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19 de agosto de 2009

As pedras de Tegucigalpa - Honduras: a revolução nacional-libertadora tardia - Por Ivan Pinheiro(*)



Os dias que passei em Honduras, na fraterna companhia de Amauri Soares e Marcelo Buzetto, serviram para consolidar as impressões que, desde o Brasil, expusera no artigo “Contra a manobra do pacto de elites”.

Definitivamente, o golpe não só contou como ainda conta com o apoio material e político do imperialismo estadunidense, que foi obrigado a dissimular sua participação em razão dos erros cometidos na execução do golpe, sobretudo o fato de o mundo ter sido surpreendido com a prisão e a retirada à força de Manuel Zelaya do país, sem uma satanização prévia.

O golpe em Honduras é parte do plano imperialista para tentar frear a ALBA e os processos de mudanças sociais na América Latina. Honduras fica entre a Nicarágua e El Salvador, vizinhos hoje governados por antigos movimentos guerrilheiros de libertação nacional, agora em versão moderada, que se desmilitarizaram nos anos 90: a Frente Sandinista e a Frente Farabundo Marti.

Além disso, o país possui grandes reservas não exploradas de petróleo, minério abundante e outros recursos naturais, além da base de Soto Cano, a mais importante e estratégica para os ianques na América Central. Zelaya é o detalhe do golpe, que é muito mais contra a ALBA, contra Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e os dois vizinhos limítrofes.
Ao que tudo indica, está a ponto de se consumar o plano B que o império adotou a partir da repulsa mundial no início do golpe: a sua legitimação e, em seguida, legalização.

A cada dia que passa fica mais difícil a volta de Zelaya ao governo, ainda que apenas para presidir as eleições gerais de novembro com as mãos atadas, sem ALBA, sem Constituinte, nem mesmo o direito de se candidatar ao mais simples cargo eletivo.

Um dos mais importantes lances deste plano B se deu no dia 12 de agosto, quando os membros da Corte Suprema e do Tribunal Superior Eleitoral anunciaram oficialmente a manutenção das eleições gerais para o dia 29 de novembro próximo. Logo em seguida, simulando surpresa, o presidente golpista reconhece a decisão do judiciário, como se estivesse submetendo-se a um poder autônomo, ao “império da lei e da justiça, ao estado democrático de direito”.

Tudo isso em cadeia nacional de televisão. No horário nobre, como convém a uma boa novela. Em seguida, ainda ao vivo, Honduras ganha de quatro a zero da rival Costa Rica, pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

A sinalização é óbvia: até a posse do novo Presidente, em janeiro, Micheletti preside o país, o TSE realiza as eleições, a Corte Suprema as preside, as Forças

Armadas as garantem e os observadores internacionais escolhidos a dedo as legitimam. Tudo para passar um ar de legalidade. Se assim for, Zelaya não volta nem para passar a faixa ao futuro Presidente.

No mesmo dia, em entrevista coletiva após uma cúpula do Nafta, entre sorridentes presidentes do Canadá e do México, Obama fez uma jogada de mestre, abandonando Zelaya à própria sorte. Aproveitando-se das ilusões alimentadas por este, de voltar ao poder por iniciativa dos EUA, Obama lavou as mãos, apontando a incoerência das pressões para que intervenha em Honduras por parte dos que pedem o fim da intervenção dos EUA nos países da América Latina.

No mesmo evento trilateral, Felipe Calderón – eleito presidente numa monumental fraude contra López Obrador - anuncia o reconhecimento do México ao governo Micheletti, seguindo o exemplo pioneiro do Canadá, cujas mineradoras transnacionais com sede no país ocupam quase um terço do território hondurenho. Para os que ainda não se deram conta de que o capitalismo brasileiro é parte do sistema imperialista, a mais poderosa dessas mineradoras tidas como canadenses (a INCO) foi recentemente comprada pela “nossa” Vale do Rio Doce.

Tudo indica que o núcleo duro da oligarquia e da cúpula militar que assumiu o governo em Honduras há mais de cinqüenta dias - agora falando grosso pelo decurso de prazo no poder - está com força para impor seu próprio projeto de pacto de elites para superar a crise e legitimar o golpe. Não só rechaçou as propostas conciliadoras feitas pelo Presidente da Costa Rica, como, em 10 de agosto, não recebeu uma delegação de chanceleres latino-americanos que, em nome da OEA, iriam a Tegucigalpa tentar mediar a crise. E olha que eram representantes apenas de governos moderados ou pró-imperialistas: Argentina, Canadá, Costa Rica, Jamaica, México e República Dominicana. Os golpistas só admitiram receber a Comissão da OEA no próximo 24 de agosto, ganhando mais duas semanas sem “mediações”.

