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19 de agosto de 2009

As pedras de Tegucigalpa - Honduras: a revolução nacional-libertadora tardia - Por Ivan Pinheiro(*)



Os dias que passei em Honduras, na fraterna companhia de Amauri Soares e Marcelo Buzetto, serviram para consolidar as impressões que, desde o Brasil, expusera no artigo “Contra a manobra do pacto de elites”.

Definitivamente, o golpe não só contou como ainda conta com o apoio material e político do imperialismo estadunidense, que foi obrigado a dissimular sua participação em razão dos erros cometidos na execução do golpe, sobretudo o fato de o mundo ter sido surpreendido com a prisão e a retirada à força de Manuel Zelaya do país, sem uma satanização prévia.

O golpe em Honduras é parte do plano imperialista para tentar frear a ALBA e os processos de mudanças sociais na América Latina. Honduras fica entre a Nicarágua e El Salvador, vizinhos hoje governados por antigos movimentos guerrilheiros de libertação nacional, agora em versão moderada, que se desmilitarizaram nos anos 90: a Frente Sandinista e a Frente Farabundo Marti.

Além disso, o país possui grandes reservas não exploradas de petróleo, minério abundante e outros recursos naturais, além da base de Soto Cano, a mais importante e estratégica para os ianques na América Central. Zelaya é o detalhe do golpe, que é muito mais contra a ALBA, contra Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia e os dois vizinhos limítrofes.
Ao que tudo indica, está a ponto de se consumar o plano B que o império adotou a partir da repulsa mundial no início do golpe: a sua legitimação e, em seguida, legalização.

A cada dia que passa fica mais difícil a volta de Zelaya ao governo, ainda que apenas para presidir as eleições gerais de novembro com as mãos atadas, sem ALBA, sem Constituinte, nem mesmo o direito de se candidatar ao mais simples cargo eletivo.

Um dos mais importantes lances deste plano B se deu no dia 12 de agosto, quando os membros da Corte Suprema e do Tribunal Superior Eleitoral anunciaram oficialmente a manutenção das eleições gerais para o dia 29 de novembro próximo. Logo em seguida, simulando surpresa, o presidente golpista reconhece a decisão do judiciário, como se estivesse submetendo-se a um poder autônomo, ao “império da lei e da justiça, ao estado democrático de direito”.

Tudo isso em cadeia nacional de televisão. No horário nobre, como convém a uma boa novela. Em seguida, ainda ao vivo, Honduras ganha de quatro a zero da rival Costa Rica, pelas eliminatórias da Copa do Mundo.

A sinalização é óbvia: até a posse do novo Presidente, em janeiro, Micheletti preside o país, o TSE realiza as eleições, a Corte Suprema as preside, as Forças

Armadas as garantem e os observadores internacionais escolhidos a dedo as legitimam. Tudo para passar um ar de legalidade. Se assim for, Zelaya não volta nem para passar a faixa ao futuro Presidente.

No mesmo dia, em entrevista coletiva após uma cúpula do Nafta, entre sorridentes presidentes do Canadá e do México, Obama fez uma jogada de mestre, abandonando Zelaya à própria sorte. Aproveitando-se das ilusões alimentadas por este, de voltar ao poder por iniciativa dos EUA, Obama lavou as mãos, apontando a incoerência das pressões para que intervenha em Honduras por parte dos que pedem o fim da intervenção dos EUA nos países da América Latina.

No mesmo evento trilateral, Felipe Calderón – eleito presidente numa monumental fraude contra López Obrador - anuncia o reconhecimento do México ao governo Micheletti, seguindo o exemplo pioneiro do Canadá, cujas mineradoras transnacionais com sede no país ocupam quase um terço do território hondurenho. Para os que ainda não se deram conta de que o capitalismo brasileiro é parte do sistema imperialista, a mais poderosa dessas mineradoras tidas como canadenses (a INCO) foi recentemente comprada pela “nossa” Vale do Rio Doce.

Tudo indica que o núcleo duro da oligarquia e da cúpula militar que assumiu o governo em Honduras há mais de cinqüenta dias - agora falando grosso pelo decurso de prazo no poder - está com força para impor seu próprio projeto de pacto de elites para superar a crise e legitimar o golpe. Não só rechaçou as propostas conciliadoras feitas pelo Presidente da Costa Rica, como, em 10 de agosto, não recebeu uma delegação de chanceleres latino-americanos que, em nome da OEA, iriam a Tegucigalpa tentar mediar a crise. E olha que eram representantes apenas de governos moderados ou pró-imperialistas: Argentina, Canadá, Costa Rica, Jamaica, México e República Dominicana. Os golpistas só admitiram receber a Comissão da OEA no próximo 24 de agosto, ganhando mais duas semanas sem “mediações”.

Os golpistas conseguiram unificar todas as instituições e personalidades das classes dominantes: as cúpulas das Forças Armadas, da Igreja Católica, das entidades empresariais, do Judiciário, a grande maioria do Congresso Nacional, incluindo parlamentares do próprio partido de Zelaya, aliás o mesmo de Micheletti, o centenário Partido Liberal, uma espécie de PMDB hondurenho.

Esta unificação se expressa na mídia. Estão com o golpe todos os quatro jornais diários e, com a intervenção militar no canal 36 e a repressão a jornalistas independentes, todas as emissoras de televisão. Apenas uma estação de rádio ainda resistia, mas quando escrevo, deve estar fora do ar.

Creio que presenciamos em Honduras os momentos cruciais para o desfecho desta batalha, um capítulo da luta de classes que se expressa no país. Nos dias 11 e 12 de agosto, não por coincidência, chegaram ao auge a mobilização popular e a repressão. Sinto expressar a impressão de que os golpistas saíram mais fortalecidos dessas dramáticas 48 horas.

No dia 11, os protestos em Tegucigalpa, São Pedro de Sula e outras localidades envolveram quase cem mil manifestantes. Na capital, a marcha tentou ir até a Casa Presidencial, sede do governo federal, que fica num bairro de elite afastado do centro, sendo reprimida por um aparato de milhares de soldados da Polícia Nacional e do Exército. Na dispersão, como expressão da revolta popular, as pedras das mal calçadas ruas de Tegucigalpa se transformaram em armas contra símbolos do capital: as vidraças de bancos e redes multinacionais de comida rápida.

Na noite do dia 11, o governo retoma o toque de recolher. Na madrugada, veículos sem placa percorrem a capital com atiradores em trajes civis metralhando os dois principais locais de reunião da direção da Frente Nacional Contra o Golpe de Estado: as sedes do Sindicato dos Trabalhadores de Bebidas e da Via Campesina.

Na manhã do dia 12, quando nova manifestação pacífica se dirigia ao centro da cidade, para um protesto diante do Congresso Nacional, a repressão já havia montado um aparato impressionante, destinado a evacuar todo o centro da cidade com violência contra quem estivesse nas ruas, fossem ou não manifestantes.

