificuldade reside em montar o quebra-cabeças que significa um Estado simultaneamente unitário e com três regimes autônomos (estaduais, regionais e indígenas-nacionais). Na Bolívia não há experiência sobre isto e será necessário avançar cautelosamente. Inclusive será preciso usar a via da tentativa-erro. Mas noutras matérias, como direitos sociais, exploração e cuidados dos recursos naturais, saúde, educação, política exterior, etc., a nova Constituição significa um avanço importante.

A direita reacionária, para alcançar seus objetivos contra-revolucionários, usará a violência política e inclusive o terrorismo. Derrotada em agosto-setembro de 2008 - logo da tomada e destruição de instuições oficiais nas capitais da chamada "meia lua", as ações de intimidação e agressão a indígenas, o massacres de Porvenir (Pando) - parece que março e abril de 2009 eram os meses para voltar às eleições.

Quando acorre o atentado à casa do Cardeal Terrazas e a menos de 48 horas, em 16 de abril, se efetua a espetacular desarticulação de um comando terrorista dirigido por Eduardo Rózsa Flores, um inefável personagem difícil de classificar em outro espaço que não o de um, chamariam os psiquiatras, "limítrofe" ou, mais vulgarmente, na velha psicopatologia, um psicopata metido em trajes terrorista e há quase 20 anos a serviço das causas mais reprováveis.

Os fatos têm dado uma tácita confirmação a tudo o que o Partido havia advertido antecipadamente. A conspiração seguiria pautas bem traçadas: primeiro, derrubar Evo Morales com golpe de estado; segundo, magnicídio; mas acima de tudo, terceiro, separatismo não só como último recurso, senão como propósito final. Não são pautas sem nexo; podem ser intercambiáveis de acordo com condições do momento. A primeira variante foi ensaiada sem êxito, mas com um grande transtorno público no que se chama a "meia lua". Agosto e setembro de 2008, mostrou a figura completa do separatismo: furor fascista e racismo exagerado que culminou com o massacre de camponeses em Porvenir, Pando. Não foi o clássico quartelaço, senão o que se denominou com acerto "golpe cívico-prefeitural". Se envolveram comitês cívicos, normalmente cooptados pelas classes dominantes e sobre tudo as prefeituras a cargo da oposição mais radical.

A possibilidade da magnicídio sempre esteve presente e se não fosse o bom trabalho da inteligência nicaraguense poderia ter se concretizado em San Salvador para onde deviam viajar no mesmo avião os presidentes Chávez e Morales, convidados à posse do presidente Funes.

O separatismo das classes dominantes cruzenhas vem de longa data. Como regra, foi ativado nos momentos de crise política e sobretudo durante governos progressistas. O separatismo, quase nos mesmo termos atuais se deu há na época dos anos 30. O livro escrito por Enrique de Gandía, com o título de "Historia de Santa Cruz de la Sierra: Una Nueva República en Sud América", já nas primeiras linhas resume o separatismo. Na operação do comando Rózsa as tendências separatistas explicitaram-se tanto que todos os juramentos de fidelidade à república da Bolívia, por parte dos conspiradores, haviam perdido qualquer credibilidade.

O planos separatistas não se limitam a nosso pais. Num modelo que se repete particularmente na Venezuela, com Zulia e no Equador, com Guayaquil. As ligações internacionais que se revelaram falam de um plano de alcance continental. Sua meta é acabar com o giro à esquerda. Malograr os governos de centro-esquerda e esquerda, particularmente aqueles que se "atrevem" a ferir interesses de suas oligarquias, das transnacionais, escapam à ortodoxia neoliberal ou empreendem, ao fim, um política interna e externa oposta a do império. Os fatos que se conhecem na Venezuela, Equador, Nicarágua ou na Argentina, confirmam que há um matriz que aplica, com ligeiras variações, o manual geral.

A revelação do ligações de Rózsa com os fascistas das Balcãs: ústachas da Croácia; a Szekely Legio (paramilitares) da Hungria, o grupo separatista húngaro Lelküsmeret 88 (Consciência 88), desempoeira velhos antecedentes e vínculos. Em particular, para o caso boliviano é importantíssimo constatar os vínculos da direita mais fascistizada do oriente com os ústachas. Estes vão desde Ante Pavelic aos envolvidos no novo exército croata, como é o caso de Mario Tadic Astorga. Pavelic foi o Poglavnik (caudilho) do Estado Croata Independiente (ECI) e do seu partido, o "Movimento Revolucionário Ústacha (Insurgente) Croata". A razão de sua existência foi a secessão da Croácia e o ECI foi um desprendimento do reino da Yuguslávia sob a ocupação nazi. Há pois uma sorte de estigma congênito dos atuais separatistas de origem balçâmica com os de antes da II G.M.