Os golpistas conseguiram unificar todas as instituições e personalidades das classes dominantes: as cúpulas das Forças Armadas, da Igreja Católica, das entidades empresariais, do Judiciário, a grande maioria do Congresso Nacional, incluindo parlamentares do próprio partido de Zelaya, aliás o mesmo de Micheletti, o centenário Partido Liberal, uma espécie de PMDB hondurenho.

Esta unificação se expressa na mídia. Estão com o golpe todos os quatro jornais diários e, com a intervenção militar no canal 36 e a repressão a jornalistas independentes, todas as emissoras de televisão. Apenas uma estação de rádio ainda resistia, mas quando escrevo, deve estar fora do ar.

Creio que presenciamos em Honduras os momentos cruciais para o desfecho desta batalha, um capítulo da luta de classes que se expressa no país. Nos dias 11 e 12 de agosto, não por coincidência, chegaram ao auge a mobilização popular e a repressão. Sinto expressar a impressão de que os golpistas saíram mais fortalecidos dessas dramáticas 48 horas.

No dia 11, os protestos em Tegucigalpa, São Pedro de Sula e outras localidades envolveram quase cem mil manifestantes. Na capital, a marcha tentou ir até a Casa Presidencial, sede do governo federal, que fica num bairro de elite afastado do centro, sendo reprimida por um aparato de milhares de soldados da Polícia Nacional e do Exército. Na dispersão, como expressão da revolta popular, as pedras das mal calçadas ruas de Tegucigalpa se transformaram em armas contra símbolos do capital: as vidraças de bancos e redes multinacionais de comida rápida.

Na noite do dia 11, o governo retoma o toque de recolher. Na madrugada, veículos sem placa percorrem a capital com atiradores em trajes civis metralhando os dois principais locais de reunião da direção da Frente Nacional Contra o Golpe de Estado: as sedes do Sindicato dos Trabalhadores de Bebidas e da Via Campesina.

Na manhã do dia 12, quando nova manifestação pacífica se dirigia ao centro da cidade, para um protesto diante do Congresso Nacional, a repressão já havia montado um aparato impressionante, destinado a evacuar todo o centro da cidade com violência contra quem estivesse nas ruas, fossem ou não manifestantes.

Sou testemunha ocular de que o pretexto para justificar a violenta repressão foi montado por agentes provocadores que, numa ação combinada, simularam uma agressão e logo em seguida a proteção do Vice-Presidente do Congresso Nacional, um dos principais articuladores do golpe. Exatamente na hora em que passavam os manifestantes, ele saíra sozinho à porta do Parlamento em plena sessão legislativa. Estas cenas, algumas horas depois, foram exibidas à exaustão em todas as emissoras de televisão hondurenhas e possivelmente no mundo todo.

Na dispersão desordenada, grande parte dos manifestantes se dirigiu ao quartel general da resistência desde o início das mobilizações, o até então inviolável campus da Universidade Pedagógica, onde se realizam as Assembléias da resistência e se alojavam os militantes que moram fora da capital. Mas o campus já estava tomado pelas tropas, que sequer permitiram aos alojados retirarem seus pertences pessoais, cuja apreensão ainda serviu para manipular a “descoberta” de coquetéis molotov.

É impressionante a combatividade, a coragem e a determinação do povo hondurenho. É digna de registro a unidade das forças que impulsionam até aqui a resistência, organizadas na Frente Nacional Contra o Golpe de Estado, apesar das debilidades políticas, materiais e organizativas dos movimentos sociais e grupos de esquerda. Não fossem estas debilidades, a história poderia ser outra. Nos momentos seguintes ao golpe havia um conjunto de fatores que poderiam configurar uma situação pré-revolucionária.

Os sindicatos ainda não têm a força desejável, sobretudo na iniciativa privada, onde a greve geral não vicejou. Os agrupamentos revolucionários só agora estão se reorganizando, recuperando-se da desarticulação das décadas de 80 e 90, em função da derrota da luta armada, da repressão e da crise na construção do socialismo. Para se ter uma idéia, dois partidos que se reivindicavam comunistas se dissolveram naquele período e só agora alguns comunistas estão refundando o Partido.

Mas as classes dominantes, para além do Estado, possuem uma arma decisiva numa batalha como esta: a mídia, sobretudo a televisão. É por este meio que os golpistas conseguiram calar, enquadrar e cooptar a grande maioria da pequena burguesia, restringindo a resistência aos setores proletários e parte minoritária das camadas médias.