Sou testemunha ocular de que o pretexto para justificar a violenta repressão foi montado por agentes provocadores que, numa ação combinada, simularam uma agressão e logo em seguida a proteção do Vice-Presidente do Congresso Nacional, um dos principais articuladores do golpe. Exatamente na hora em que passavam os manifestantes, ele saíra sozinho à porta do Parlamento em plena sessão legislativa. Estas cenas, algumas horas depois, foram exibidas à exaustão em todas as emissoras de televisão hondurenhas e possivelmente no mundo todo.

Na dispersão desordenada, grande parte dos manifestantes se dirigiu ao quartel general da resistência desde o início das mobilizações, o até então inviolável campus da Universidade Pedagógica, onde se realizam as Assembléias da resistência e se alojavam os militantes que moram fora da capital. Mas o campus já estava tomado pelas tropas, que sequer permitiram aos alojados retirarem seus pertences pessoais, cuja apreensão ainda serviu para manipular a “descoberta” de coquetéis molotov.

É impressionante a combatividade, a coragem e a determinação do povo hondurenho. É digna de registro a unidade das forças que impulsionam até aqui a resistência, organizadas na Frente Nacional Contra o Golpe de Estado, apesar das debilidades políticas, materiais e organizativas dos movimentos sociais e grupos de esquerda. Não fossem estas debilidades, a história poderia ser outra. Nos momentos seguintes ao golpe havia um conjunto de fatores que poderiam configurar uma situação pré-revolucionária.

Os sindicatos ainda não têm a força desejável, sobretudo na iniciativa privada, onde a greve geral não vicejou. Os agrupamentos revolucionários só agora estão se reorganizando, recuperando-se da desarticulação das décadas de 80 e 90, em função da derrota da luta armada, da repressão e da crise na construção do socialismo. Para se ter uma idéia, dois partidos que se reivindicavam comunistas se dissolveram naquele período e só agora alguns comunistas estão refundando o Partido.

Mas as classes dominantes, para além do Estado, possuem uma arma decisiva numa batalha como esta: a mídia, sobretudo a televisão. É por este meio que os golpistas conseguiram calar, enquadrar e cooptar a grande maioria da pequena burguesia, restringindo a resistência aos setores proletários e parte minoritária das camadas médias.

Com muita competência, diuturnamente, todos os canais de televisão legitimam o golpe e satanizam a resistência. Jogam com o medo, mostrando cenas de violência nas ruas, em que as tropas só atacam para se defender dos “violentos” manifestantes, chamados de bárbaros e terroristas. Jogam com o risco de se perderem empregos e negócios, por conta da paralisação de parte importante da economia do país.

Jogam com o sentimento de autodeterminação, acusando a resistência de ser dirigida e financiada pela Venezuela e pela Nicarágua.

Todos os meios de comunicação se utilizam do mesmo padrão de manipulação. Os manifestantes são “vândalos, terroristas”; o golpe é uma “sucessão constitucional”. Não há qualquer debate na mídia eletrônica, em que haja espaço para o contraditório. Como aqui no Brasil, todos os “especialistas” chamados a comentar os fatos têm a mesma visão de mundo. A manipulação midiática não é apenas o que noticiam, mas também o que não noticiam. A solidariedade internacional não é conhecida pelo povo hondurenho. Zelaya tem sido satanizado como um meliante político, que queria rasgar a Constituição, a serviço de Hugo Chávez. Nesta fase de legitimação do golpe, o noticiário sobre Honduras vai sumindo na mídia mundial.

Confesso que foi impossível resistir à atração de vivenciar pessoalmente os confrontos do centro da cidade, ao lado dos manifestantes e do povo, para ajudar no que fosse possível. Confesso que foi difícil reprimir o impulso que as mãos suplicavam, quando as pedras me olhavam do chão.

A ofensiva da direita pode levar a um natural refluxo do movimento de massas, sobretudo face ao cansaço, à falta de resultados, ao isolamento social e, de uns tempos para cá, a uma certa desconfiança sobre a determinação de Zelaya. Ainda por cima, a mídia legitimou a repressão, o que dá ao governo golpista mãos livres para radicalizar mais nas próximas escaramuças.

Há muitos indícios de que o imperialismo já selou o destino de Zelaya: a possibilidade de uma volta ao país, “anistiado”, após a posse do novo Presidente. Não há qualquer sinal da saída de Micheletti antes disso, nem com a assunção de um tertius para disfarçar o golpe. Se um fato novo não ocorrer, Micheletti passa a faixa para o novo Presidente, em janeiro, certamente um cidadão “ilibado, acima das classes, de união nacional”, ou seja, da absoluta confiança do imperialismo e das classes dominantes locais.

Sinceramente, gostaria de trazer de Honduras avaliações diferentes.
Um exemplo deste plano é que, em 13 de agosto, partiu de Honduras para os EUA uma comissão de “notáveis” indicados pelo governo golpista, para explicar as razões do golpe ao Departamento de Estado, a convite deste. Lembram-se do compromisso de Obama de não receber delegações do governo golpista?

Os golpistas estão trocando os representantes diplomáticos hondurenhos no mundo todo, como a Cônsul Gioconda Perla, do Rio de Janeiro, que ficou fiel a Zelaya. Salvo os que aderiram ao golpe.

Preencheram todos os cargos federais. O governo funciona a pleno vapor. As estradas estão sendo desobstruídas, para escoar a circulação de bens e a exportação, reativando a economia. Os defensores de Zelaya na elite política se calaram, com raras exceções. O caso mais emblemático do oportunismo político é do Embaixador hondurenho no Brasil, que havia sido nomeado por Zelaya. Como já sentiu para onde os ventos sopram, simulou uma internação por problema cardíaco no dia da chegada de Zelaya em Brasília, quando este foi recebido pelo Presidente Lula.

Como se vê, vai de vento em popa a tática da legitimação do golpe, ajudada pelo quase fim do mandato de Zelaya e, agora, por uma agenda eleitoral que dominará a cena política hondurenha daqui a poucos dias. Para se ter idéia do processo eleitoral, haverá mais de 20.000 candidatos a cerca de 2.850 cargos (Presidente, Deputados, Prefeitos, Vereadores), inclusive do único Partido considerado de esquerda entre os cinco registrados, o social democrata UD (Unificación Democrática), que tem seis Deputados - nem todos participando publicamente da resistência - numa Câmara de pouco mais de cem.
A partir deste 31 de agosto, os partidos e os candidatos registrados já poderão divulgar suas campanhas em matérias pagas, inclusive na televisão. Isto mudará a pauta nacional.

Aliás, a participação ou não no processo eleitoral pode ser um fator de divisão da Frente contra o golpe, que reúne a Unificación Democrática e o Bloque Popular, em que se encontram as organizações sociais e políticas mais à esquerda. A UD já lançou publicamente um candidato a Presidente, enquanto o Bloque Popular defende a não participação nas eleições, com o argumento de não legitimar o golpe.