Uma época o separatismo crioulo foi, de alguma maneira, estimulado e assessorado pelos ústachas de Pavelic, quando este se refugiou na Argentina, durante o governo de Perón de quem foi Conselheiro de Segurança. A primeira ingerência de Pavelic, na Bolívia, foi através do M.N.R. E seu chefe histórico, Víctor Paz Estenssoro, relatada em detalhes por Hugo Roberts. O ascenso de Paz ao poder e a imposição popular de um programa avançado, na Revolução de Abril, cortou abruptamente estas aproximações.

A seguinte ingerência ocorreu em torno de 1957. Desta vez Pavelic, com maior entusiasmo, apoiou a Falange Socialista Boliviana (FSB). Walter Vásquez Michel é o homem que viveu estes episódios. Únzaga de la Vega, entusiasmado com a ajuda dos ústachas ordenou, sem embargo, a retirada da FSB da conspiração de 1957 por um profundo desacordo com Mario Gutiérrez. Este chegou a acordos para receber cooperação militar que implicava presença direita de forças brasileiras.

As atuais vinculações vão, seguindo a velha linha, desde a Croácia passando por Kosovo, enlaçando o embaixador Philip Goldberg e todas as ONGs e fundações e fachadas da CIA, DNE, HRF e, estendendo-se finalmente aos carapintadas argentinos, aos paramilitares colombianos e obviamente às organizações e personagens contra-revolucionárias da Venezuela (UnoAmérica).

Este conjunto estava financiado pelos elementos ligados ao empresariado e latifundiários cruzenhos, gastando dinheiro de mãos cheias. É óbvio que organismos ou agências internacionais têm sustentado generosamente os conspiradores e é provável que aportaram a parte principal. Não se preocuparam muito da compartimentação. Deixaram tantas provas que até a polícia mais inútil os havia localizado (hotéis, correios eletrônicos, recrutamento aberto de mercenários, etc). Compraram e íam comprar muito armamento. Pensaram até em mísseis. Não estava de nenhuma forma ausente a idéia de ir para a estruturação de uma formação paramilitar que serviria de núcleo a um futuro "exército separatista".

Um fato que não se pode omitir nesta análise é que na trama conspirativa apareceram envolvidos militares. No começo, as referências incluíam alguns generais da reserva. Mas não demorou para se descobrir que Rózsa e seus patrões faziam extraordinários esforços para estabelecer contatos com militares em serviço ativo e também com policiais. A direção principal dos esforços se dirigia a tirá-los da linha de comando normal, a desativá-los em situações de emergência e também comprometê-los na constituição de forças militares e policiais "próprias", sob o denominativo de autonômicas. Neste terreno movediço, as investigações continuam e nos deparamos com muito mais detalhes de sua estrutura. Vários dos mais ativos participantes na conspiração fugiram para o estrangeiro e muitos deles para os Estados Unidos, o que revela claramente suas fontes políticas, sua concepção e sobretudo seu sustento propagandístico, operacional e material.

Na dissecação dos elementos conspirativos não pode deixar de haver uma referência ao papel deletério que jogaram os meios de comunicação. Claro que sempre a direita tem um grande domínio dos meios de comunicação. Os últimos estudos especializados indicam que a parcialidade e manipulação, a concentração dos meios de comunicação é esmagadoramente favorável à direita, na busca de objetivos destinados a confundir e orientar em seu favor uma opinião pública desarmada, indefesa.

Apesar de todas as dificuldades, da inexperiência do governo - de seus muitos quadros novatos e sem informação, além dos oportunistas e infiltrados - foi infligido uma enorme derrota à direita. Virtualmente está encurralada, ideologicamente empobrecida e politicamente sem discurso. Sua proposta, mesmo em face das eleições, quando habitualmente agudiza sua oferta demagógica, reflete não só estar desorientada historicamente , senão presa num sentimento de que se aproxima uma nova derrota na arena da confrontação democrática. Esse sentimento derrotista é um mau conselheiro porque pode sugerir o retorno à ação violenta.