Com muita competência, diuturnamente, todos os canais de televisão legitimam o golpe e satanizam a resistência. Jogam com o medo, mostrando cenas de violência nas ruas, em que as tropas só atacam para se defender dos “violentos” manifestantes, chamados de bárbaros e terroristas. Jogam com o risco de se perderem empregos e negócios, por conta da paralisação de parte importante da economia do país.

Jogam com o sentimento de autodeterminação, acusando a resistência de ser dirigida e financiada pela Venezuela e pela Nicarágua.

Todos os meios de comunicação se utilizam do mesmo padrão de manipulação. Os manifestantes são “vândalos, terroristas”; o golpe é uma “sucessão constitucional”. Não há qualquer debate na mídia eletrônica, em que haja espaço para o contraditório. Como aqui no Brasil, todos os “especialistas” chamados a comentar os fatos têm a mesma visão de mundo. A manipulação midiática não é apenas o que noticiam, mas também o que não noticiam. A solidariedade internacional não é conhecida pelo povo hondurenho. Zelaya tem sido satanizado como um meliante político, que queria rasgar a Constituição, a serviço de Hugo Chávez. Nesta fase de legitimação do golpe, o noticiário sobre Honduras vai sumindo na mídia mundial.

Confesso que foi impossível resistir à atração de vivenciar pessoalmente os confrontos do centro da cidade, ao lado dos manifestantes e do povo, para ajudar no que fosse possível. Confesso que foi difícil reprimir o impulso que as mãos suplicavam, quando as pedras me olhavam do chão.

A ofensiva da direita pode levar a um natural refluxo do movimento de massas, sobretudo face ao cansaço, à falta de resultados, ao isolamento social e, de uns tempos para cá, a uma certa desconfiança sobre a determinação de Zelaya. Ainda por cima, a mídia legitimou a repressão, o que dá ao governo golpista mãos livres para radicalizar mais nas próximas escaramuças.

Há muitos indícios de que o imperialismo já selou o destino de Zelaya: a possibilidade de uma volta ao país, “anistiado”, após a posse do novo Presidente. Não há qualquer sinal da saída de Micheletti antes disso, nem com a assunção de um tertius para disfarçar o golpe. Se um fato novo não ocorrer, Micheletti passa a faixa para o novo Presidente, em janeiro, certamente um cidadão “ilibado, acima das classes, de união nacional”, ou seja, da absoluta confiança do imperialismo e das classes dominantes locais.

Sinceramente, gostaria de trazer de Honduras avaliações diferentes.
Um exemplo deste plano é que, em 13 de agosto, partiu de Honduras para os EUA uma comissão de “notáveis” indicados pelo governo golpista, para explicar as razões do golpe ao Departamento de Estado, a convite deste. Lembram-se do compromisso de Obama de não receber delegações do governo golpista?

Os golpistas estão trocando os representantes diplomáticos hondurenhos no mundo todo, como a Cônsul Gioconda Perla, do Rio de Janeiro, que ficou fiel a Zelaya. Salvo os que aderiram ao golpe.

Preencheram todos os cargos federais. O governo funciona a pleno vapor. As estradas estão sendo desobstruídas, para escoar a circulação de bens e a exportação, reativando a economia. Os defensores de Zelaya na elite política se calaram, com raras exceções. O caso mais emblemático do oportunismo político é do Embaixador hondurenho no Brasil, que havia sido nomeado por Zelaya. Como já sentiu para onde os ventos sopram, simulou uma internação por problema cardíaco no dia da chegada de Zelaya em Brasília, quando este foi recebido pelo Presidente Lula.

Como se vê, vai de vento em popa a tática da legitimação do golpe, ajudada pelo quase fim do mandato de Zelaya e, agora, por uma agenda eleitoral que dominará a cena política hondurenha daqui a poucos dias. Para se ter idéia do processo eleitoral, haverá mais de 20.000 candidatos a cerca de 2.850 cargos (Presidente, Deputados, Prefeitos, Vereadores), inclusive do único Partido considerado de esquerda entre os cinco registrados, o social democrata UD (Unificación Democrática), que tem seis Deputados - nem todos participando publicamente da resistência - numa Câmara de pouco mais de cem.
A partir deste 31 de agosto, os partidos e os candidatos registrados já poderão divulgar suas campanhas em matérias pagas, inclusive na televisão. Isto mudará a pauta nacional.

Aliás, a participação ou não no processo eleitoral pode ser um fator de divisão da Frente contra o golpe, que reúne a Unificación Democrática e o Bloque Popular, em que se encontram as organizações sociais e políticas mais à esquerda. A UD já lançou publicamente um candidato a Presidente, enquanto o Bloque Popular defende a não participação nas eleições, com o argumento de não legitimar o golpe.