Enquanto isso, Zelaya, num comportamento pendular, abandonou seu posto em território nicaragüense, em Ocotal, na fronteira com seu país, de onde anunciara que iria comandar pessoalmente a resistência popular, exatamente nos dias 11 e 12 de agosto, para os quais estava convocada a jornada de luta. Nesses dias, Zelaya optou por um giro pela América do Sul, visitando o Brasil e o Chile, para sinalizar uma inflexão do eixo Chávez/Ortega para Lula/Bachelet.

Mas já ontem o presidente deposto havia voltado ao seu posto na fronteira, de onde divulgou ao povo hondurenho um comunicado conclamando à manutenção da luta de resistência contra o golpe e ao não reconhecimento do processo eleitoral convocado, nem dos seus resultados. E as manifestações continuam, ainda que com participação menor. Neste domingo, haverá um grande concerto musical contra o golpe.

Em verdade, mesmo assim, parece chegar ao fim um dos últimos capítulos da ilusão da revolução nacional-libertadora, que já há algumas décadas passou do prazo de validade.

Zelaya, eleito por um partido da ordem, representava o que ainda resta de setores da burguesia hondurenha, pequenos e médios empresários, que têm algum nível de contradição com o imperialismo. Sua aproximação com a ALBA e a Petrocaribe não tinha um sentido de transição ao socialismo, ainda que o difuso “socialismo do século XXI”. Tratava-se do interesse desses setores não monopolistas da burguesia hondurenha de fazer crescer o mercado interno e ter acesso ao mercado dos países da ALBA.

Para isso, precisavam nacionalizar algumas riquezas nacionais, participar de uma integração não imperialista para importar petróleo e outros insumos mais baratos e mitigar as injustiças para aumentar o poder de consumo popular, através de políticas compensatórias e aumento do salário mínimo.

A realidade está mostrando que estes setores residuais da burguesia não têm a mínima condição de disputar com os setores monopolistas.

Na fase imperialista do capitalismo, ainda mais em meio à sua crise, a hegemonia no Estado burguês pertence aos segmentos associados aos grandes monopólios. Quem manda em Honduras são os bancos, o agronegócio, os exportadores de matéria prima, e as indústrias maquiadoras voltadas, como no caso da Nike, para o mercado externo.

Mas em Honduras, nada será como antes, principalmente a esquerda e sua vanguarda. Amadurecem e formam-se nesta legendária luta milhares de militantes e quadros. O comando da Frente, em especial do Bloque Popular, já ajustou corretamente a linha política e a organização popular às necessidades desta nova fase da luta. A bandeira da convocação da Constituinte, livre e soberana, com ou sem Zelaya, é um dos eixos políticos principais. Em Assembléia neste domingo, a resistência resolveu priorizar a organização popular, a partir das bases.

A grande lição que os militantes hondurenhos aprenderam é que os proletários só podem contar com eles próprios. Para grande parte desta heróica vanguarda, acabaram-se as ilusões em alianças com a burguesia, nas possibilidades de humanização do capitalismo e de transição ao socialismo nos marcos da institucionalidade burguesa.

E a certeza de que não bastam as pedras de Tegucigalpa.

* Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB.
Rio, 19 de agosto de 2009

18 de agosto de 2009

Honduras e a SIP - Por: Atilio A. Boron


O prolongamento da crise em Honduras não tem um efeito neutro, pois joga a favor dos golpistas. O repúdio e o isolamento universais não impressionam os usurpadores. Muito pelo contrário: confirmam sua visão paranóica de um mundo dominado por comunistas, subversivos e revolucionários que conspiram sem cessar para frustrar sua patriótica iniciativa. Tanto os militares como os civis hondurenhos golpistas compartilham esse delírio que continua sendo alimentado, dia após dia, pelo Pentágono, pela CIA e boa parte do establishment político do império, para os quais a guerra não terminou nem vai terminar jamais.

Guerra sobretudo contra esse imenso e inesperado movimento social que se tem posto em marcha a partir do golpe e que ultrapassa ampla - e talvez irreversivelmente - os estreitos marcos da mal chamada "democracia representativa" em Honduras. Bastou que Zelaya pretendesse honrar essa fórmula para que a santa aliança abandonasse em tropel as cavernas e saísse à batalha: ali se juntaram, para unir forças, os representantes militares e políticos do império com a corrupta oligarquia local, a perversa hierarquia da Igreja Católica, as diversas frações do patronato e o poder midiático que este conglomerado de riqueza e privilégio controla em seu entorno, fazendo da liberdade de imprensa uma farsa sangrenta.

Não é casualidade que o sítio da internet da benemérita Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), sempre tão atenta diante de tudo o que acontece com os meios de comunicação em Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador, ocultou descaradamente o que está acontecendo em Honduras. A resolução mais importante sobre o tema dos meios de comunicação, adotada em 24 de julho, é uma condenação... ao presidente Rafael Correa, por apoiar "incessante clima de confrontação e injúrias contra jornalistas, proprietários de meios de comunicação e suas empresas" Nenhuma palavra sobre Gabriel Fino Noriega, jornalista hondurenho da Rádio Estelar, assassinado por forças paramilitares, como informa a Missão da ONU enviada para investigar a situação dos direitos humanos em Honduras.

A mesma delegação comprovou que Tegucigalpa, Canal 36, Rádio TV Maya e Rádio Globo foram militarizadas, constatando-se também o assalto a diversas sedes de meios de comunicação e ameaças de morte contra jornalistas, o bloqueio de suas transmissões ou a interceptação telefônica e o bloqueio de seu acesso à internet. A missão também confirmou o metralhamento da cabine de transmissão da Rádio Juticalpa, em Olancho, e as ameaças de morte feitas contra jornalistas como o diretor do diário El Libertador, Johnny J. Lagos Enríquez e o jornalista Luis Galdanes.

Na cidade de Progresso, os militares silenciaram as transmissões de Rádio Progresso, sendo hostilizado seu diretor o sacerdote jesuíta Ismael Mareno, e detido temporariamente um de seus jornalistas enquanto outros recebiam ameaças de morte. Outro caso é o do Canal 26, TV Atlântida, cujo diretor declarou ante a missão da ONU que os militares ordenaram aos meios de comunicação do Estado que estes deveriam abster-se de transmitir outras versões ou informações que não emanassem do governo de fato.

Ante a agressão sofrida pelos jornalistas da Telesur e Venezuelana de Television - sem cujo valente trabalho o mundo jamais haveria acompanhado o que ocorreu em Honduras - a SIP se limitou a emitir um tímido comunicado lamentando os fatos; em troca, emitiu uma resolução dura contra Correa.

Seria muito longo enumerar todas as violações à liberdade de imprensa e dos direitos humanos, à parte do assassinato de Noriega, que passaram desapercebidas frente os atentos censores da SIP e seus doutrinários, Mario Vargas Llosa e a pandilha dos "mais-que-perfeitos idiotas latino-americanos". Seu silêncio cúmplice revela a descompostura moral do império, suas permanentes mentiras e a impunidade com a qual se movem esses falsos defensores da "liberdade de imprensa". E diante deste cenário, a Secretária de Estado Hillary Clinton se atreve a qualificar como imprudente o gesto de Zelaya de viajar à fronteira de seu país! Ao passo que seu porta-voz, Philip Crowley, advertia contra "qualquer ação que possa conduzir à violência" em Honduras.