Apesar do acima exposto é obrigação da esquerda, das forças patrióticas, democráticas, anti-oligárquicas e anti-imperialistas unificarem suas forças em torno de objetivos programáticos, na busca do maior êxito possível nas eleições de dezembro e ao mesmo tempo que se execute uma sólida campanha eleitoral, que garanta o voto próprio e amplie a outros setores, particularmente da juventude e da intelectualidade.

Estamos frente a uma excepcional conjuntura histórica. Somente com o processo de mudanças se pode alcançar a conversão das forças motrizes revolucionárias para a construção de uma sociedade democrática, com justiça social, soberania nas relações internacionais e firmemente orientada para o futuro socialista.

(*) Marcos Domich é Secretário de Relações Internacionais do PCBoliviano

Traduzido por Dario da Silva.

19 de agosto de 2009

As pedras de Tegucigalpa - Honduras: a revolução nacional-libertadora tardia - Por Ivan Pinheiro(*)



Os dias que passei em Honduras, na fraterna companhia de Amauri Soares e Marcelo Buzetto, serviram para consolidar as impressões que, desde o Brasil, expusera no artigo “Contra a manobra do pacto de elites”.

Definitivamente, o golpe não só contou como ainda conta com o apoio material e político do imperialismo estadunidense, que foi obrigado a dissimular sua participação em razão dos erros cometidos na execução do golpe, sobretudo o fato de o mundo ter sido surpreendido com a prisão e a retirada à força de Manuel Zelaya do país, sem uma satanização prévia.

O golpe em Honduras é parte do plano imperialista para tentar frear a ALBA e os processos de mudanças sociais na América Latina. Honduras fica entre a Nicarágua e El Salvador, vizinhos hoje governados por antigos movimentos guerrilheiros de libertação nacional, agora em versão moderada, que se desmilitarizaram nos anos 90: a Frente Sandinista e a Frente Farabundo Marti.

Além disso, o país possui grandes reservas não exploradas de petróleo, minério abundante e outros recursos naturais, além da base de Soto Cano, a mais importante e estratégica para os ianques na América Central. Zelaya é o detalhe do golpe, que é muito mais contra a ALBA, contra Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e os dois vizinhos limítrofes.
Ao que tudo indica, está a ponto de se consumar o plano B que o império adotou a partir da repulsa mundial no início do golpe: a sua legitimação e, em seguida, legalização.

A cada dia que passa fica mais difícil a volta de Zelaya ao governo, ainda que apenas para presidir as eleições gerais de novembro com as mãos atadas, sem ALBA, sem Constituinte, nem mesmo o direito de se candidatar ao mais simples cargo eletivo.

Um dos mais importantes lances deste plano B se deu no dia 12 de agosto, quando os membros da Corte Suprema e do Tribunal Superior Eleitoral anunciaram oficialmente a manutenção das eleições gerais para o dia 29 de novembro próximo. Logo em seguida, simulando surpresa, o presidente golpista reconhece a decisão do judiciário, como se estivesse submetendo-se a um poder autônomo, ao “império da lei e da justiça, ao estado democrático de direito”.

Tudo isso em cadeia nacional de televisão. No horário nobre, como convém a uma boa novela. Em seguida, ainda ao vivo, Honduras ganha de quatro a zero da rival Costa Rica, pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

A sinalização é óbvia: até a posse do novo Presidente, em janeiro, Micheletti preside o país, o TSE realiza as eleições, a Corte Suprema as preside, as Forças

Armadas as garantem e os observadores internacionais escolhidos a dedo as legitimam. Tudo para passar um ar de legalidade. Se assim for, Zelaya não volta nem para passar a faixa ao futuro Presidente.

No mesmo dia, em entrevista coletiva após uma cúpula do Nafta, entre sorridentes presidentes do Canadá e do México, Obama fez uma jogada de mestre, abandonando Zelaya à própria sorte. Aproveitando-se das ilusões alimentadas por este, de voltar ao poder por iniciativa dos EUA, Obama lavou as mãos, apontando a incoerência das pressões para que intervenha em Honduras por parte dos que pedem o fim da intervenção dos EUA nos países da América Latina.

No mesmo evento trilateral, Felipe Calderón – eleito presidente numa monumental fraude contra López Obrador - anuncia o reconhecimento do México ao governo Micheletti, seguindo o exemplo pioneiro do Canadá, cujas mineradoras transnacionais com sede no país ocupam quase um terço do território hondurenho. Para os que ainda não se deram conta de que o capitalismo brasileiro é parte do sistema imperialista, a mais poderosa dessas mineradoras tidas como canadenses (a INCO) foi recentemente comprada pela “nossa” Vale do Rio Doce.

