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16 de agosto de 2011

“Comoção e pavor” nos Estados Unidos pelo ataque dos talibãs

“Comoção e pavor” nos Estados Unidos pelo ataque dos talibãs


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Crédito: Nordeste1.com.br
Pepe Escobar (Asia Times Online)

Traduzido do inglês para Rebelión por Germán Leyens

É preciso falar de um duplo golpe. Não bastou a Standard Poor's rebaixar a qualificação creditícia dos Estados Unidos; com uma sincronização impecável e aparentemente de um só tiro, os talibãs, no Afeganistão, diminuíram simultaneamente o valor da colossal maquinaria bélica do império.

Por mais que a elite do poder dos Estados Unidos se negue a aceitar que sua crise financeira foi causada por anos de cortes tributários de George W. Bush para os ricos e para as megacorporações, massivos resgates de bancos e companhias seguradoras e astronômicas despesas militares no declínio do Pentágono da Guerra Prolongada, a elite também se negará a reconhecer que a “nova” estratégia da guerra no Afeganistão também é um fracasso.

Chinook derrubado

O ruído desse helicóptero de transporte Chinook CH-47 derrubado por uma granada propulsada por foguete (RPG) na província de Wardak, ao sudoeste de Kabul, na sexta-feira, matando 38 pessoas, incluindo 19 SEAL (tropas especiais) da Armada norte-americana e sete comandos afegãos, foi o som digital full do império comovido e intimidado até à incredulidade; não importa quantos esforços faça o Pentágono para ordenar praticamente aos meios que “não dêem demasiada importância” à derrubada.

Wardak, junto com a vizinha Logar, é agora um terreno de primeira de "Talibanistão". Estão arraigados, conhecem o terreno em detalhes e, inclusive, têm tempo para preparar operações complexas. Além disso, os talibãs estão “conseguindo progresso” (jargão do Pentágono) não só em sua perícia nas relações públicas e na adaptação de novas armas para o campo de batalha, mas também na mecânica de dar um importante golpe psicológico nas forças ocupantes ocidentais.

Os SEAL fazem parte de uma enorme força de tarefas de 10.000 homens do Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC, suas siglas em inglês), com base no Afeganistão, que participou em até 70 incursões diárias em AfPak, capturando – segundo relato do Pentágono – 2.900 “insurgentes” e matando mais de 800 entre abril e julho. O alcance global do JSOC foi analisado em um artigo de Nick Turse (ver Rebelión de 7 de agosto “Uma guerra secreta em 120 países”)

Os SEAL mortos em Wardak faziam parte da mesma unidade, a Equipe 6, envolvida no ataque a Abbottabad, que matou o líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, a princípios de maio. Mas em vez de voar em um dos helicópteros ‘ocultos’ de última tecnologia do 160º Regimento de Operações Especiais de Aviação do exército, os SEAL em Wardak faziam parte de uma operação de resgate, e viajavam em um Chinook da Guarda Nacional.

Enquanto decolavam, caíram em uma armadilha dos talibãs e foram atingidos por uma RPG – o que o blog detalhista Danger Room no site Wired identificou como um obus com apoio improvisado de morteiro (IRAM) - que levava uma ogiva maior que uma RPG disparada do ombro.

Segundo o porta-voz talibã Zabiullah Mujahid, foi certamente “uma arma similar a uma RPG… e estamos tentando conseguir mais”.

Portanto, supondo que o IRAM – que emigrou dos campos de batalha iraquianos – é agora, também, um protagonista no Afeganistão, poderia ser qualificado como retorno de um remix do Stinger. Durante os anos 80 na jihad afegã contra a União Soviética foi um importante fator que mudou as regras do jogo quando os Estados Unidos forneceram centenas de letais Stinger aos mujahideen, causando estragos entre os helicópteros do poderoso Exército Vermelho.

Uma comparação minuciosa entre as operações de Abbottabad e de Wardak poderá causar muito assombro, além de reinventar o mito dos SEAL da Armada como formidáveis caçadores-assassinos invencíveis. Em Abbottabad, enquanto entregavam uma versão atrás da outra do ataque aos meios, finalmente estabeleceu-se que um helicóptero ‘oculto’ simplesmente “se estilhaçou”. Ninguém sabe se foi um erro do piloto ou se dispararam no helicóptero.

O fato é que a “queda” deixou uma parte da cauda intacta do helicóptero ‘oculto’ dentro do complexo. Esse pedaço de cauda fez com que o Pentágono temesse que o mesmo pudesse ser “vendido” pelos paquistaneses aos chineses. É um pouco demais achar que a queda não causou vítimas, como o Pentágono e a Casa Branca fazem crer.

E como a narrativa do ataque a Bin Laden se modificou mais de uma vez, as mentes febris já vinculam essas vítimas com as baixas de Wardak, implicando que os SEAL que realmente morreram na queda em Abbottabad "voltaram a morrer" em Wardak. Não ajuda em nada que as versões iniciais do ataque de Wardak (posteriormente corrigidas ou modificadas) identificassem os SEAL como os mesmos que participaram no ataque para “matar Obama”.