Enquanto isso, Zelaya, num comportamento pendular, abandonou seu posto em território nicaragüense, em Ocotal, na fronteira com seu país, de onde anunciara que iria comandar pessoalmente a resistência popular, exatamente nos dias 11 e 12 de agosto, para os quais estava convocada a jornada de luta. Nesses dias, Zelaya optou por um giro pela América do Sul, visitando o Brasil e o Chile, para sinalizar uma inflexão do eixo Chávez/Ortega para Lula/Bachelet.

Mas já ontem o presidente deposto havia voltado ao seu posto na fronteira, de onde divulgou ao povo hondurenho um comunicado conclamando à manutenção da luta de resistência contra o golpe e ao não reconhecimento do processo eleitoral convocado, nem dos seus resultados. E as manifestações continuam, ainda que com participação menor. Neste domingo, haverá um grande concerto musical contra o golpe.

Em verdade, mesmo assim, parece chegar ao fim um dos últimos capítulos da ilusão da revolução nacional-libertadora, que já há algumas décadas passou do prazo de validade.

Zelaya, eleito por um partido da ordem, representava o que ainda resta de setores da burguesia hondurenha, pequenos e médios empresários, que têm algum nível de contradição com o imperialismo. Sua aproximação com a ALBA e a Petrocaribe não tinha um sentido de transição ao socialismo, ainda que o difuso “socialismo do século XXI”. Tratava-se do interesse desses setores não monopolistas da burguesia hondurenha de fazer crescer o mercado interno e ter acesso ao mercado dos países da ALBA.

Para isso, precisavam nacionalizar algumas riquezas nacionais, participar de uma integração não imperialista para importar petróleo e outros insumos mais baratos e mitigar as injustiças para aumentar o poder de consumo popular, através de políticas compensatórias e aumento do salário mínimo.

A realidade está mostrando que estes setores residuais da burguesia não têm a mínima condição de disputar com os setores monopolistas.

Na fase imperialista do capitalismo, ainda mais em meio à sua crise, a hegemonia no Estado burguês pertence aos segmentos associados aos grandes monopólios. Quem manda em Honduras são os bancos, o agronegócio, os exportadores de matéria prima, e as indústrias maquiadoras voltadas, como no caso da Nike, para o mercado externo.

Mas em Honduras, nada será como antes, principalmente a esquerda e sua vanguarda. Amadurecem e formam-se nesta legendária luta milhares de militantes e quadros. O comando da Frente, em especial do Bloque Popular, já ajustou corretamente a linha política e a organização popular às necessidades desta nova fase da luta. A bandeira da convocação da Constituinte, livre e soberana, com ou sem Zelaya, é um dos eixos políticos principais. Em Assembléia neste domingo, a resistência resolveu priorizar a organização popular, a partir das bases.

A grande lição que os militantes hondurenhos aprenderam é que os proletários só podem contar com eles próprios. Para grande parte desta heróica vanguarda, acabaram-se as ilusões em alianças com a burguesia, nas possibilidades de humanização do capitalismo e de transição ao socialismo nos marcos da institucionalidade burguesa.

E a certeza de que não bastam as pedras de Tegucigalpa.

* Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB.
Rio, 19 de agosto de 2009

13 de agosto de 2009

Falar suavemente acompanhado de um porrete De 'Teddy' Roosevelt a Obama -  Por: Jorge Altamira

Falar suavemente acompanhado de um porrete De 'Teddy' Roosevelt a Obama - Por: Jorge Altamira

A revelação de que a Colômbia havia posto à disposição do Pentágono sete bases militares em seu território deu como que uma guinada violenta na crise internacional desatada pelo golpe em Honduras. Agora, a negociação para repor Zelaya na presidência desse país abarca um temário mais amplo. Na primeira fase, quando se estabeleceu a mediação do presidente da Costa Rica, Oscar Arias, o retorno de Zelaya ficou condicionado à aceitação da retirada de sua proposta de convocação de uma Constituinte, da formação de um gabinete de coalizão com os golpistas e até do adiamento das eleições convocadas para novembro. Curiosamente, Zelaya aceitou esta extorsão, pela qual se deve supor que o fez com o apoio dos governos da Alba, que Honduras integra por decisão do mesmo Zelaya.

Também curiosamente os golpistas rechaçaram a proposta, o que, se supõe, fizeram porque contavam com respaldo norteamericano, apesar de Obama exigir publicamente que se restabeleça a presidência de Zelaya. Como se vê, a verdade não se encontra atrás das palavras. Na trajetória deste assunto, o Congresso e a Corte de Honduras ratificaram logo a destituição de Zelaya, ou seja, torpedearam pela segunda vez os 'bons trabalhos' costarriquenhos. Tudo transparente como a água: a mediação de Arias serviu para ganhar tempo e para algo mais: para que o arco internacional do golpismo obtivesse a possibilidade de tomar a iniciativa.