Tudo indica que o núcleo duro da oligarquia e da cúpula militar que assumiu o governo em Honduras há mais de cinqüenta dias - agora falando grosso pelo decurso de prazo no poder - está com força para impor seu próprio projeto de pacto de elites para superar a crise e legitimar o golpe. Não só rechaçou as propostas conciliadoras feitas pelo Presidente da Costa Rica, como, em 10 de agosto, não recebeu uma delegação de chanceleres latino-americanos que, em nome da OEA, iriam a Tegucigalpa tentar mediar a crise. E olha que eram representantes apenas de governos moderados ou pró-imperialistas: Argentina, Canadá, Costa Rica, Jamaica, México e República Dominicana. Os golpistas só admitiram receber a Comissão da OEA no próximo 24 de agosto, ganhando mais duas semanas sem “mediações”.

Os golpistas conseguiram unificar todas as instituições e personalidades das classes dominantes: as cúpulas das Forças Armadas, da Igreja Católica, das entidades empresariais, do Judiciário, a grande maioria do Congresso Nacional, incluindo parlamentares do próprio partido de Zelaya, aliás o mesmo de Micheletti, o centenário Partido Liberal, uma espécie de PMDB hondurenho.

Esta unificação se expressa na mídia. Estão com o golpe todos os quatro jornais diários e, com a intervenção militar no canal 36 e a repressão a jornalistas independentes, todas as emissoras de televisão. Apenas uma estação de rádio ainda resistia, mas quando escrevo, deve estar fora do ar.

Creio que presenciamos em Honduras os momentos cruciais para o desfecho desta batalha, um capítulo da luta de classes que se expressa no país. Nos dias 11 e 12 de agosto, não por coincidência, chegaram ao auge a mobilização popular e a repressão. Sinto expressar a impressão de que os golpistas saíram mais fortalecidos dessas dramáticas 48 horas.

No dia 11, os protestos em Tegucigalpa, São Pedro de Sula e outras localidades envolveram quase cem mil manifestantes. Na capital, a marcha tentou ir até a Casa Presidencial, sede do governo federal, que fica num bairro de elite afastado do centro, sendo reprimida por um aparato de milhares de soldados da Polícia Nacional e do Exército. Na dispersão, como expressão da revolta popular, as pedras das mal calçadas ruas de Tegucigalpa se transformaram em armas contra símbolos do capital: as vidraças de bancos e redes multinacionais de comida rápida.

Na noite do dia 11, o governo retoma o toque de recolher. Na madrugada, veículos sem placa percorrem a capital com atiradores em trajes civis metralhando os dois principais locais de reunião da direção da Frente Nacional Contra o Golpe de Estado: as sedes do Sindicato dos Trabalhadores de Bebidas e da Via Campesina.

Na manhã do dia 12, quando nova manifestação pacífica se dirigia ao centro da cidade, para um protesto diante do Congresso Nacional, a repressão já havia montado um aparato impressionante, destinado a evacuar todo o centro da cidade com violência contra quem estivesse nas ruas, fossem ou não manifestantes.

Sou testemunha ocular de que o pretexto para justificar a violenta repressão foi montado por agentes provocadores que, numa ação combinada, simularam uma agressão e logo em seguida a proteção do Vice-Presidente do Congresso Nacional, um dos principais articuladores do golpe. Exatamente na hora em que passavam os manifestantes, ele saíra sozinho à porta do Parlamento em plena sessão legislativa. Estas cenas, algumas horas depois, foram exibidas à exaustão em todas as emissoras de televisão hondurenhas e possivelmente no mundo todo.

Na dispersão desordenada, grande parte dos manifestantes se dirigiu ao quartel general da resistência desde o início das mobilizações, o até então inviolável campus da Universidade Pedagógica, onde se realizam as Assembléias da resistência e se alojavam os militantes que moram fora da capital. Mas o campus já estava tomado pelas tropas, que sequer permitiram aos alojados retirarem seus pertences pessoais, cuja apreensão ainda serviu para manipular a “descoberta” de coquetéis molotov.

É impressionante a combatividade, a coragem e a determinação do povo hondurenho. É digna de registro a unidade das forças que impulsionam até aqui a resistência, organizadas na Frente Nacional Contra o Golpe de Estado, apesar das debilidades políticas, materiais e organizativas dos movimentos sociais e grupos de esquerda. Não fossem estas debilidades, a história poderia ser outra. Nos momentos seguintes ao golpe havia um conjunto de fatores que poderiam configurar uma situação pré-revolucionária.