Passa-me o joystick

Após o ataque de Wardak, o novo chefe do Pentágono apareceu com o usual discurso no Afeganistão de “manter o curso”, enquanto os meios corporativos vomitavam que “está sendo programado para que todas as tropas de combate estrangeiras partam antes do final de 2014”. Porém todos sabem que o Pentágono nunca voltará atrás, morrerá e aceitará esse tipo de saída.

O que Wardak fez foi reforçar a ideia do Pentágono de que o governo de Kabul carece totalmente de preparo para manter a segurança em todo o país, sem importar o fato de que a maioria dos afegãos quer que os estrangeiros saiam para sempre. Enquanto a Casa Branca e o Pentágono cantam sua versão num remix de “Should I Stay or Should I Go” (Fico ou vou) do The Clash, tudo o que os talibãs têm de fazer é esperar pacientemente em silêncio (odeiam a música pop). Sabem que o fato de Kabul se fazer cargo da segurança nacional só reforçará sua posição estratégica.

É surpreendente (ou talvez não o seja) que a elite do poder de Washington simplesmente não se dê conta de que o império foi impiedosamente golpeado pelos talibãs durante o último mês. Os talibãs mataram o meio-irmão do presidente Hamid Karzai, senhor da droga e agente da CIA, Ahmad Wali. Mataram pessoas em seu funeral. Mataram o chefe de relações tribais de Karzai e um membro do Parlamento. E mataram o prefeito de Kandahar, Ghulam Hamidi.

Não faz muito tempo – no outono de 2010 – falava-se que os Estados Unidos e a OTAN se ocupariam de Kandahar em uma grande ofensiva de contrainsurgência e que ganhariam para sempre a guerra contra os talibãs.

Agora deixaram de lado essa afirmação devido aos fatos ocorridos. No entanto, seu artista conceitual – de forma típica para Washington – foi chutado. No Iraque, o general David Petraeus apresentou um truque de ilusionista e convenceu a todos em Washington de que sua ofensiva repentina e a contrainsurgência de 2007 foi um sucesso.

No Afeganistão, caiu uma rocha do Hindu Kush na cabeça de Petraeus. Em todo caso, foi promovido a chefe da CIA, de modo que outros serão os culpados. E enquanto caem mais Chinook no Afeganistão, pelo menos poderá ser divertido com o joystick, concentrando-se divertidamente em atacar mortalmente com drones as áreas tribais do Paquistão.

Pepe Escobar é correspondente itinerante do Ásia Times On-line e autor de “Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War” (Nimble Books, 2007) e “Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge”. Seu último livro foi “ Obama does Globalistan” (Nimble Books, 2009). Pode ser contatado através do e-mail: pepeasia@yahoo.com .

Fonte: http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/MH10Df01.html

Traduzido do espanhol por Valeria Lima

15 de setembro de 2009

BRASILEIROS: RECUPEREM A VOSSA HONRA, DEVOLVAM AO PARAGUAI OS SEUS DOCUMENTOS HISTÓRICOS! - Por: José Yorg [*]


Segunda-feira, 07 de Setembro de 2009.

O Dr. Martín Almada enviou uma nota ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, expressando a necessidade de se abrirem os arquivos secretos da Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870): "abrir esses documentos - ilustrou - será de vital importância, neste momento em que o bicentenário da independência paraguaia está prestes a acontecer, pois é de grande significação que o Paraguai disponha de todos os fragmentos de sua História, para conhecer, refletir e assumir o seu passado".

Pergunto se a atitude dos responsáveis pela negativa em entregar esse formidável legado se deve à mesquinhez ou ao temor ou a ambos, pois que outra motivação racional pode ser alegada? Talvez algum rancor escondido explique, por não terem conseguido enterrar o passado glorioso de uma experiência emancipatória guaranítica.

Eis aqui, precisamente, o ponto da questão: o povo brasileiro deve exigir essa justa devolução dos "prêmios" e documentos históricos, de legítimo patrimônio paraguaio, às suas autoridades de direito, para iniciar o seu próprio processo de libertação histórica de um passado que os ofende em demasia.

O exército brasileiro perseguiu implacavelmente, e beirando a loucura, às tropas extenuadas do Marechal Francisco Solano López, e num ato de extrema covardia encurralaram e assassinaram a este homem símbolo de uma nação independente e autônoma… livre dos grilhões estrangeiros que oprimem o seu destino!

Logo depois…o despojo, o confisco de bens, e o desaparecimento de documentos contendo o pensamento, a visão e o porvir venturoso planejado a partir de vontades comuns.

Quantas mentiras e calúnias se levantaram, com a inútil pretensão de apagar da face da terra tanto heroísmo e laboriosidade coletiva de um povo que construiu uma sociedade moderna e dinâmica, baseada na igualdade em direitos!

Os atuais padecimentos, derivados de uma estrutura política da qual o povo paraguaio é consciente, encontram a sua origem inequívoca nesse despojo inicial e no posterior atrelamento de um poder oligárquico conservador e reacionário com seus pares brasileiros.

Insisto, o povo brasileiro não merece tanto escárnio, tanta vergonha em seu processo histórico, perpetuando as pesadas cargas de tal depredação feita por sujeitos ultrajantes, e às escondidas do povo. Ele merece a irmandade latinoamericana, merece o abraço de confraternização.