Já falta muito pouco para que Washington comece a declarar que o verdadeiro golpista é Zelaya e que foi ele e não outro quem arrastou seu país a um caos de violência e morte. A promessa de novas negociações a cargo da Casa Branca só servirá para desfigurar ainda mais a verdade e inclinar o fiel da balança a favor dos golpistas e seus mandantes.

Traduzido por Dario da Silva.

7 de agosto de 2009

SETE PUNHAIS NO CORAÇÃO DE AMÉRICA - Por Fidel Castro


Leio e torno a ler dados e artigos realizados por personalidades inteligentes, conhecidas ou pouco conhecidas, que escrevem para diversos meios e extraem a informação de fontes que não questionadas por ninguém.

Os povos que habitam o planeta, em todas as partes, correm riscos econômicos, ambientais e bélicos, derivados da política dos Estados Unidos da América, mas em nenhuma outra região da terra vem-se ameaçados por tão graves problemas como seus vizinhos, os povos localizados neste continente ao Sul daquele país hegemônico.

A presença de tão poderoso império que em todos os continentes e oceanos dispõe de bases militares, porta-aviões e submarinos nucleares, navios de guerra modernos e aviões de combate sofisticados, portadores de todo o tipo de armas, centos de milhares de soldados, cujo governo reclama para eles impunidade absoluta, constitui a dor de cabeça mais importante de qualquer governo, seja de esquerda, centro ou direita aliado ou não dos Estados Unidos da América.

O problema, para os que somos seus vizinhos, não é que lá se fale outra língua e seja uma nação diferente. Há norte-americanos de todas as cores e todas as origens. São pessoas iguais do que nós e capazes de qualquer sentimento em um senso ou outro. A questão dramática é o sistema que foi desenvolvido ali e imposto a todos. Tal sistema não é novo ao respeito do uso da força e os métodos de domínio que tem prevalecido ao longo da história. O novo é a época que nós vivemos. Tratar o assunto desde pontos de vista tradicionais é um erro e não ajuda ninguém. Ler e saber o que pensam os defensores do sistema, ilustra muito, porque significa estar cientes da natureza de um sistema apoiado na constante apelo ao egoísmo e aos instintos mais primários das pessoas.

Caso não existir a convicção do valor da consciência, e sua capacidade de prevalecer sobre os instintos, não poderia expressar-se sequer a esperança de mudança em qualquer período da brevíssima história do homem. Também não poderiam compreender-se os terríveis obstáculos que encaram os diferentes líderes políticos nas nações latino-americanas ou ibero-americanas do hemisfério. Em último termo, os povos que viviam nesta área do planeta desde há dezenas de milhares de anos, até a famosa descoberta da América, não tinham nada de latinos, de ibéricos ou de europeus; suas características eram mais parecidas à dos asiáticos de onde procederam seus antepassados. Hoje os vemos nas faces dos índios de México, América Central, Venezuela, Colômbia, Equador, Brasil, Peru, Bolívia, Paraguai e Chile, um país onde os araucanos escreveram páginas inesquecíveis. Em certas zonas do Canadá e no Alasca conservam suas raízes indígenas com toda a pureza possível. Mas no território principal dos Estados Unidos da América a grande parte dos antigos povoadores foi exterminada pelos conquistadores brancos.

Como todo o mundo sabe, milhões de africanos foram tirados de suas terras para trabalhar como escravos neste hemisfério. Em algumas nações como Haiti e grande parte das ilhas do Caribe, seus descendentes constituem a maioria da população. Em outros países formam amplos setores. Nos Estados Unidos da América os descendentes de africanos constituem dezenas de milhões de cidadãos que, geralmente, são os mais pobres e discriminados.

Ao longo de séculos essa nação reclamou direitos privilegiados sobre o nosso Continente. Nos anos de Martí tentou impor uma moeda única baseada no ouro, um metal cujo valor tem sido o mais constante o longo da história. Geralmente o comércio internacional baseia-se nele. Hoje nem sequer isso. Desde os tempos de Nixon, o comércio mundial foi instrumentado com notas de papel impresso pelos Estados Unidos de América: o dólar, uma divisa que hoje tem um valor por volta de 27 vezes menor do que no começo da década dos 70, uma das tantas maneiras de dominar e calotear o resto do mundo. Hoje, no entanto, outras divisas substituem o dólar no comércio internacional e nas reservas de moedas conversíveis.

Se por um lado as divisas do império são desvalorizadas, por outro suas reservas militares crescem. A ciência e a tecnologia mais moderna, monopolizada pela superpotência, foram orientadas consideravelmente para o desenvolvimento das armas. Atualmente não se fala só em milhares de projéteis nucleares, ou do poder destrutivo moderno das armas convencionais; se fala em aviões sem pilotos, tripulado por autômatos. Não se trata uma simples fantasia. Já estão sendo usadas algumas naves aéreas desse tipo no Afeganistão e outros pontos. Recentes relatórios mostram que em um futuro relativamente próximo, no 2020, muito antes de que o casquete do Antártida se derreta, o império, entre seus 2 500 aviões de guerra, projeta dispor de 1100 aviões de combate F-35 e F-22, em suas versões de caça e bombardeiros da quinta geração. Pará para ter uma idéia desse potencial, baste dizer que os que dispõem na base de Soto Cano, nas Honduras, para o treinamento de pilotos desse país são F-5; os que forneceram às forças aéreas, da Venezuela, antes de Chávez, ao Chile e outros países, eram pequenas esquadrilhas de F-16.

Mais importante ainda, o império projeta que no decurso de 30 anos todos os aviões de combate dos Estados Unidos da América, desde os caças até os bombardeiros pesados e os aviões cisterna, serão tripulados por robôs.

Esse poderio militar não é uma necessidade do mundo, é uma necessidade do sistema econômico que o império impõe ao mundo.

Qualquer um pode entender que se os autômatos podem substituir aos pilotos de combate, também podem substituir aos operários em muitas fábricas. Os acordos de livre comércio que o império tenta de impor aos países deste hemisfério, implica que os trabalhadores terão que competir com a tecnologia avançada e os robôs da indústria ianque.

Os robôs não fazem greves, são obedientes e disciplinados. Já vimos pela televisão às máquinas que coletam às maçãs e outras frutas. É necessário fazer também a pergunta aos trabalhadores norte-americanos. Onde estarão as vagas? Qual é o futuro que o capitalismo sem fronteiras, em sua fase avançada do desenvolvimento designa aos cidadãos?