Os sindicatos ainda não têm a força desejável, sobretudo na iniciativa privada, onde a greve geral não vicejou. Os agrupamentos revolucionários só agora estão se reorganizando, recuperando-se da desarticulação das décadas de 80 e 90, em função da derrota da luta armada, da repressão e da crise na construção do socialismo. Para se ter uma idéia, dois partidos que se reivindicavam comunistas se dissolveram naquele período e só agora alguns comunistas estão refundando o Partido.

Mas as classes dominantes, para além do Estado, possuem uma arma decisiva numa batalha como esta: a mídia, sobretudo a televisão. É por este meio que os golpistas conseguiram calar, enquadrar e cooptar a grande maioria da pequena burguesia, restringindo a resistência aos setores proletários e parte minoritária das camadas médias.

Com muita competência, diuturnamente, todos os canais de televisão legitimam o golpe e satanizam a resistência. Jogam com o medo, mostrando cenas de violência nas ruas, em que as tropas só atacam para se defender dos “violentos” manifestantes, chamados de bárbaros e terroristas. Jogam com o risco de se perderem empregos e negócios, por conta da paralisação de parte importante da economia do país.

Jogam com o sentimento de autodeterminação, acusando a resistência de ser dirigida e financiada pela Venezuela e pela Nicarágua.

Todos os meios de comunicação se utilizam do mesmo padrão de manipulação. Os manifestantes são “vândalos, terroristas”; o golpe é uma “sucessão constitucional”. Não há qualquer debate na mídia eletrônica, em que haja espaço para o contraditório. Como aqui no Brasil, todos os “especialistas” chamados a comentar os fatos têm a mesma visão de mundo. A manipulação midiática não é apenas o que noticiam, mas também o que não noticiam. A solidariedade internacional não é conhecida pelo povo hondurenho. Zelaya tem sido satanizado como um meliante político, que queria rasgar a Constituição, a serviço de Hugo Chávez. Nesta fase de legitimação do golpe, o noticiário sobre Honduras vai sumindo na mídia mundial.

Confesso que foi impossível resistir à atração de vivenciar pessoalmente os confrontos do centro da cidade, ao lado dos manifestantes e do povo, para ajudar no que fosse possível. Confesso que foi difícil reprimir o impulso que as mãos suplicavam, quando as pedras me olhavam do chão.

A ofensiva da direita pode levar a um natural refluxo do movimento de massas, sobretudo face ao cansaço, à falta de resultados, ao isolamento social e, de uns tempos para cá, a uma certa desconfiança sobre a determinação de Zelaya. Ainda por cima, a mídia legitimou a repressão, o que dá ao governo golpista mãos livres para radicalizar mais nas próximas escaramuças.

Há muitos indícios de que o imperialismo já selou o destino de Zelaya: a possibilidade de uma volta ao país, “anistiado”, após a posse do novo Presidente. Não há qualquer sinal da saída de Micheletti antes disso, nem com a assunção de um tertius para disfarçar o golpe. Se um fato novo não ocorrer, Micheletti passa a faixa para o novo Presidente, em janeiro, certamente um cidadão “ilibado, acima das classes, de união nacional”, ou seja, da absoluta confiança do imperialismo e das classes dominantes locais.

Sinceramente, gostaria de trazer de Honduras avaliações diferentes.
Um exemplo deste plano é que, em 13 de agosto, partiu de Honduras para os EUA uma comissão de “notáveis” indicados pelo governo golpista, para explicar as razões do golpe ao Departamento de Estado, a convite deste. Lembram-se do compromisso de Obama de não receber delegações do governo golpista?

Os golpistas estão trocando os representantes diplomáticos hondurenhos no mundo todo, como a Cônsul Gioconda Perla, do Rio de Janeiro, que ficou fiel a Zelaya. Salvo os que aderiram ao golpe.

Preencheram todos os cargos federais. O governo funciona a pleno vapor. As estradas estão sendo desobstruídas, para escoar a circulação de bens e a exportação, reativando a economia. Os defensores de Zelaya na elite política se calaram, com raras exceções. O caso mais emblemático do oportunismo político é do Embaixador hondurenho no Brasil, que havia sido nomeado por Zelaya. Como já sentiu para onde os ventos sopram, simulou uma internação por problema cardíaco no dia da chegada de Zelaya em Brasília, quando este foi recebido pelo Presidente Lula.