Os integrantes da Tríplice Aliança em sua genocida guerra contra o Paraguai Independente, acaso encontraram no Paraguai uma nação submetida ao jugo ditatorial como o que eles mesmos possuíam em suas respectivas repúblicas nascentes [e por nascer]? Encontraram uma próspera república, em realidade, o mais moderno desenvolvimento socioeconômico e tecnológico que se conhecia nestes tempos.

Um povo feliz e laborioso, profundamente entrelaçado com as suas autoridades, disposto a os seguir até a morte, como o fez, é o que encontraram as milícias mercenárias invasoras em solo livre e venturoso.

Ao retardar o que inevitavelmente terá que acontecer, a entrega de "todos os fragmentos da história paraguaia para conhecer, refletir e assumir o seu passado", fortalece-se o desejo e expande-se globalmente essa reivindicação legítima.

Necessitamos resgatar a história, tal como se deram os fatos, mas sobretudo o porquê ocorreram tais acontecimentos para configurá-los em uma proposta pedagógica desde um critério rigorosamente ético, dinâmico e profundamente libertário, que leve às escolas - primária, secundária e universitária - um olhar que desvele os verdadeiros fatores responsáveis pela interrupção de uma experiência baseada em mudanças sociais, econômicas, jurídicas e políticas.

Então, já é tempo de satisfações, brasileiros Recuperem vossa honra, devolvam ao Paraguai os seus documentos históricos!

Em fraternidade, um abraço cooperativo!

[*] "cooperário", professor do ensino primário, técnico em cooperativismo e licenciado em administração

(tradução de Rodrigo Oliveira Fonseca)

24 de agosto de 2009

Colômbia: A política de segurança democrática não é de segurança nem é democrática; é de guerra. - Por: Lilia Solano


ALAI AMLATINA, 13/08/2009.- A preocupação com a segurança é uma velha cartada que se dá na Colômbia para defender interesses e projetos, o investimento multinacional e o agora chamado "livre mercado".

Esta estratégia militar de guerra tem no coração um plano bélico contra os movimentos sociais e a insurgência, e mantém um fio condutor com antigas agendas de guerra contra o povo - como foi o "Plan Lazo", desenhado em 1964 para alcançar a então dita pacificação do país; assim como o "Plan Andes", que em 1968 defendeu a guerra contra a guerrilha; ou o "Manual Provisório para o Planejamento da Segurança Nacional" (1974); a "Estratégia Nacional" contra a Violência de Cesar Gaviria (1991); e ainda o "Plan Colombia" de Andrés Pastrana, que permitiu uma enorme influência militar estadunidense (1998), com um investimento militar de milhões de dólares.

Em 2002, junto com Álvaro Uribe, chega o programa militar da chamada "segurança democrática", incluído o que chamaram de "guerra total", que combina a doutrina da guerra de baixa intensidade com estratégias de guerra convencional; concepções militares baseadas em manobras massivas de artilharia, armamento blindado, grandes concentrações de tropas e organização do exército em corpos, divisões, brigadas, batalhões e outra vez o uso da população civil.

Quer dizer, o que cobre o manto da "segurança democrática" é outro capítulo da guerra que nos impuseram historicamente, uma política aparentemente exitosa porque tem as seguintes conquistas que a sustentam e os resultados que a justificam:

* Firma um modelo de governo criminoso, que se apóia nas forças armadas, nos paramilitares e nos narcotraficantes, pois lhes entrega o comando dos organismos de controle, administração, justiça, embaixadas, funcionalismo público etc.

* Protege os interesses das multinacionais europeias e estadunidenses, os negócios dos grupos empresariais locais, os mega-projetos e oferece Tratados de Livre Comércio.

* Converte os massacres do Estado em falsos positivos e promove os deslocamentos em massa, violência sexual, torturas e desaparecimentos, transformados em troféus da segurança democrática.

* Despreza o acordo humanitário, a saída política negociada ao conflito armado e rechaça a paz, a soberania, a autonomia e a integração da América Latina.

* Condena líderes à detenção arbitrária e os encarcera; viola seus processos e os princípios jurídicos, como a presunção de inocência, a investigação imparcial, o direito de defesa e o julgamento justo.

* Ignora obrigações relativas à promoção e à proteção dos direitos humanos, os quais viola com absoluta impunidade.

* Criminaliza as organizações camponesas, indígenas e afrocolombianas, estudantes, representantes de movimentos populares e sociais, feministas e militantes da oposição que lhes são incômodos, aos quais chama de terroristas.

* Aprova leis como a do Desenvolvimento Rural, legalizando a contra-reforma agrária impulsionada pelo narcotráfico, o paramilitarismo e os latifundiários para por a terra a serviço do grande capital financeiro.

* Agride violentamente a meninas, mulheres, adolescentes e a população GLBT.

* Assegura polpudas recompensas e premia a quem assassina líderes sindicais.

* Provoca o êxodo de milhares de colombianos para diferentes lugares do mundo, fazendo com que muitos deles vivam em condições de desproteção e vulnerabilidade.

* Persegue intelectuais dedicados ao pensamento crítico e os chama "bloco de intelectuais da guerrilha".

* Ataca as organizações de Direitos Humanos e as desqualificam por considerá-las "agentes do terrorismo".