Ao lumiar de esta e de outras realidades, os governantes dos países da UNASUL, do MERCOSUL, do grupo de Rio e de outros, não podem deixar de analisar a justa pergunta venezuelana. Qual é o sentido das bases militares e navais que os Estados Unidos querem estabelecer ao redor da Venezuela e no coração da América do Sul? Lembro que há vários anos, quando entre a Colômbia e a Venezuela, duas nações irmãs pela geografia e pela história, as relações viraram perigosamente tensas, Cuba promoveu em silêncio importantes passos de paz entre ambos os países. Os cubanos jamais estimularemos a guerra entre países irmãos. A experiência histórica, o destino manifesto proclamado e aplicado pelos Estados Unidos, e a fraqueza das acusações contra a Venezuela de fornecer armas às FARC, associadas às negociações com o propósito de conceder sete pontos do seu território para uso aéreo e naval das Forças Armadas dos Estados Unidos, obrigam iniludivelmente a Venezuela a fazer investimentos em armas, recursos que poderiam ser empregues na economia, nos programas sociais e na cooperação com outros países da área com menos desenvolvimento e recursos. Não se arma a Venezuela contra o povo irmão da Colômbia, arma-se contra o império, que tentou já derrocar a Revolução e hoje tenta instalar nos arredores da fronteira venezuelana as suas armas sofisticadas.

Seria um erro grave pensar que a ameaça é apenas contra a Venezuela; é dirigida a todos os países do Sul do continente. Nenhum poderia iludir o tema e dessa maneira o têm declarado vários deles.

As gerações presentes e futuras julgarão os seus líderes pela conduta que adoptarem neste momento. Não se trata só dos Estados Unidos, mas sim dos Estados Unidos e do sistema. O que é que oferece? O que é que busca?

Oferece a ALCA, isto é, a ruína antecipada de todos os nossos países, o livre trânsito de bens e de capital, mas não livre trânsito de pessoas. Agora experimentam o temor de que a sociedade opulenta e consumista seja alagada de latinos pobres, índios, negros e mestiços ou brancos sem emprego em seus próprios países. Devolvem todos aqueles que cometem um erro ou sobram. Muitas vezes matam-nos antes de entrarem, ou os retornam como rebanhos quando não precisam deles; 12 milhões de imigrantes latino-americanos ou caribenhos são ilegais nos Estados Unidos. Em nossos países surgiu uma nova economia, principalmente nos mais pequenos e pobres: a das remessas. Quando há crise, ela fustiga, sobretudo os imigrantes e seus familiares. Pais e filhos são separados de maneira cruel, às vezes para sempre. Se o imigrante tem idade militar, outorgam-lhe a possibilidade de alistar-se para combater a milhares de quilômetros de distância, “em nome da liberdade e da democracia”. Quando regressam, se não morrem, lhe é concedido o direito a serem cidadãos dos Estados Unidos. Como estão bem treinados oferecem-lhe a possibilidade de serem contratados não como soldados oficiais, mas sim como civis soldados das empresas privadas que prestam serviços nas guerras imperiais de conquista.

Existem mais outros gravíssimos perigos. Constantemente chegam notícias dos emigrantes mexicanos e de outros países de nossa área que morrem quando tentam atravessar a atual fronteira entre o México e os Estados Unidos. Todos os anos a cota de vítimas ultrapassa com cresces a totalidade dos que perderam a vida nos quase 28 anos de existência do famoso muro de Berlim.

O mais incrível ainda é que quase não circula pelo mundo a notícia de uma guerra que neste momento custa milhares de vidas por ano. Em 2009, já morreram mais mexicanos do que os soldados norte-americanos que morreram na guerra de Bush contra o Iraque ao longo de toda sua administração.

A guerra no México foi desatada por causa do maior mercado de drogas que existe no mundo: o dos Estados Unidos. Porém, dentro de seu território não existe uma guerra entre a polícia e as forças armadas dos Estados Unidos lutando contra os narcotraficantes. A guerra foi exportada para o México e a América Central, mas principalmente para o país asteca, o mais próximo do território dos Estados Unidos. São horríveis as imagens divulgadas pela televisão, de cadáveres amontoados e as notícias que chegam de pessoas assassinadas nas próprias salas cirúrgicas onde tentavam salvar-lhes a vida. Nenhuma dessas imagens procede de território norte-americano.

Essa onda de violência e sangue estende-se em maior ou menor grau pelos países da América do Sul. Donde provém o dinheiro senão do infinito manancial que emerge do mercado norte-americano? Por sua vez, o consumo tende também a se estender aos outros países da área, causando vítimas e mais dano direto ou indireto do que a AIDS, o paludismo e outras doenças juntas.

Os planos imperiais de dominação vão precedidos de enormes somas designadas para as tarefas de mentir e desinformar a opinião pública. Para isso contam com a total cumplicidade da oligarquia, da burguesia, da direita intelectual e da mídia.

São especialistas em divulgar os erros e as contradições dos políticos.
A sorte da humanidade não deve ficar nas mãos de robôs convertidos em pessoas ou de pessoas convertidas em robôs.

No ano 2010, o governo dos Estados Unidos utilizará 2 200 milhões de dólares através do Departamento de Estado e da USAID para promover sua política, 12% a mais do que os recebidos pelo governo de Bush no último ano do seu mandato. Deles, quase 450 milhões serão destinados a demonstrar que a tirania imposta ao mundo significa democracia e respeito aos direitos.

Apelam constantemente ao instinto e ao egoísmo dos seres humanos; desprezam o valor da educação e da consciência. É evidente a resistência demonstrada pelo povo cubano ao longo de 50 anos. Resistir é a arma à qual não podem renunciar jamais os povos; os porto-riquenhos conseguiram fazer com que acabassem as manobras militares em Vieques, colocando-se no polígono de tiro.

A pátria de Bolívar hoje é o país que mais lhes preocupa, por seu papel histórico nas lutas pela independência dos Povos da América. Os cubanos que ali prestam seus serviços como especialistas na saúde, educadores, professores de educação física e desportos, informática, técnicos agrícola, e outras áreas, devem dá-lo tudo no cumprimento dos seus deveres internacionalistas, para demonstrar que os povos podem resistir e serem portadores dos princípios mais sagrados da sociedade humana. Caso contrário o império destruirá a civilização e própria espécie.


Fidel Castro Ruz
Agosto 5 de 2009
11h16

EUA MOSTRA AS GARRAS PARA A AMAZONIA - O Partido Comunista Colombiano rechaça a presença militar estadunidense na Colômbia


A entrega de várias bases militares colombianas, por meio do tratado que o governo de Álvaro Uribe negocia com os Estados Unidos, implica o uso indiscriminado por parte de tropas, aviões e navios de guerra estadunidenses do território, do espaço aéreo e marítimo, em um ato de extrema gravidade que põe a Colômbia no lugar de peão principal do imperialismo no continente.

A entrega destas cinco bases militares é um ato deliberado e intencional que rompe a soberania nacional nos seus quatro pontos cardeais em benefício de propósitos e estratégias alheias aos direitos dos povos. É ademais um ato ilegal porque vai contra princípios constitucionais e não consulta o interesse nacional através dos órgãos do poder público e das instâncias sociais e políticas, que deviam discutir esta flagrante violação à dignidade do povo colombiano.