É o que acaba de ocorrer com uma série de medidas que a Colômbia adotou: a denúncia de que as FARC financiaram a campanha eleitoral de Correa, no Equador; a denúncia de que Chávez entregou às FARC foguetes terra-ar comprados da Suécia para as forças armadas da Venezuela; a autorização para que os militares estadunidenses utilizem bases na Colômbia; finalmente, um giro de Uribe - que aponta fundamentalmente para o Brasil -, para deixar claro que a estabilidade regional depende de uma neutralização política da Venezuela de Chávez, muito antes que de uma solução ao golpe em Honduras. O colombiano Uribe, vinculado com o paramilitarismo e o narcotráfico, acusou a Venezuela, com o seu hábito de não pestanejar, de ser o corredor da droga para o Caribe.

Com a responsabilidade que têm os Estados Unidos na transformação do México em um Estado narcotraficante, a invenção de Uribe transforma=se em uma provocação - em especial quando o governo de Obama se declara satisfeito pelos resultados da colaboração com Cuba para a luta contra o narcotráfico. Em definitivo, quando a poeira baixar, a questão da reposição de Zelaya já estará 'prescrita'.

Evo Morales acredita que a coisa ainda vai mais longe: segundo a sua apreciação, uma vitória provável da direita nas eleições do Chile e do Uruguai 'aproximaria' os países bolivarianos. Talvez isso nem faça falta, já que as 'esquerdas' que se apresentam nestes países são tão fiéis à independência nacional como os gatos. O presidente da Bolívia, entretanto, se esqueceu de mencionar a crise política na Argentina e a passividade diante do golpe em Honduras manifestada pelo novo governo da FMLN em El Salvador. Enquanto isso, em Honduras, reapareceram os 'grupos-tarefas' com o assassinato de vários ativistas docentes e um camponês.

Onde foi parar, então, o alegado 'triunfo' do anti-imperialismo, como progressistas e bolivarianos disseram da resolução que pôs fim à exclusão de Cuba da OEA? Se a OEA não funciona como Ministério das Colônias dos ianques, ela simplesmente se enfraquece. Foi o que ocorreu, precisamente, há quase cinquenta anos, quando todos os governos que votaram contra a exclusão de Cuba foram atingidos por golpes militares, com a exceção do México. Inclusive depois da festejada resolução de dois meses atrás, Cuba segue excluída, pois somente pode reingressar a seu pedido, se for autorizada a isso ao cabo de uma negociação.

O jogo político desatado pela crise hondurenha se volta agora para o papel do Brasil, cujo projeto de aliança político-militar na América do Sul, a Unasul, foi desafiado pelo acesso do Pentágono às bases militares colombianas e pelo reforço político de sua grande base militar em Honduras, como consequência da vitória dos golpistas. O embaixador brasileiro questionou a instalação norteamericana na Colômbia como se ignorasse que isso já vinha ocorrendo em função do Plano Colômbia, cujo pretexto é combater a "narcoguerrilha" e o narcotráfico.

Alguns analistas sustentam que a ampliação da presença militar ianque na Colômbia atentaria contra a segurança da Amazônia. Neste caso, seria um excelente pretexto para reforçar a militarização que já se encontra em curso no Brasil. Mais adiante, talvez com outro governo, tudo poderia terminar com uma aliança militar entre Estados Unidos e Brasil.

Mas chama a atenção que o embaixador brasileiro associasse o tema das novas bases militares com a negociação comercial de Doha (onde o Brasil briga por um forte rebaixamento das tarifas que prejudicam as suas exportações) e com os altos impostos que exigem os Estados Unidos para vender o etanol nesse país - o "biocombustível" que deriva da cana de açúcar. Com isso temos outra peça mais na jogada e na negociação desatada pelo golpe em Honduras. Os fatores de choque poderiam ser estendidos ainda mais; a oposição patronal que ganhou as eleições na Argentina, em fins de junho passado, não esconde que a sua principal reivindicação de política exterior é a ruptura política com o chavismo. Para agregar às curiosidades: a Bush lhe "molharam a orelha" em 2005, em Buenos Aires, mas a vingança quem executa é Obama.