* Combate a liberdade de expressão, convertendo a maioria dos meios de comunicação em antenas repetidoras do discurso oficial.

* Justifica o não cumprimento dos Convênios e Tratados Internacionais para a defesa dos Direitos Humanos assinados pela Colômbia.

* Cataloga como terroristas os países da região que não estão a serviço dos interesses estadunidenses, e, portanto, considera que sua doutrina da segurança democrática pode ser extraterritorial.

* Impõe bases militares estadunidenses para contribuir com a desestabilização da região, com a pretensão de transformar a Colômbia em uma espécie de Israel, contra o resto dos povos irmãos.

* Apaga da memória coletiva a história oculta da repressão na Colômbia e aniquila a dignidade dos povos e seu esforço por construir uma verdadeira democracia.

O que vivemos na Colômbia não é política, nem é segurança, e muito menos democrática. É uma guerra de proporções gigantescas que, em nome da "luta contra o terrorismo", pretende fazer com que ignoremos a pobreza e a miséria crescentes, o desemprego, o rearmamento de grupos paramilitares e narcotraficantes, o deslocamento forçado em níveis absurdos, a parapolítica, a delinquência organizada, a privatização dos serviços públicos, as torturas do DAS [Departamento Administrativo de Segurança] ordenadas pelos governos do momento, os assassinatos de jovens pobres por parte do exército e da polícia, a corrupção do governo e, em geral, a decomposição de um estado dedicado à criminalidade.

* Lilia Solano é professora e pesquisadora colombiana.

Tradução de Roberta Moratori

10 de agosto de 2009

FORA IANQUES DA AMÉRICA LATINA! NÃO À INSTALAÇÃO DAS BASES MILITARES DOS EUA NA COLÔMBIA!


(Nota Política do PCB)


O Partido Comunista Brasileiro (PCB) vem a público repudiar a intenção do governo dos Estados Unidos, com o apoio e beneplácito do presidente fascista da Colômbia, Álvaro Uribe, de instalar bases militares em sete pontos do território colombiano. A estratégia, negociada secretamente entre os dois governos nos últimos meses e agora tornada pública, visa substituir a base de Manta, no Equador, até então o mais importante centro de operações dos EUA na região, depois da devolução do Canal do Panamá, em 1999.

O governo democrático e popular de Rafael Correa recusou-se a renovar a permanência dos militares estadunidenses em seu país, em respeito à decisão aprovada na reforma constitucional referendada pelo povo equatoriano em setembro de 2008. A atitude de Correa também foi uma resposta à ação terrorista contra as FARC, montada a partir da base de Manta, sob comando dos EUA e com apoio de Uribe, responsável pelo assassinato do dirigente revolucionário Raul Reyes.

A Colômbia passará a ser ocupada oficialmente pelos EUA através de sete bases militares, conforme anunciado pelo general James Jones, assessor de Segurança Nacional do presidente Barack Obama. Se depender do desejo de seu ditador de plantão, os colombianos perdem em definitivo a soberania de parte de seu território, oficializando, assim, a condição do país de mera base de operações e cabeça de ponte do imperialismo no hemisfério sul.

As bases militares, que serão usadas pelo Exército, a Marinha e a Aeronáutica dos EUA, servirão para que as forças armadas ianques, a partir do território colombiano, vigilância e controle militar e aéreo sobre os próprios colombianos e os povos da América Latina e do Caribe e, possivelmente, até sobre nações da África banhadas pelo Oceano Atlântico, que ficarão sob o poder de fogo da aviação norte-americana.

Há algumas semanas, o embaixador estadunidense na Colômbia, William Bronfield (cérebro da operação militar de dezembro de 1989, realizada para resgatar o ditador Noriega, aliado dos EUA no Panamá, à custa de cerca de dois mil civis mortos), confirmou tratar-se da transferência da base de Manta para a Colômbia. A subserviência do governo colombiano é tanta que um dos pontos do acordo prevê a total impunidade dos militares e civis estadunidenses perante a justiça local. No Equador, 300 norte-americanos jamais puderam ser julgados, mesmo tendo cometido delitos como roubos e homicídios.

O objetivo do plano é que as bases militares possam servir como ameaça permanente aos "perigosos" países vizinhos, como o Equador e a Venezuela, onde processos eleitorais associados a movimentos sociais marcados por intensa participação popular conduzem a importantes transformações socioeconômicas, responsáveis pelo enfrentamento à burguesia e pelo progressivo controle sobre o antes intocado poder do capital nestes países. As ações militares, mais uma vez sob o falso argumento de ampliar a guerra contra o narcotráfico e de atacar o "terrorismo" - isto é, as guerrilhas e as lutas das massas contra o capitalismo, serão dirigidas, centralmente, contra populações em toda a América Latina, do Pacífico ao Caribe.

Desde a década de 1980, em nome da pretensa guerra contra as drogas, os governos dos EUA financiam, treinam e armam tropas colombianas para o combate às guerrilhas formadas a partir da grande revolta popular de 1948, El Bogotazo (que desencadeou inúmeros conflitos sociais entre 1948 e 1953, período conhecido como La Violencia, quando morreram 180 mil colombianos). A estratégia de ocupação foi ampliada com o Plano Colômbia, em 2000, visando o combate às FARC, que passaram a dominar grande parte do território colombiano. Mas, fundamentalmente, aumentava-se a presença norte-americana em uma região de grande interesse geopolítico, por sua posição estratégica e pela riqueza em recursos minerais e energéticos, como petróleo, gás e carvão.