Por que o máximo segredo em torno desta tenebrosa negociação? Que mais escondem os militares estadunidenses e seus congêneres colombianos? É este o novo trato do governo estadunidense para o continente? O sigilo é mostra clara do nefasto conteúdo do acordo. Washington pretende converter a Colômbia em plataforma de ameaça e agressão contra os governos democráticos de esquerda, que têm obtido vitórias eleitorais e populares em todo o continente, com a vergonhosa cumplicidade de Uribe Vélez, empenhado em ganhar méritos diante de seus amos para legitimar sua segunda reeleição, à custa da prolongação indefinida do conflito contra insurgente.

O Partido Comunista Colombiano se pronuncia contra semelhante decisão, que comporta uma clara traição ao legado bolivariano, em plena comemoração dos duzentos anos do fim da submissão à Espanha. Ao mesmo tempo, chama ao conjunto do povo colombiano, sem distinções de nenhum tipo, a levantar-se com orgulho, dignidade patriótica e latinoamericanidade em rechaço ao golpe militar em Honduras, pela restituição do presidente Zelaya a seu cargo; em exigência de que o Estado colombiano renuncie a toda pretensão agressiva frente a outros Estados irmãos e à política de estender o conflito interno aos países vizinhos.

O Partido Comunista Colombiano apoia os protestos convocados para o dia 28 de julho em Bogotá. Exorta às forças sociais progressistas a levantarem a bandeira da unidade latinoamericana e a irmandade bolivariana como estandarte de uma nova política libertadora e democrática. Chama à maior convergência de forças em torno da busca da paz com justiça social, soberania, diálogo e acordos humanitários.

PARTIDO COMUNISTA COLOMBIANO

Integrante do Polo Democrático Alternativo

Bogotá, 27 de julho de 2009

30 de julho de 2009

“JUSTA CAUSA” - Por: Laerte Braga [*]



Tente associar a figura do presidente golpista de Honduras Roberto Michelletti a de políticos brasileiros para que se possa ter uma idéia mais clara do que de fato acontece em Honduras. José Sarney? Fernando Henrique Cardoso? José Serra? Artur Virgílio? Tasso Jereissati? Aécio Neves? Onze entre dez senadores?

A soma de todos eles e mais alguma coisa de lambuja.

O poder de figuras como Michelletti se constrói nas perigosas relações entre grupos econômicos e políticos. Para que se compre o presidente do Senado José Sarney, ou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é preciso que haja um comprador. Um Ermírio de Moraes, um Daniel Dantas, etc. Um banco Itaú da vida.

Por exemplo. Os que “compraram” a VALE (foi doada). Ou os que contribuíram para a campanha da reeleição em 1998 – a Telefónica Espanhola –. Seja na campanha propriamente dita ou na compra de deputados e senadores para aprovar a reeleição.

O fim da União Soviética resultou na imposição de um modelo político e econômico único. Ditado a partir dos interesses do conglomerado de empresas, bancos e latifúndios que conhecemos como Estados Unidos. O formidável arsenal militar norte-americano garante e assegura esse modelo. São bases militares espalhadas pelo mundo inteiro para garantir a “paz”.

Quando a União Soviética invadiu o Afeganistão os norte-americanos financiaram Osama bin Laden e a guerrilha Talebã para combater os “invasores”. Osama bin Laden é de uma família saudita do ramo de petróleo e construção civil – empreiteiros – e o que existe de obra pública no Sudão, por exemplo, foi feito a partir do engenheiro civil Osama bin Laden. São sócios da família Bush no negócio do petróleo. Isso está revelado com todas as letras no documentário “O 11 de setembro” do diretor Michael Moore. Naquele dia o único avião a levantar vôo num aeroporto norte-americano foi para levar os bin Laden à Arábia Saudita. Estavam em visita de negócios aos EUA.

A ordem partiu diretamente do presidente George Bush.

Eleito presidente dos EUA em 1980 o ator Ronald Reagan iniciou uma aproximação com o ditador iraquiano Saddam Hussein e financiou em seguida a guerra Iraque versus Irã. Armas químicas e biológicas foram usadas num conflito que matou milhões de pessoas. O objetivo de Reagan era derrubar o que chamam de “regime dos aiatolás”, mas é a revolução popular islâmica.

Foi no governo de George Bush pai que o ditador do Iraque invadiu o Kwait como “prêmio” por sua “colaboração” com a “paz mundial”. E foram alguns meses depois que Bush percebeu que Saddam Hussein acumulara tal poder em petróleo – com o Kwait – que era necessário eliminar o já ex-aliado. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes assim o exigiam, tudo em nome dos negócios.

E foi assim que aconteceu a primeira guerra do golfo.

Esse tipo de política cínica, imperialista, é típica dos norte-americanos desde que foi proclamada a independência do país. Roubaram ao México a Califórnia e o Texas.

Intervenções militares norte-americanas na América Central foram e são rotina desde o século XIX. No século XX um presidente dos EUA, Theodore Sorensen Roosevelt, definiu essa política como sendo a do “big stik” – grande porrete –. Em países como Cuba, República Dominicana, Nicarágua, Honduras, El Salvador, associaram-se generais corruptos, empresários, latifundiários e a United Fruit tornou-se dona, literalmente, dos negócios. Associou-se às elites locais (bem remuneradas, vale dizer, bem compradas) e isso incorporava o crime organizado. Tráfico de drogas, mulheres, contrabando, jogo, toda a sorte de bandalheiras possíveis.

Se um ditador como Trujillo – República Dominicana – tinha delírios de faraó e mudava o nome da capital do seu país para Ciudad Trujillo e isso causava engulhos a alguns políticos norte-americanos, na hora de conferir o balanço os engulhos sumiam. Somoza, cuja família governou a Nicarágua por décadas, vendia a mãe na feira se significasse lucro.

Yes, nós temos banana. Um dos principais produtos de exportação desses países e tudo sob a batuta da United Fruit.

E nem estou falando no território ocupado de Porto Rico que, em manobra característica de imperialistas, agregaram aos EUA como se estado norte-americano fosse. O Panamá foi “inventado” no final do século XIX, início do século XX para que pudessem controlar o canal e assim melhorar os lucros nos negócios.

Parte arrancada da Colômbia.

Não era diferente na América do Sul. Financiavam ditaduras como a de Marco Perez Jimenez na Venezuela. Ou de Rojas Pinilla na Colômbia. Uma infinidade de ditadores na Bolívia, um general ou um coronel por semana, por dia. E mantinham governos ditos democráticos sob controle.

Ao longo de todo esse processo revoluções populares foram sendo esmagadas. Sandino, José Martí, Arbenz e outros. Quando Trujillo foi derrubado, logo inventaram Joaquim Balaguer, ministro do ditador. Nas primeiras eleições livres na República Dominicana venceu Juan Bosh. Como tratou de cuidar dos interesses de seu povo foi deposto pelos EUA. Na forma usual. A soma de generais corruptos com elites podres e malas de dinheiro, pronto, está aí o golpe.