O último personagem a ingressar na cena é o governo do rei da Espanha, que pressionou a União Europeia para que não reconhecesse aos golpistas hondurenhos. Logo da nacionalização, ainda que a preço de ouro, do Banco Santander por parte de Chávez, isto deveria surpreender, assim como que isto ocorra depois da expropriação de um par de propriedades rurais de espanhóis. Mas estes acontecimentos recentes são já história velha, porque Rodríguez Zapatero acaba de obter suculentos contratos de obras públicas da parte de Chávez (bilhões de dólares para ferrovias e hidroeletricidade) e um par de acordos petroleiros para a Repsol na zona do Orinoco e para refinar o petróleo cru venezuelano em uma filial que o "polvo" tem no Equador. São negócios que um governo esquálido [burguês], na Venezuela, seguramente já teria reservado para os polvos norteamericanos. Do mesmo modo, a Repsol disse que o seu principal campo de investimentos na América Latina estará no Brasil. Do que se conclui que assistimos, em toda esta crise, a toda uma boa jogada interimperialista - ou seja, que a fatura será paga pelas massas. A 'resistência nac & pop' das pseudo burguesias nacionais derrete-se como neve na primavera; suas principais preocupações políticas são sobreviver às crises políticas em suas próprias casas.

Esta dilatação continental e internacional da fagulha hondurenha é uma consequência da bancarrota capitalista mundial; assistimos a um estreitamento das margens de negociação e a uma acentuação das crise políticas. Por isso, a luta contra o golpe hondurenho e contra as provocações do imperialismo exige uma reivindicação de conjunto. É esta a oportunidade para uma conferência latinoamericana de organizações combativas, independentes das burguesias nacionais e de seus governos, para desenvolver um plano de ação em escala continental.

7 de agosto de 2009

UMA VEZ GENERAL GOLPISTA, SEMPRE GENERAL GOLPISTA - Laerte Braga [*]

Os cinco principais generais das forças armadas de Honduras resolveram dar explicações de público num programa de tevê hondurenho sobre a participação dos militares no golpe que depôs o presidente constitucional do país Manuel Zelaya.

Script montado, papéis definidos, o programa tinha o objetivo de exibir a “face democrática” dos militares golpistas e mostrar ao povo que não tinham nada a ver com nada, foram apenas “patriotas” em cumprimento à constituição e a lei.

Não houve dificuldades em decorar esse script, é antigo, mudam uma ou outra palavra, mas não conseguem escapar do lugar comum. O tal do “patriotismo” e a preocupação em aparecer como homens de origens humildes, mas capazes de “salvar a pátria”.

Se fosse para enumerar aqui os inúmeros de golpes de estado dados por militares na América Latina ficaríamos uma eternidade. Imagine se fosse para relatar cada golpe, cada momento “patriótico” desse na Bolívia, por exemplo. Era comum um general dar um golpe às seis da manhã, ser golpeado ao meio dia por outro, até que as seis da tarde um terceiro viesse com suas tropas para promover o bem geral e caísse à meia noite para um tipo general lobisomem governar até o que iria golpear às seis da manhã e assim sucessivamente.



A grande preocupação dos militares hondurenhos foi a de tentar desvincular-se das elites do país. Buscar apagar a imagem que são cúmplices ou parceiros, sócios dessas elites nos “negócios”. Mas a maior dificuldade foi querer mostrar que não são paus mandados de Washington e obedecem diretamente ao embaixador dos EUA em Tegucigalpa.

Em 1964 no Brasil a coisa funcionou exatamente assim. Os norte-americanos começaram a abrir as portas para o golpe com um programa chamado Aliança para o Progresso. Chegava aqui um monte de coisas com outro monte de agentes da CIA. Doações para o bem do Brasil. Em 1962 derramaram dinheiro nas eleições através de um instituto que chamaram de IBAD – INSTITUTO BRASILEIRO DE AÇÃO DEMOCRÁTICA –. Em 1963 designaram um comandante para as forças armadas brasileiras, o general Vernon Walthers que havia sido comandante de Castello Branco na IIª Grande Guerra e falava português fluentemente e o embaixador Lincoln Gordon para ajustar os esquemas financeiros, comprar deputados e senadores, etc.

Em 1964 promoveram todo o processo golpista, uma peça montada e dirigida por Washington, em nome da democracia. Marcharam pelo país montados na fé de um povo iludido por usurpadores dessa fé – fé é uma questão de foro íntimo, mas espertalhões da fé não – e falo do padre Patrick Payton. O cardeal de Honduras, dono de grandes extensões de terra e outros “negócios” apóia o golpe em nome de Deus.

Reforma agrária, melhores condições para os trabalhadores da cidade, projetos habitacionais, democratização da comunicação, saúde, universidades públicas, esse esquema não interessava aos donos do país, patrões dos militares e principais acionistas das nossas elites, o esquema FIESP/DASLU.