Está claro que a iniciativa do governo de Obama faz parte da política imperialista, que, em favor dos interesses das corporações e da indústria bélica estadunidense, mantém seus tentáculos mundo afora. A face moderada de Obama busca ofuscar a política do big stick. Mas a máscara começa a cair, pois o silêncio sobre o massacre israelense na Faixa de Gaza, o recrudescimento da guerra no Afeganistão, a manutenção da ocupação do Iraque, as ameaças veladas ao Irã e ao Paquistão, assim como o apoio ao golpe civil-militar em Honduras, demonstram que as ações do imperialismo, unindo os interesses econômicos das transnacionais à ameaça constante da guerra, continuam mais vivas que nunca. Na América do Sul, à reativação da IV Frota na costa sul-atlântica vem somar-se agora o projeto de instalação de bases militares na Colômbia.

O PCB repudia o acordo criminoso entre Obama e Uribe, denunciando a iniciativa como uma ameaça concreta à paz e à convivência fraterna entre os povos do nosso continente. Conclamamos as forças de esquerda, democráticas e populares em nosso país a prestar solidariedade ativa aos trabalhadores e movimentos sociais em luta em toda a América Latina e ao protesto organizado contra mais esta ação agressiva do imperialismo estadunidense.

PCB - Partido Comunista Brasileiro
Comitê Central
agosto de 2009

30 de julho de 2009

“JUSTA CAUSA” - Por: Laerte Braga [*]



Tente associar a figura do presidente golpista de Honduras Roberto Michelletti a de políticos brasileiros para que se possa ter uma idéia mais clara do que de fato acontece em Honduras. José Sarney? Fernando Henrique Cardoso? José Serra? Artur Virgílio? Tasso Jereissati? Aécio Neves? Onze entre dez senadores?

A soma de todos eles e mais alguma coisa de lambuja.

O poder de figuras como Michelletti se constrói nas perigosas relações entre grupos econômicos e políticos. Para que se compre o presidente do Senado José Sarney, ou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é preciso que haja um comprador. Um Ermírio de Moraes, um Daniel Dantas, etc. Um banco Itaú da vida.

Por exemplo. Os que “compraram” a VALE (foi doada). Ou os que contribuíram para a campanha da reeleição em 1998 – a Telefónica Espanhola –. Seja na campanha propriamente dita ou na compra de deputados e senadores para aprovar a reeleição.

O fim da União Soviética resultou na imposição de um modelo político e econômico único. Ditado a partir dos interesses do conglomerado de empresas, bancos e latifúndios que conhecemos como Estados Unidos. O formidável arsenal militar norte-americano garante e assegura esse modelo. São bases militares espalhadas pelo mundo inteiro para garantir a “paz”.

Quando a União Soviética invadiu o Afeganistão os norte-americanos financiaram Osama bin Laden e a guerrilha Talebã para combater os “invasores”. Osama bin Laden é de uma família saudita do ramo de petróleo e construção civil – empreiteiros – e o que existe de obra pública no Sudão, por exemplo, foi feito a partir do engenheiro civil Osama bin Laden. São sócios da família Bush no negócio do petróleo. Isso está revelado com todas as letras no documentário “O 11 de setembro” do diretor Michael Moore. Naquele dia o único avião a levantar vôo num aeroporto norte-americano foi para levar os bin Laden à Arábia Saudita. Estavam em visita de negócios aos EUA.

A ordem partiu diretamente do presidente George Bush.

Eleito presidente dos EUA em 1980 o ator Ronald Reagan iniciou uma aproximação com o ditador iraquiano Saddam Hussein e financiou em seguida a guerra Iraque versus Irã. Armas químicas e biológicas foram usadas num conflito que matou milhões de pessoas. O objetivo de Reagan era derrubar o que chamam de “regime dos aiatolás”, mas é a revolução popular islâmica.

Foi no governo de George Bush pai que o ditador do Iraque invadiu o Kwait como “prêmio” por sua “colaboração” com a “paz mundial”. E foram alguns meses depois que Bush percebeu que Saddam Hussein acumulara tal poder em petróleo – com o Kwait – que era necessário eliminar o já ex-aliado. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes assim o exigiam, tudo em nome dos negócios.

E foi assim que aconteceu a primeira guerra do golfo.

Esse tipo de política cínica, imperialista, é típica dos norte-americanos desde que foi proclamada a independência do país. Roubaram ao México a Califórnia e o Texas.

Intervenções militares norte-americanas na América Central foram e são rotina desde o século XIX. No século XX um presidente dos EUA, Theodore Sorensen Roosevelt, definiu essa política como sendo a do “big stik” – grande porrete –. Em países como Cuba, República Dominicana, Nicarágua, Honduras, El Salvador, associaram-se generais corruptos, empresários, latifundiários e a United Fruit tornou-se dona, literalmente, dos negócios. Associou-se às elites locais (bem remuneradas, vale dizer, bem compradas) e isso incorporava o crime organizado. Tráfico de drogas, mulheres, contrabando, jogo, toda a sorte de bandalheiras possíveis.