Ao receber um relatório sobre direitos humanos no Brasil durante o governo do ditador Médice, o presidente Nixon disse que “lamentava”, mas “fazer o que, ele é um bom aliado”. Cinismo à potência máxima. A lógica dos negócios.

A revolução cubana foi um marco. Fidel Castro, Guevara, o início de uma nova época, uma nova etapa da luta popular na América Latina.

Em 1961 percebendo a ânsia dos povos latino-americanos de livrarem-se do jugo capitalista o presidente John Kennedy criou um programa chamado Aliança para o Progresso. A pretexto de combate à pobreza. Toneladas de leite em pó com esterilizadores foram distribuídos em países latino-americanos junto com agentes da CIA e convênios com a Agência Internacional de Desenvolvimento – USAID –, a substituição do porrete, da areia, pela vaselina.

Chegam aí, pela primeira vez à América do Sul pastores neopentecostais ligados ao líder “religioso” Billy Graham. Entram pelo Chile e começam a formar os “edir macedo” de hoje.

Todo um conjunto de grupos, fatos, todo um processo de dominação.

Manuel Noriega era um tenente-coronel do exército do Panamá que cismou de acrescentar aos ganhos normais (soldo, contribuição da CIA, etc, etc, propinas) o fantástico lucro do mundo do tráfico de drogas. Não afetou em nada os negócios com os EUA....

E, assim o foi até o dia que o escândalo explodiu na imprensa dos EUA e George Bush para abafar a cumplicidade nos negócios entre empresas norte-americanas e elites panamenhas, mandou invadir o Panamá, destituir o aliado Noriega, que ainda por cima cismara de nacionalizar o canal e prendê-lo.

“Operação Justa Causa”, em 1989. Milhares de civis panamenhos morreram durante as atrocidades cometidas por fuzileiros dos EUA. Noriega exilou-se na Nunciatura Apostólica – embaixada do Vaticano – e acabou entregue pelo núncio – embaixador – ao governo de Bush. Foi levado de avião para Miami, antes que pudesse abrir a boca e trancafiado numa cela. Condenado a trinta anos de prisão.

René Barrientos, Ovando Candia, generais bolivianos que enfrentaram a guerrilha liderada por Chê Guevara, eram notórios traficantes de drogas, mas aliados sustentados pelos EUA.

Todo o espectro de terror que varreu a América Latina nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado, que pode ser sintetizado na Operação Condor, foi montado nos EUA.

Operação Condor foi a associação dos aparelhos repressores de países governados por generais a serviço dos EUA. Eufemismo para o assassinato de líderes de oposição como Orlando Letelier (chileno, ex-ministro de Allende). Carlos Pratt (general chileno que se opunha a Pinochet). Juan José Torres, ex-presidente da Bolívia que se opôs aos EUA. Um sem número de militantes de movimentos de luta contra as ditaduras nessa parte do mundo. Presos, torturados, assassinados, mulheres estupradas, famílias devastadas pela violência e boçalidade dos ditadores e seus esbirros, toda essa mancha sombria que cobre a nossa História e aqui, em nosso País, ainda permanece oculta e livres os torturadores.

A principal base de operações dos EUA na América Central é Honduras. O país chegou a ser ironicamente chamado de “porta-aviões norte-americano”.

A Colômbia se presta hoje a esse papel na América do Sul. A mesma lógica que levou Kennedy a criar a Aliança para o Progresso e permitiu a construção do processo golpista.

Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, é narcotraficante. A denúncia foi feita pelo próprio departamento de combate ao tráfico do governo dos EUA.

O fato de Uribe ter construído sua carreira política a soldo de Pablo Escobar, um dos maiores traficantes da América do Sul, não é empecilho para uma aliança com os norte-americanos, desde que os norte-americanos possam manter o controle dos negócios e possam montar políticas golpistas contra governos populares. O de Chávez, o de Evo Morales, o de Rafael Correa, o de Fernando Lugo. Ou manter o governo brasileiro de Lula dentro de limites aceitáveis para o império e com vergonhosa contribuição na presença militar do Brasil no Haiti.

E acima de tudo impedir que essa parte do mundo, a América Latina, forme um bloco político e econômico à revelia dos interesses de Wall Street/Washington, ganhe dignidade e nós, latino-americanos, tenhamos a nossa identidade estampada na nossa real liberdade a ser conquistada, como estão conquistando outros irmãos latinos.

Isso não interessa a Washington e pouco importa que seja Obama ou Bush, a política é a mesma variando apenas o estilo. No caso de Obama há outros aspectos a serem levados em conta. Mas isso é outra história.

Roberto Michelletti é um mafioso, filho de italianos, que construiu sua carreira política associado a elites hondurenhas. Existem aos montes aqui no Brasil. Uma espécie de Gilmar Mendes que se Daniel Dantas pedir as botas, lustra com a própria língua para agradar ao chefe e receber mimos maiores.

O presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya não é necessariamente um homem de esquerda. É um dono de terras, madeireiro, de um partido de centro-direita. Num determinado momento resolveu ouvir o povo de seu país sobre que rumos os hondurenhos queriam para Honduras e para eles.

Elites imaginam que povo seja aquela massa disforme, sem rosto, que apinha ônibus em direção às suas fábricas, às suas fazendas, na exploração brutal e violenta do trabalho escravo que assistimos a cada dia, a cada minuto, não importa que se possa comprar uma calça, ou um tênis de marca. Essa é uma das marcas da escravidão. O carimbo carimbado na testa das classes médias. O chicote nas costas dos trabalhadores e camponeses.

Ouvir o povo significa contrariar os negócios. Depuseram Zelaya. Comprar um general não é tão difícil assim. Boa parte se acha à venda no patriotismo canalha de sempre. O que não quer dizer que não existam militares decentes. A história está cheia de exemplos de gente assim, íntegra.

Mas transborda de canalhas.

Michelletti traz consigo a garantia às empresas norte-americanas, às elites hondurenhas, ao tráfico de drogas – foi apontado como financiado pelo tráfico em suas campanhas –, o tráfico de mulheres e a prostituição, o jogo, toda a sorte de negócios. E de quebra a bênção do cardeal hondurenho e o silêncio cúmplice de Bento XVI.

Foi só entregar a borduna a generais e seus comandados que o golpe estava desfechado e o povo hondurenho mantido sob o domínio dos senhores de terras, de empresas, de tudo o que significa lucro, ganho.

A condenação do presidente Obama ao golpe foi formal. Como se costuma dizer, para inglês ver. O cinismo logo desvelado na postura da secretária de Estado Hilary Clinton. Ou na ação de senadores e empresários norte-americanos. De traficantes de Miami.