Um pequeno exemplo da vocação democrática dessas elites. O governador de São Paulo era Ademar de Barros. Pilantra sem qualquer escrúpulo. Ademar decidia abrir uma estrada digamos ligando o ponto A ao ponto B, uma cidade a outra. Aí, em parceria com as empreiteiras compravam as terras às margens da futura rodovia a preço de banana e depois ficavam senhores de grandes extensões de terra supervalorizadas pela estrada.

Nos tempos de John Wayne era a mesma coisa quando as ferrovias iam chegando ao Oeste e levando progresso.

Jango decidiu no dia 13 de março de 1964 que as terras às margens de rodovias, ferrovias, rios, lagos e açudes seriam desapropriadas na extensão de oito quilômetros para fins de reforma agrária. Aquele monte de terra que quando a gente viaja não vê nada aproveitado, digamos assim. Aí, Ademar de Barros, o banqueiro/trambiqueiro Magalhães Pinto, o alucinado Carlos Lacerda treparam nas tamancas e dispararam que “a democracia e as liberdades individuais estão ameaçadas, o povo brasileiro está debaixo da ameaça do comunismo internacional”.

Junte-se a isso a estatização do petróleo em todos os níveis (Lula está leiloando o pré-sal), dos serviços de energia elétrica e telefonia e medidas que contrariavam laboratórios internacionais como a compra de ácidoacetilsalicílico da China e não da Bayer – uma das financiadoras do golpe –. O da Bayer custava o triplo do preço, está no livro “O governo João Goulart” do professor Moniz Bandeira, mas a Bayer era legitima representante da democracia. Você tem que tomar a aspirina da Bayer mesmo que ela seja mais cara e lógico, para os caras lá de cima, os “patriotas”, tinha um extra que vinha custo para a turma cá embaixo.

Pronto. Derrubaram o presidente, tomaram o poder, suprimiram as liberdades e começaram o processo de venda e entrega do país, completado bem mais tarde por FHC, uma espécie de cabo Anselmo com patente mais alta, afinal foi presidente da República.

Prenderam opositores, cassaram, torturaram, seqüestraram, mataram, estupraram mulheres militantes e de famílias de opositores, tudo em nome da pátria. Censuraram a imprensa, sempre pela democracia.

Falavam em Brasil grande enquanto íamos ficando cada vez menor.

Em Honduras os generais golpistas não variaram no script. Segundo eles, cinco, as forças armadas cumpriram a lei, não são responsáveis pela determinação de depor o presidente Zelaya (não explicaram que a lei mandava se quisessem de fato tirá-lo por “ilegalidades” seguir o caminho de um processo natural de impedimento, foi na marra), lamentam que tenham tido que matar alguns opositores, mas a culpa foi deles por não aceitar essa “lei”, essa vocação “patriótica”, até aí tudo como manda o figurino golpista, até que...

No filme Doutor Fantástico de Stanley Kubrick, entre muitos personagens que mostram a boçalidade de militares de extrema direita – a maioria – nos EUA, há um cientista alemão que foi cooptado ao final da IIª Grande Guerra. No ápice do filme, o tal cientista aparece numa cadeira de rodas como conselheiro do presidente norte-americano e surge segurando com a mão esquerda a mão direita. Quando se distrai e se empolga na destruição da União Soviética, solta a esquerda a direita automaticamente levanta-se e proclama “herr Hitler”.

Os generais de Honduras vieram gravando as cenas da farsa até o momento que a mão direita escapou. Foi quando disseram que Zelaya estava levando o país para o “comunismo” representado por Hugo Chávez, “disfarçado de socialismo,” afastando-se da democracia.

Democracia para eles é Washington e a grana que chega por fora no final do mês. São generais golpistas, em qualquer lugar, em todos os tempos, aqui, lá, no Chile e, lógico, venais e corruptos.

Segundo o jornal NEW YORK TIMES, norte-americano a fala final foi assim:
“Como se seguisse um manual da Guerra Fria, o general Miguel Ángel García Padget disse que as forças armadas impediram os planos de Chávez de espalhar o socialismo pela região. "A América Central não era o objetivo desse comunismo disfarçado de democracia", ele disse. "Este socialismo, comunismo, chavismo, chame como quiser, visa o coração dos Estados Unidos."

“... Visa o coração dos Estados Unidos”. É a pátria verdadeira desse general golpista e corrupto, traidor. Não conseguiu segurar e teve que dedicar essa ode aos patrões, quem sabe na esperança de ganhar um extra.