Se um ditador como Trujillo – República Dominicana – tinha delírios de faraó e mudava o nome da capital do seu país para Ciudad Trujillo e isso causava engulhos a alguns políticos norte-americanos, na hora de conferir o balanço os engulhos sumiam. Somoza, cuja família governou a Nicarágua por décadas, vendia a mãe na feira se significasse lucro.

Yes, nós temos banana. Um dos principais produtos de exportação desses países e tudo sob a batuta da United Fruit.

E nem estou falando no território ocupado de Porto Rico que, em manobra característica de imperialistas, agregaram aos EUA como se estado norte-americano fosse. O Panamá foi “inventado” no final do século XIX, início do século XX para que pudessem controlar o canal e assim melhorar os lucros nos negócios.

Parte arrancada da Colômbia.

Não era diferente na América do Sul. Financiavam ditaduras como a de Marco Perez Jimenez na Venezuela. Ou de Rojas Pinilla na Colômbia. Uma infinidade de ditadores na Bolívia, um general ou um coronel por semana, por dia. E mantinham governos ditos democráticos sob controle.

Ao longo de todo esse processo revoluções populares foram sendo esmagadas. Sandino, José Martí, Arbenz e outros. Quando Trujillo foi derrubado, logo inventaram Joaquim Balaguer, ministro do ditador. Nas primeiras eleições livres na República Dominicana venceu Juan Bosh. Como tratou de cuidar dos interesses de seu povo foi deposto pelos EUA. Na forma usual. A soma de generais corruptos com elites podres e malas de dinheiro, pronto, está aí o golpe.

Ao receber um relatório sobre direitos humanos no Brasil durante o governo do ditador Médice, o presidente Nixon disse que “lamentava”, mas “fazer o que, ele é um bom aliado”. Cinismo à potência máxima. A lógica dos negócios.

A revolução cubana foi um marco. Fidel Castro, Guevara, o início de uma nova época, uma nova etapa da luta popular na América Latina.

Em 1961 percebendo a ânsia dos povos latino-americanos de livrarem-se do jugo capitalista o presidente John Kennedy criou um programa chamado Aliança para o Progresso. A pretexto de combate à pobreza. Toneladas de leite em pó com esterilizadores foram distribuídos em países latino-americanos junto com agentes da CIA e convênios com a Agência Internacional de Desenvolvimento – USAID –, a substituição do porrete, da areia, pela vaselina.

Chegam aí, pela primeira vez à América do Sul pastores neopentecostais ligados ao líder “religioso” Billy Graham. Entram pelo Chile e começam a formar os “edir macedo” de hoje.

Todo um conjunto de grupos, fatos, todo um processo de dominação.

Manuel Noriega era um tenente-coronel do exército do Panamá que cismou de acrescentar aos ganhos normais (soldo, contribuição da CIA, etc, etc, propinas) o fantástico lucro do mundo do tráfico de drogas. Não afetou em nada os negócios com os EUA....

E, assim o foi até o dia que o escândalo explodiu na imprensa dos EUA e George Bush para abafar a cumplicidade nos negócios entre empresas norte-americanas e elites panamenhas, mandou invadir o Panamá, destituir o aliado Noriega, que ainda por cima cismara de nacionalizar o canal e prendê-lo.

“Operação Justa Causa”, em 1989. Milhares de civis panamenhos morreram durante as atrocidades cometidas por fuzileiros dos EUA. Noriega exilou-se na Nunciatura Apostólica – embaixada do Vaticano – e acabou entregue pelo núncio – embaixador – ao governo de Bush. Foi levado de avião para Miami, antes que pudesse abrir a boca e trancafiado numa cela. Condenado a trinta anos de prisão.

René Barrientos, Ovando Candia, generais bolivianos que enfrentaram a guerrilha liderada por Chê Guevara, eram notórios traficantes de drogas, mas aliados sustentados pelos EUA.

Todo o espectro de terror que varreu a América Latina nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado, que pode ser sintetizado na Operação Condor, foi montado nos EUA.

Operação Condor foi a associação dos aparelhos repressores de países governados por generais a serviço dos EUA. Eufemismo para o assassinato de líderes de oposição como Orlando Letelier (chileno, ex-ministro de Allende). Carlos Pratt (general chileno que se opunha a Pinochet). Juan José Torres, ex-presidente da Bolívia que se opôs aos EUA. Um sem número de militantes de movimentos de luta contra as ditaduras nessa parte do mundo. Presos, torturados, assassinados, mulheres estupradas, famílias devastadas pela violência e boçalidade dos ditadores e seus esbirros, toda essa mancha sombria que cobre a nossa História e aqui, em nosso País, ainda permanece oculta e livres os torturadores.

A principal base de operações dos EUA na América Central é Honduras. O país chegou a ser ironicamente chamado de “porta-aviões norte-americano”.

A Colômbia se presta hoje a esse papel na América do Sul. A mesma lógica que levou Kennedy a criar a Aliança para o Progresso e permitiu a construção do processo golpista.

Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, é narcotraficante. A denúncia foi feita pelo próprio departamento de combate ao tráfico do governo dos EUA.

O fato de Uribe ter construído sua carreira política a soldo de Pablo Escobar, um dos maiores traficantes da América do Sul, não é empecilho para uma aliança com os norte-americanos, desde que os norte-americanos possam manter o controle dos negócios e possam montar políticas golpistas contra governos populares. O de Chávez, o de Evo Morales, o de Rafael Correa, o de Fernando Lugo. Ou manter o governo brasileiro de Lula dentro de limites aceitáveis para o império e com vergonhosa contribuição na presença militar do Brasil no Haiti.

E acima de tudo impedir que essa parte do mundo, a América Latina, forme um bloco político e econômico à revelia dos interesses de Wall Street/Washington, ganhe dignidade e nós, latino-americanos, tenhamos a nossa identidade estampada na nossa real liberdade a ser conquistada, como estão conquistando outros irmãos latinos.

Isso não interessa a Washington e pouco importa que seja Obama ou Bush, a política é a mesma variando apenas o estilo. No caso de Obama há outros aspectos a serem levados em conta. Mas isso é outra história.

Roberto Michelletti é um mafioso, filho de italianos, que construiu sua carreira política associado a elites hondurenhas. Existem aos montes aqui no Brasil. Uma espécie de Gilmar Mendes que se Daniel Dantas pedir as botas, lustra com a própria língua para agradar ao chefe e receber mimos maiores.

O presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya não é necessariamente um homem de esquerda. É um dono de terras, madeireiro, de um partido de centro-direita. Num determinado momento resolveu ouvir o povo de seu país sobre que rumos os hondurenhos queriam para Honduras e para eles.

Elites imaginam que povo seja aquela massa disforme, sem rosto, que apinha ônibus em direção às suas fábricas, às suas fazendas, na exploração brutal e violenta do trabalho escravo que assistimos a cada dia, a cada minuto, não importa que se possa comprar uma calça, ou um tênis de marca. Essa é uma das marcas da escravidão. O carimbo carimbado na testa das classes médias. O chicote nas costas dos trabalhadores e camponeses.

Ouvir o povo significa contrariar os negócios. Depuseram Zelaya. Comprar um general não é tão difícil assim. Boa parte se acha à venda no patriotismo canalha de sempre. O que não quer dizer que não existam militares decentes. A história está cheia de exemplos de gente assim, íntegra.

Mas transborda de canalhas.

Michelletti traz consigo a garantia às empresas norte-americanas, às elites hondurenhas, ao tráfico de drogas – foi apontado como financiado pelo tráfico em suas campanhas –, o tráfico de mulheres e a prostituição, o jogo, toda a sorte de negócios. E de quebra a bênção do cardeal hondurenho e o silêncio cúmplice de Bento XVI.

Foi só entregar a borduna a generais e seus comandados que o golpe estava desfechado e o povo hondurenho mantido sob o domínio dos senhores de terras, de empresas, de tudo o que significa lucro, ganho.

A condenação do presidente Obama ao golpe foi formal. Como se costuma dizer, para inglês ver. O cinismo logo desvelado na postura da secretária de Estado Hilary Clinton. Ou na ação de senadores e empresários norte-americanos. De traficantes de Miami.

Não contavam com a reação do povo hondurenho. Nem de longe imaginavam que os cidadãos estavam dispostos a resistir, como os venezuelanos resistiram ao golpe contra Chávez em 2002 e o recolocaram no governo, confirmando-o em sucessivas eleições e referendos.

Controlam a mídia, controlam a mente das pessoas, mas não conseguem controlar a incontrolável vontade de encontrar a dignidade nacional e construir um país, a nação, com o rosto e a marca de cada latino-americano, somos um povo só em muitos povos.

E o velho porrete. Prisões, tortura, estupros, assassinatos, o cinismo dos direitos humanos nas bombas atiradas de dentro de ambulâncias da Cruz Vermelha contra manifestantes pró-Zelaya.

Zelaya, Ortega, Chávez, todos simbolizam em maior ou menor escala, não importa, o ideal de luta de povos oprimidos e que muitas vezes nem se percebem assim, tamanhas as doses cavalares de colonização aplicadas em injeções diárias de redes de tevês como a GLOBO aqui, ou jornais como a FOLHA DE SÃO PAULO, ou revistas como a VEJA, em todo o processo de controle das informações. Não foi diferente em Honduras.

Você pode saber que o nariz de Michael Jackson está desaparecido. Você não pode saber que milhares de hondurenhos estão desaparecidos, muitos foram assassinados, mulheres estupradas, que milhares estão sem alimentos, sem água, sem medicamentos, mas resistem.

Não é uma ação isolada. É só o capitalismo em sua forma mais selvagem, vivendo uma de suas muitas crises. Que leva, por exemplo, mulheres espanholas a se prostituírem para manter em dia as contas das lojas nos shoppings. O modelo político e econômico não permite que as pessoas se deixem mostrar fracas, pois o capitalismo é o triunfo dos fortes, vale dizer, dos opressores.

Pouco importa que o primeiro-ministro da Itália seja Sílvio Berlusconi e que Berlusconi, um banqueiro, queira eleger prostitutas para o parlamento de seu país, para o parlamento europeu. Importa que Berlusconi siga à risca as regras do negócio.