Não contavam com a reação do povo hondurenho. Nem de longe imaginavam que os cidadãos estavam dispostos a resistir, como os venezuelanos resistiram ao golpe contra Chávez em 2002 e o recolocaram no governo, confirmando-o em sucessivas eleições e referendos.

Controlam a mídia, controlam a mente das pessoas, mas não conseguem controlar a incontrolável vontade de encontrar a dignidade nacional e construir um país, a nação, com o rosto e a marca de cada latino-americano, somos um povo só em muitos povos.

E o velho porrete. Prisões, tortura, estupros, assassinatos, o cinismo dos direitos humanos nas bombas atiradas de dentro de ambulâncias da Cruz Vermelha contra manifestantes pró-Zelaya.

Zelaya, Ortega, Chávez, todos simbolizam em maior ou menor escala, não importa, o ideal de luta de povos oprimidos e que muitas vezes nem se percebem assim, tamanhas as doses cavalares de colonização aplicadas em injeções diárias de redes de tevês como a GLOBO aqui, ou jornais como a FOLHA DE SÃO PAULO, ou revistas como a VEJA, em todo o processo de controle das informações. Não foi diferente em Honduras.

Você pode saber que o nariz de Michael Jackson está desaparecido. Você não pode saber que milhares de hondurenhos estão desaparecidos, muitos foram assassinados, mulheres estupradas, que milhares estão sem alimentos, sem água, sem medicamentos, mas resistem.

Não é uma ação isolada. É só o capitalismo em sua forma mais selvagem, vivendo uma de suas muitas crises. Que leva, por exemplo, mulheres espanholas a se prostituírem para manter em dia as contas das lojas nos shoppings. O modelo político e econômico não permite que as pessoas se deixem mostrar fracas, pois o capitalismo é o triunfo dos fortes, vale dizer, dos opressores.

Pouco importa que o primeiro-ministro da Itália seja Sílvio Berlusconi e que Berlusconi, um banqueiro, queira eleger prostitutas para o parlamento de seu país, para o parlamento europeu. Importa que Berlusconi siga à risca as regras do negócio.

O mal menor aí são as prostitutas. Ou prostitutas são figuras como Berlusconi. Como Obama. Como Michelletti. Como Sarney. Como FHC. Como Serra. Como Aécio. Como Jereissati. Existem em toda a América Latina.

Se Uribe se mantiver na linha, traficar seus “bagulhos” sem maiores atropelos, ou sem afetar os negócios, os bagulhos também são negócios, fica lá impávido defensor da democracia. Onde você acha que o dinheiro desses caras vai? Para os bancos deles, lógico.

Chamam isso de “operação justa causa”. No Iraque foi “justiça infinita”. No Afeganistão foi “liberdade duradoura”.

Matam hondurenhos, matam palestinos, matam colombianos, matam afegãos, matam iraquianos. Seqüestram, torturam, mantêm um campo de concentração em Guantánamo.

Imagine se não fosse “justa causa”.

[*] Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, trabalhou no Estado de Minas e no Diário Mercantil.

15 de julho de 2009

Obamismo: guerra e militarismo


"…Se com Obama é mais fácil ganhar os aliados para a guerra e o militarismo, não é menos verdade que os povos não funcionam de acordo com o relógio do império. (…) "O planeado aumento do contingente militar e da artilharia pesada [no Afeganistão] não é nenhuma alternativa e apenas vai aumentar o sofrimento das populações, as perdas de ambos os lados, provocar mais violência, terror e vítimas. A única alternativa é a urgente retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão". Por muito mediático que seja o "obamismo" os povos odeiam a guerra e o militarismo".
Rui Paz - 12.07.09

As tropas de Obama iniciaram mais uma ofensiva militar no Afeganistão para tentar liquidar a resistência contra a ocupação estrangeira e se possível fazer alastrar o conflito ao Paquistão, um Estado possuidor de armas nucleares. A chamada "operação paz duradoura" que sustenta a agressão militar dos EUA e da NATO resulta de um acto unilateral que afronta a Carta das Nações Unidas e os princípios do Direito Internacional.
Se a guerra contra o Iraque visou fundamentalmente a afirmação da supremacia dos Estados Unidos sobre os restantes aliados da NATO e o controlo exclusivo por Washington do petróleo iraquiano, hoje, ao intensificar a agressão militar no Afeganistão, Obama pretende arrastar os aliados europeus para a guerra e o esmagamento dos povos que se levantem contra o imperialismo. Os Estados Unidos já sabem que, apesar de todo o seu poderio militar e económico, não podem impor sozinhos a sua nova ordem mundial.
É essa a razão porque o presidente norte-americano, apesar de cobrir de verniz moralista muitas das suas habituais pregações é o primeiro a esconder e silenciar sistematicamente os assassínios e massacres perpetrados pelas tropas norte-americanas nas aldeias afegãs. É isto que está a levar a direita conservadora, os amigos reaccionários de Bush, e os militaristas de todos os matizes a sair das tocas onde tinham hibernado com receio de uma "possível mudança", e a converter-se em menos de um ápice ao "obamismo".
Mas, se com Obama é mais fácil ganhar os aliados para a guerra e o militarismo, não é menos verdade que os povos não funcionam de acordo com o relógio do império. Na Alemanha, as últimas sondagens continuam a revelar que mais de dois terços da população opõem-se à participação das Forças Armadas na ocupação militar do Afeganistão. O Governo de Ângela Merkel e da social-democracia continua a negar oficialmente que a Alemanha esteja em guerra, apesar de cada vez mais soldados regressarem ao Reno em macas e caixões. A Constituição alemã e o Código Penal prevêem pesadas penas de prisão para os responsáveis pela "preparação e desencadeamento de uma guerra de agressão" (art.26).
Para obrigar o povo e os soldados a aceitar o militarismo como parte integrante da actual política externa alemã, o ministro da Defesa Jung acaba de criar a "ordem de honra da Bundeswehr pela coragem". É a primeira vez, desde o regime hitleriano e do nazismo que soldados alemães voltam a ser condecorados por participarem em guerras no estrangeiro.
Ao intervir no recente debate no Bundestag sobre a utilização de aviões-radar AWACS e o aumento dos efectivos militares alemães no Afeganistão, o deputado Norman Paech, em nome dos 60 deputados que compõem o grupo parlamentar do partido "A Esquerda" desmascarou a chanceler Ângela Merkel esclarecendo que "no Afeganistão reina a guerra e a Bundeswehr está cada vez mais enredada neste círculo infernal. O número de vítimas aumenta de forma dramática semana após semana. As tropas estrangeiras não são aceites como libertadoras mas como exército de ocupação (...) O planeado aumento do contingente militar e da artilharia pesada não é nenhuma alternativa e apenas vai aumentar o sofrimento das populações, as perdas de ambos os lados, provocar mais violência, terror e vítimas. A única alternativa é a urgente retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão".
Por muito mediático que seja o "obamismo" os povos odeiam a guerra e o militarismo.
Este texto foi publicado em Avante nº 1.859 de 9 de Julho de 2009 http://www.odiario.info