Não são patriotas, são canalhas como afirma Samuel Johnson ao definir patriotismo como “último refúgio dos canalhas”. O povo de Honduras? Dane-se o povo, vão continuar matando se necessário for para os dólares abençoados do capitalismo.




E contando com a mídia, pronta a receber também propagandas extras. GLOBO, VEJA, as rádios que Chávez fechou por falarem mentiras e distribuiu concessões entre as comunidades para se fazerem ouvir.

No meio disso tudo Barak Obama. Um refinado ventríloquo dos verdadeiros donos da Casa Branca e do presidente dos EUA. Um garçom numa espécie de pub inglês nos EUA. A Casa Branca.


O resultado do “patriotismo” dos generais que defendem o “coração dos Estados Unidos”

Segundo Roberto Michelletti, presidente de fancaria golpista de Honduras, Obama é “el negrito no conoce donde se queda Tegucigalpa”. O que Obama fez até hoje foi perguntar a marca de cerveja que Michelletti, ligado ao tráfico de drogas, prefere. E se o filé é ao ponto ou mal passado. A cozinheira é Hilary Clinton, que também serve de primeira dançarina desse can can democrático.

[*] Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, trabalhou no Estado de Minas e no Diário Mercantil.

5 de agosto de 2009

Venezuela recupera rádios para o serviço público - Por: Elaine Tavares


A mídia comercial brasileira, copiadora número um da matriz CNN, que transmite em espanhol, para toda a América Latina, bombardeou os leitores/espectadores/ouvintes com críticas ao governo venezuelano que, na semana passada, encerrou a transmissão de 34 emissoras de rádio naquele país. Não faltaram os comentários raivosos sobre a "ditadura chavista" e muito menos as entrevistas - à exaustão - com os representantes da direita golpista da Venezuela falando da "falta de democracia" de Hugo Chávez.

O que a maioria dos veículos não disse - e se disse foi de forma superficial - é que estas emissoras estavam irregulares perante a lei de radiodifusão. Algumas delas seguiam funcionando mesmo depois que os legítimos possuidores da concessão já haviam falecido, sendo utilizada a conhecida figura do "laranja". Conforme a lei daquele país, isso não é possível. As ondas eletromagnéticas são uma concessão pública e cabe ao Estado fazer cumprir a lei, caso contrário cai por terra o conceito liberal de "estado democrático e de direito". Mas, aos liberais, isso, vindo de Chávez, é ditadura. Coisa difícil de entender, não?

Outra informação que a mídia não dá de forma clara é que as freqüências, que funcionavam de forma ilegal e que foram retomadas pelo Estado, passarão por nova licitação e devem ser entregues às entidades comunitárias, para que voltem a apresentar o caráter público que deviam ter. Segundo o ministro de Obras Públicas y Vivienda, Diosdado Cabello, a anulação das concessões se deu não só naquelas em que o titular já havia falecido, mas também nas que estavam com a validade da concessão vencida e sequer se dignaram a comparecer ao órgão responsável por esta questão, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) durante o período que havia sido indicado através de correspondência, demonstrando completo desrespeito com a lei.

O Ministro também informou que existe na Conatel um número muito grande de pedidos de concessão e que agora o órgão deve abrir novas licitações. O presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que não há qualquer ataque à liberdade de expressão; pelo contrário, os veículos foram devolvidos ao povo, uma vez que não cumpriam com suas obrigações.

Mas o certo é que este ato ainda vai render muito pano para manga, principalmente nos grandes veículos de comunicação do chamado "mundo livre", o qual só considera liberdade de expressão a sua própria. Já cumprir a lei e verdadeiramente democratizar a comunicação passa a ser coisa de "ditador". Ninguém na televisão foi capaz de informar que no Brasil existem centenas de emissoras comerciais funcionando com a concessão vencida, enquanto as rádios comunitárias seguem sendo estouradas pela Anatel.

Só para lembrar, recentemente o ministro do STF, Gilmar Mendes, acabou com a exigência do diploma para a profissão de jornalista justamente em nome da chamada "liberdade de expressão" dos donos de empresas. Não é à toa que, de maneira hipócrita, os bocas-alugadas estejam fazendo discursos inflamados contra a decisão do governo venezuelano. Já pensou se aqui no Brasil o governo decidisse cumprir a lei? Só em Santa Catarina tramita um processo contra a poderosa Rede Brasil Sul de Comunicação - que, de forma aberta e pública se expressa como um oligopólio - mas caminha a passos lentos. E tudo o que se quer é que a Constituição seja cumprida. Mas, quando ela vai contra os poderosos aí fica parecendo que é coisa de "ditador". No mundo liberal burguês a lei só se cumpre contra os pobres.