O mal menor aí são as prostitutas. Ou prostitutas são figuras como Berlusconi. Como Obama. Como Michelletti. Como Sarney. Como FHC. Como Serra. Como Aécio. Como Jereissati. Existem em toda a América Latina.

Se Uribe se mantiver na linha, traficar seus “bagulhos” sem maiores atropelos, ou sem afetar os negócios, os bagulhos também são negócios, fica lá impávido defensor da democracia. Onde você acha que o dinheiro desses caras vai? Para os bancos deles, lógico.

Chamam isso de “operação justa causa”. No Iraque foi “justiça infinita”. No Afeganistão foi “liberdade duradoura”.

Matam hondurenhos, matam palestinos, matam colombianos, matam afegãos, matam iraquianos. Seqüestram, torturam, mantêm um campo de concentração em Guantánamo.

Imagine se não fosse “justa causa”.

[*] Laerte Braga é jornalista. Nascido em Juiz de Fora, trabalhou no Estado de Minas e no Diário Mercantil.

15 de julho de 2009

Obamismo: guerra e militarismo


"…Se com Obama é mais fácil ganhar os aliados para a guerra e o militarismo, não é menos verdade que os povos não funcionam de acordo com o relógio do império. (…) "O planeado aumento do contingente militar e da artilharia pesada [no Afeganistão] não é nenhuma alternativa e apenas vai aumentar o sofrimento das populações, as perdas de ambos os lados, provocar mais violência, terror e vítimas. A única alternativa é a urgente retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão". Por muito mediático que seja o "obamismo" os povos odeiam a guerra e o militarismo".
Rui Paz - 12.07.09

As tropas de Obama iniciaram mais uma ofensiva militar no Afeganistão para tentar liquidar a resistência contra a ocupação estrangeira e se possível fazer alastrar o conflito ao Paquistão, um Estado possuidor de armas nucleares. A chamada "operação paz duradoura" que sustenta a agressão militar dos EUA e da NATO resulta de um acto unilateral que afronta a Carta das Nações Unidas e os princípios do Direito Internacional.
Se a guerra contra o Iraque visou fundamentalmente a afirmação da supremacia dos Estados Unidos sobre os restantes aliados da NATO e o controlo exclusivo por Washington do petróleo iraquiano, hoje, ao intensificar a agressão militar no Afeganistão, Obama pretende arrastar os aliados europeus para a guerra e o esmagamento dos povos que se levantem contra o imperialismo. Os Estados Unidos já sabem que, apesar de todo o seu poderio militar e económico, não podem impor sozinhos a sua nova ordem mundial.
É essa a razão porque o presidente norte-americano, apesar de cobrir de verniz moralista muitas das suas habituais pregações é o primeiro a esconder e silenciar sistematicamente os assassínios e massacres perpetrados pelas tropas norte-americanas nas aldeias afegãs. É isto que está a levar a direita conservadora, os amigos reaccionários de Bush, e os militaristas de todos os matizes a sair das tocas onde tinham hibernado com receio de uma "possível mudança", e a converter-se em menos de um ápice ao "obamismo".
Mas, se com Obama é mais fácil ganhar os aliados para a guerra e o militarismo, não é menos verdade que os povos não funcionam de acordo com o relógio do império. Na Alemanha, as últimas sondagens continuam a revelar que mais de dois terços da população opõem-se à participação das Forças Armadas na ocupação militar do Afeganistão. O Governo de Ângela Merkel e da social-democracia continua a negar oficialmente que a Alemanha esteja em guerra, apesar de cada vez mais soldados regressarem ao Reno em macas e caixões. A Constituição alemã e o Código Penal prevêem pesadas penas de prisão para os responsáveis pela "preparação e desencadeamento de uma guerra de agressão" (art.26).
Para obrigar o povo e os soldados a aceitar o militarismo como parte integrante da actual política externa alemã, o ministro da Defesa Jung acaba de criar a "ordem de honra da Bundeswehr pela coragem". É a primeira vez, desde o regime hitleriano e do nazismo que soldados alemães voltam a ser condecorados por participarem em guerras no estrangeiro.
Ao intervir no recente debate no Bundestag sobre a utilização de aviões-radar AWACS e o aumento dos efectivos militares alemães no Afeganistão, o deputado Norman Paech, em nome dos 60 deputados que compõem o grupo parlamentar do partido "A Esquerda" desmascarou a chanceler Ângela Merkel esclarecendo que "no Afeganistão reina a guerra e a Bundeswehr está cada vez mais enredada neste círculo infernal. O número de vítimas aumenta de forma dramática semana após semana. As tropas estrangeiras não são aceites como libertadoras mas como exército de ocupação (...) O planeado aumento do contingente militar e da artilharia pesada não é nenhuma alternativa e apenas vai aumentar o sofrimento das populações, as perdas de ambos os lados, provocar mais violência, terror e vítimas. A única alternativa é a urgente retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão".
Por muito mediático que seja o "obamismo" os povos odeiam a guerra e o militarismo.
Este texto foi publicado em Avante nº 1.859 de 9 de Julho de 2009 http://www.odiario.info