Como se vê, vai de vento em popa a tática da legitimação do golpe, ajudada pelo quase fim do mandato de Zelaya e, agora, por uma agenda eleitoral que dominará a cena política hondurenha daqui a poucos dias. Para se ter idéia do processo eleitoral, haverá mais de 20.000 candidatos a cerca de 2.850 cargos (Presidente, Deputados, Prefeitos, Vereadores), inclusive do único Partido considerado de esquerda entre os cinco registrados, o social democrata UD (Unificación Democrática), que tem seis Deputados - nem todos participando publicamente da resistência - numa Câmara de pouco mais de cem.
A partir deste 31 de agosto, os partidos e os candidatos registrados já poderão divulgar suas campanhas em matérias pagas, inclusive na televisão. Isto mudará a pauta nacional.

Aliás, a participação ou não no processo eleitoral pode ser um fator de divisão da Frente contra o golpe, que reúne a Unificación Democrática e o Bloque Popular, em que se encontram as organizações sociais e políticas mais à esquerda. A UD já lançou publicamente um candidato a Presidente, enquanto o Bloque Popular defende a não participação nas eleições, com o argumento de não legitimar o golpe.

Enquanto isso, Zelaya, num comportamento pendular, abandonou seu posto em território nicaragüense, em Ocotal, na fronteira com seu país, de onde anunciara que iria comandar pessoalmente a resistência popular, exatamente nos dias 11 e 12 de agosto, para os quais estava convocada a jornada de luta. Nesses dias, Zelaya optou por um giro pela América do Sul, visitando o Brasil e o Chile, para sinalizar uma inflexão do eixo Chávez/Ortega para Lula/Bachelet.

Mas já ontem o presidente deposto havia voltado ao seu posto na fronteira, de onde divulgou ao povo hondurenho um comunicado conclamando à manutenção da luta de resistência contra o golpe e ao não reconhecimento do processo eleitoral convocado, nem dos seus resultados. E as manifestações continuam, ainda que com participação menor. Neste domingo, haverá um grande concerto musical contra o golpe.

Em verdade, mesmo assim, parece chegar ao fim um dos últimos capítulos da ilusão da revolução nacional-libertadora, que já há algumas décadas passou do prazo de validade.

Zelaya, eleito por um partido da ordem, representava o que ainda resta de setores da burguesia hondurenha, pequenos e médios empresários, que têm algum nível de contradição com o imperialismo. Sua aproximação com a ALBA e a Petrocaribe não tinha um sentido de transição ao socialismo, ainda que o difuso “socialismo do século XXI”. Tratava-se do interesse desses setores não monopolistas da burguesia hondurenha de fazer crescer o mercado interno e ter acesso ao mercado dos países da ALBA.

Para isso, precisavam nacionalizar algumas riquezas nacionais, participar de uma integração não imperialista para importar petróleo e outros insumos mais baratos e mitigar as injustiças para aumentar o poder de consumo popular, através de políticas compensatórias e aumento do salário mínimo.

A realidade está mostrando que estes setores residuais da burguesia não têm a mínima condição de disputar com os setores monopolistas.

Na fase imperialista do capitalismo, ainda mais em meio à sua crise, a hegemonia no Estado burguês pertence aos segmentos associados aos grandes monopólios. Quem manda em Honduras são os bancos, o agronegócio, os exportadores de matéria prima, e as indústrias maquiadoras voltadas, como no caso da Nike, para o mercado externo.

Mas em Honduras, nada será como antes, principalmente a esquerda e sua vanguarda. Amadurecem e formam-se nesta legendária luta milhares de militantes e quadros. O comando da Frente, em especial do Bloque Popular, já ajustou corretamente a linha política e a organização popular às necessidades desta nova fase da luta. A bandeira da convocação da Constituinte, livre e soberana, com ou sem Zelaya, é um dos eixos políticos principais. Em Assembléia neste domingo, a resistência resolveu priorizar a organização popular, a partir das bases.

A grande lição que os militantes hondurenhos aprenderam é que os proletários só podem contar com eles próprios. Para grande parte desta heróica vanguarda, acabaram-se as ilusões em alianças com a burguesia, nas possibilidades de humanização do capitalismo e de transição ao socialismo nos marcos da institucionalidade burguesa.

E a certeza de que não bastam as pedras de Tegucigalpa.

* Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB.
Rio, 19 de agosto de 2009